Cinema

Steven Yeun: de “Walking Dead” até aos Óscares para contar a vida de imigrante

O filme que o levou a uma nomeação inédita tem muito da sua própria vida. Nos Óscares, pode finalmente alcançar o Sonho Americano.
Vem aí um Óscar?

Nos anos 80, uma família sul-coreana percorre meio mundo para aterrar na América, à procura de novas oportunidades. Esta é a premissa base de “Minari”, um dos filmes do ano que chega aos Óscares com potencial para arrasar; mas poderia também ser a história de Steven Yeun, mais conhecido pela interpretação de Glenn em “The Walking Dead”.

A performance em “Minari” significa a chegada ao topo numa carreira que começou numa das mais bem-sucedidas séries da década. Foi, aliás, o seu primeiro grande papel. Dez anos depois, o sonho: Yeun conquistou não só a honra de ser um dos nomeados na categoria de Melhor Ator, mas também a de ser o primeiro ásio-americano a intrometer-se na luta.

A nomeação torna-se ainda mais assinalável quando se olha para os concorrentes: as lendas de Gary Oldman e Anthony Hopkins; o talentoso Riz Ahmed; e o já falecido Chadwick Boseman. Com seis nomeações ao todo, “Minari” promete dar luta.

Na verdade, “Minari” tem também muito da vida de Lee Isaac Chung, o argumentista e realizador que nasceu em Denver, filho de imigrantes coreanos, e cresceu numa pequena quinta no ambiente rural do Arkansas — o mesmo cenário usado no filme. Apesar dos pormenores autobiográficos, é uma história que assenta na vida de Yeun e, de forma mais universal, na de todos os imigrantes.

“Ele criou algo com que me identifico. Muitas vezes, estas histórias são contadas da perspetiva do olhar branco americano ou de como [os imigrantes] encaixam na América. Este filme fala apenas deles e da sua perspetiva, como uma família de seres humanos”, revelou o ator de 37 anos à “NPR”.

Apesar de confessar que não, o papel não foi escrito a pensar em si, diz encontrar muito de si e da sua história pessoal no filme e na personagem. “[Fazer este filme] foi assustador. Não só estou a representar a geração do meu próprio pai, mas também tudo o que desenvolvi nesta jornada, que é uma enorme afastamento que acontece entre a primeira e a segunda geração de imigrantes.”

Nascido em 1983 na capital Seul, numa família de classe média. O pai, arquiteto de profissão, começou a ponderar a ideia de se mudar para a América do Norte depois de uma visita à Coreia do Sul de um representante político de Regina, no Canadá, na qual tentou aliciar coreanos a mudarem-se. Acabariam por fazer as malas e viajar até à província de Saskatchewan em 1988: Steven, os pais e o seu tio.

Yeun interpreta o pai da família sul-coreana nos EUA

“Mudei-me para a América com quatro anos. Era suficientemente novo para o mundo assumir que eu não percebia o que estava a acontecer, mas suficientemente velho para entender tudo. E senti todos os sentimentos.”

Yeun teria mais ou menos a mesma idade de David, a criança que é também uma das protagonistas da história. “Deixas a segurança de um sítio que conheces, és arrancado de lá, depois acabas por começar a separar-te dos teus pais através da cultura, da linguagem, da compreensão que ganhas do novo local onde vives. A um nível subconsciente, é doloroso.”

No primeiro ano, já no Canadá, Yeun não falava inglês, o que o levou a retrair-se. Questiona até que ponto não terá sido nesse momento que aprendeu as primeiras ferramentas da interpretação. “Não querendo ser lamechas, provavelmente foi nesse momento que comecei a usar a máscara”, confessou a Stephen Colbert, quando confrontado com uma foto de si com cinco anos.

Não foi uma adaptação fácil. Aliás, as primeiras palavras que aprendeu a dizer em inglês foram “não chores”.

Para interpretar Jacob, o pai de família sobre quem recai a responsabilidade e o fardo de lutar pelo sucesso da mudança, Yeun revela que foi buscar muito ao seu próprio pai.

“De certa forma, a minha vida de imigrante serve como a extensão dos desejos do meu pai de tirar a família da terra-natal e levá-la para outro lado. Não sei o que leva uma pessoa a fazer isso. Assemelha-se a alguém que tenta criar ou controlar o seu próprio destino”, explicou ao “National Post”. “Esse desejo de criar a sua própria realidade é algo muito íntimo com o qual me identifico.”

A mudança para o Canadá não seria a última para Yeun, que um ano depois de aterrar em Regina, foi obrigado a ambientar-se a Taylor e, mais tarde, à pequena cidade de Troy, ambas no estado de Michigan.

