Cinema

Solidão, lágrimas e silêncio: o tormento de Anya Taylor-Joy para brilhar como Furiosa

A atriz passou meses sem falar, sob as ordens do obstinado George Miller. O novo capítulo de "Mad Max" estreia esta quinta-feira.

George Miller apaixonou-se por Anya Taylor-Joy num visionamento privado de “Last Night in Soho”. “É incrivelmente rigorosa, disciplinada”, elogiou o cineasta. Edgar Wright, criador do filme com a atriz, pô-los em contacto. Após duas gravações de teste — uma delas obrigou Taylor-Joy a recriar o momento de raiva de Peter Finch em “Escândalo na Televisão” de 1976 — , numa conversa informal por telefone, percebeu que era a escolhida quando Miller atirou casualmente a expressão: “Então, quando vieres à Austrália…”

O papel em causa era tudo menos banal. A atriz de 28 anos tinha nas mãos a personagem com que, em 2015, Charlize Theron arrasou em “Mad Max: Estrada da Fúria”. Miller, conhecido pela sua teimosia e obstinação — o filme de ação foi um sucesso sobretudo pela aposta nos efeitos práticos. Dispensou os efeitos computorizados, numa era onde estes últimos são a regra e prometeu uma nova investida arriscada pelo mundo desolado da saga.

Volvidos dois anos sobre o arranque das gravações, Taylor-Joy prepara-se para assistir à estreia mundial do filme, que chega às salas de cinema portugueses esta quinta-feira, 23 de maio. Mas numa conferência de imprensa de antecipação, a atriz revelou-se enigmática. “Nunca me senti tão sozinha do que quando fiz este filme”, explicou ao repórter do “The New York Times”. “Não quero ir muito a fundo nessa questão, mas tudo o que pensava que ia ser fácil, revelou-se muito difícil.”

A tentativa de explorar o tema esbarrou na intransigência da atriz. “Próxima pergunta”, atirou, antes de dar uma dica ao jornalista. “Fala comigo daqui a 20 anos.”

Certo é que a experiência terá sido impactante, como revela a própria noutra entrevista. “Assim que vi os primeiros três minutos [da edição final], comecei a chorar. E depois não conseguia falar. Foi traumatizante vê-lo”, explicou à “Variety”.

Experiências traumáticas num set comandado por George Miller não são propriamente novidade. Charlize Theron falou sobre isso mesmo em diversas entrevistas, depois de brilhar no filme de 2015. “Sinto uma alegria extrema por termos conseguido fazer o que fizemos, mas também como se tivesse um buraco no estômago”, contou ao “The Times”. “Sentes uma espécie de traumas que o corpo memoriza, que têm a ver com a gravação, e que continuo a sentir ainda hoje.”

A continuação da saga regressa ao mundo pós-apocalíptico para revisitar Furiosa, a partir do momento em que é forçada a deixar o Lugar Verde das Muitas Mães. Acaba por ficar nas mãos de um grupo de motociclistas liderado por Dementus e, eventualmente, acabam por esbarrar com Immortan Joe. Ao seu lado, Taylor-Joy tem Chris Hemsworth, no papel de Dementus.

A sequela recupera a ação frenética dos capítulos anteriores, e embora Miller tenha recorrido mais do que é habitual em si aos efeitos especiais, a grande maioria das cenas de luta continuam a exigir tudo dos atores, duplos e figurantes. Tudo para cumprir a velha reputação do cineasta. “Queria ser posta numa situação onde não teria outra opção senão crescer. E foi isso que aconteceu”, relembra a atriz.

Furiosa fala pouco e, por isso, Miller mostrou-se obcecado com as milimétricas expressões faciais de Joy. “Ele tinha uma ideia muito estrita e bem definida da cara de guerra da Furiosa e isso só me permitiu usar os olhos durante grande parte do filme. Foi quase sempre um cenário de ‘boca fechada, sem emoção, fala com os olhos’. Isso foi tudo a que tive direito”, explica.

Os comentários feitos à imprensa não revelaram muito, mas deixaram escapar o suficiente para que a especulação crescesse. Meses de gravações sem que a personagem dissesse uma palavra, isolamento, solidão, lágrimas e trauma — tudo parecia apontar para mais controvérsia atrás das câmaras.

Após a estreia de “Mad Max: Estrada da Fúria” emergiram vários detalhes sobre os conflitos no set, sobretudo o ambiente que levou a que Charlize Theron e Tom Hardy chocassem com violência. O ódio entre os dois protagonistas foi repetidamente relatado, por atores, membros da equipa e jornalistas que revisitaram todo o processo.

A disciplinada Theron e o bad boy Hardy nunca se entenderam, ao ponto de a atriz o confrontar diretamente à frente das câmaras. “Multem este cabrão em mil dólares por cada minuto que empata a equipa. Que desrespeito”, terá atirado numa das cenas.

O episódio relatado no livro “Blood, Sweat & Chrome” revela que Hardy não se ficou. “O que é que acabaste de dizer?”, respondeu com violência e agressividade. Tanta que Theron ter-se-à mesmo sentido ameaçada. “Esse foi o ponto de viragem”, revelou um operador de câmara.

Miller encolheu os ombros. Mais tarde, comentou o tema: “Sou um otimista. Para mim eram dois atores a espelhar os comportamentos das personagens.” Certo é que gravar a saga e ficar às mãos de Miller é tudo menos fácil.

“Nunca me levantei tão cedo para gravar. Era 1h45 da madrugada quando me chamaram. Pensei: ‘Acabámos de fechar o dia. Já? Só pode ser um erro”, contou à “Variety” sobre as gravações que decorreram no deserto australiano.

A sua parte da gravação durou mais de seis meses e obrigou a trabalhar também aos fins de semana. “Cheguei a um ponto em que há dois meses que não via alguém que não estivesse com o cabelo e a maquilhagem do filme, que não via alguém normal”, explica. A intensidade aumentava quando Miller estava no comando. Os takes sucediam-se, com instruções cada vez mais precisas.

“Agora com a boca fechada”, dizia o cineasta a Taylor-Joy, que hoje olha de outra forma para essa exigência e a vê como ponto obrigatório para dar origem a um filme marcante que faz jus à personagem. “Acho que todas as restrições que me foram impostas pelo George criaram um efeito radiante na personagem, porque está reprimida durante todo o filme.”

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