O distanciamento de que fala aconteceu naturalmente, à medida que se foi adaptando à cultura americana. “Tinha um grupo eclético de amigos”, conta ao “Detroit Free Press”. “Tive sorte, porque também estava rodeado de coreano-americanos e ásio-americanos, de forma que não sofri nenhuma crise de identidade.” 

David e Jacob, pai e filho na família representada em “Minari”

Não é só na figura do pai de família que Yeun encontra paralelos. É também nos desafios de David e Anne, os membros mais novos da família coreana de “Minari”.

“Para muitos pais, a linguagem que usam para transmitir o amor [pelos filhos] por vezes confunde-se com o desejo de expressar os valores do dever e do compromisso com a família. Isso foi algo que vivi enquanto criança, porque o meu pai estava sempre fora, a lutar com o trabalho. Hoje sou adulto, consigo perceber a sua jornada e as dificuldades que enfrentou”, explica.

Cresceu a gostar das mesmas coisas de que todos os outros miúdos americanos gostavam. Adorava “Friends” e “M*A*S*H” e ouvia música alternativa. Estudou psicologia, mas eventualmente agarrou-se à comédia de improviso.

“[Fazer comédia] foi provavelmente o resultado de uma série de fatores, sobretudo o facto de ter crescido numa casa onde nos ríamos muito. O meu pai era super engraçado e conta boas histórias”, explicou ao “Los Angeles Times”.

Encontrou trabalho num grupo de comediantes ásio-americanos, o Stir-Friday Night!, onde fez espetáculos durante quatro anos. Em 2009, decidiu que estava na altura de mudar. Não tomou a decisão radical de mudar de país, como o pai, mas voou até à outra ponta dos Estados Unidos, rumo a Los Angeles.

“[A comédia de improviso] deu-me as primeiras ferramentas para a interpretação. Não é assim tão radicalmente diferente de uma interpretação dramática, do trabalho de um ator dramático. Só não precisas de ser engraçadinho o tempo todo. E dizem-te o que tens de dizer, por isso é até mais fácil.”

Teve talento e também muita sorte. Um ano depois, surgia de rompante na estreia de “The Walking Dead”, primeiro como uma voz num walkie-talkie, a salvar o protagonista Rick Grimes, depois em carne e osso, ainda com cara de miúdo. Tornou-se numa das personagens mais queridas da série, pelo menos até ser cruelmente chacinado no arranque da sétima temporada.

Nos anos seguintes, acabaria por agarrar vários pequenos papéis, até que os trabalhos mais sérios e com visibilidade chegaram assim que despachou o que tinha a fazer nem “The Walking Dead”. Fez parte de “Okja” do agora oscarizado Bong Joon Ho e foi um dos protagonistas de “Burning”, um thriller sul-coreano que competiu pela Palma de Ouro em Cannes em 2018. Três anos depois, vai à luta por um Óscar.

Sobreviveu a sete temporadas de “Walking Dead” como Glenn

Os pais nunca acharam grande piada a que Yeun seguisse a carreira de ator. Acabaram por compreender. Em 2020, o sonho americano de Yeun concretizava-se: antes de ser nomeado, pôde sentar-se na plateia do festival de cinema de Sundance, com o pai ao seu lado, para assistir à estreia de “Minari”.

“Foi tudo surreal. E como um miúdo de segunda geração de imigrantes, tudo o que queres é dizer aos teus pais que os entendes e que queres contar a história que eles não puderam contar”, confessou ao “LA Times”. “Ler o argumento e encontrares nele coisas que passaste toda a tua vida a querer dizer, e depois poderes fazê-lo e apresentares tudo em Sundance com o teu pai ao teu lado. Quem é que consegue fazer isso? É incrível.”

A sua nomeação para os Óscares é também uma espécie de marco para a comunidade sul-coreana e ásio-americana. Yeun tornou-se no primeiro a poder realmente agarrar uma estatueta, embora o rótulo seja algo que não vê com bons olhos.

“É bom que consigamos desbravar caminho e que os jovens ásio-americanos sintam que também podem fazwer o mesmo”, explica à “The Hollywood Reporter”. “Mas estas narrativas em torno da identidade por vezes apanham-te e fecham-te numa pequena caixa estranha de onde depois temos que tentar escapar.”

Embora sirva de símbolo para uma gigantesca comunidade, sobretudo num papel e numa história que diz tanto a tantos, Yeun frisa que continua a ser apenas um ator entre tantos outros.

“Estou feliz por dar um grande momento à comunidade e por poder dar visa a narrativas e a mostrar quem somos porque eu também sou um ásio-americano e tenho imenso orgulho nisso. Mas para mim, tudo isto é também uma forma de viver a minha vida e de contar as coisas pela minha perspetiva.”

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