Cinema

“Tenet” é o pior filme de Christopher Nolan: uma confusão complexa e pretensiosa

Uma das maiores estreias do ano já chegou aos cinemas portugueses.
É um bom filme, mas não mais do que isso.
70

“Não tente perceber. Sinta-o”. Esta frase a meio de um dos curtos e acelerados diálogos de “Tenet” pretende legitimar a ambição de Christopher Nolan em realizar um filme super intenso e explosivo baseado num argumento pouco convincente. “Tenet” acumulou a expetativa natural provocada pela próxima grande obra de Nolan com a ansiedade inédita gerada pelos seis meses de deserto em que Hollywood viveu este ano. Esta onda de suspense em crescendo criou um vazio que seria difícil para qualquer filme preencher. Desse ponto de vista, foi um fracasso total. Por outro lado, se fizermos um esforço para olhar para aquilo que ele é — e não para o que precisávamos que fosse —, estamos a falar de um bom filme ao estilo James Bond. Mas não mais do que isso. 

Vou tentar explicar a premissa de “Tenet” da forma mais simples possível. Daqui a algumas gerações, uma terrível guerra mundial em conjunto com as alterações climáticas atiram a Humanidade para uma situação de desespero. Nesse cenário, alguém descobre uma forma de inverter os objetos e fazê-los regressar ao passado para impedir esse suposto futuro. A física ensina-nos que cada ação provoca uma reação proporcional, agora imagine que é possível essa reação acontecer antes da ação. Isso faria com que o espaço temporal pudesse convergir em vez de evoluir de forma constante. Ou seja, poderíamos alterar no futuro o que aconteceu no passado. Percebeu? Pois, “não tente perceber”. 

É neste ambiente fantasioso que junta meia dúzia de expressões científicas para lhe dar algum tipo de credibilidade que aparece o Protagonista, um agente da CIA interpretado por John David Washington que tem de salvar o mundo da destruição, apesar de ele próprio nunca perceber do que é que o está a salvar. Esta é uma das características mais preguiçosas — e infantis — de “Tenet”: a ideia de que um argumento de ficção científica não precisa de ser totalmente entendido pelos espectadores desde que eles sejam entretidos com fatos de alta costura, sequências de ação e uma bela fotografia. Em boa verdade, existem exemplos de sucesso assim no cinema — como “Regresso ao Futuro”, por exemplo —, mas nenhum outro realizador teve a audácia de assumir esse objetivo logo de início. 

Nolan parece querer uma carta branca para explorar todas as dimensões visuais da história sem nenhuma corda que o faça regressar à terra. O problema é que nem assim o realizador e argumentista de “Tenet” consegue entregar a obra prometida e acaba por se perder num conjunto de personagens secundárias que acumulam clichés. O vilão é um oligarca russo (Kenneth Branagh) com um cancro incurável que prefere acabar com o mundo do que deixá-lo viver sem ele. A mulher é outro lugar-comum ambulante: a belíssima Elizabeth Debicki interpreta Kat, que é torturada psicologicamente mas mantém o casamento para continuar perto do filho — e por quem o Protagonista se sente imediatamente atraído. A única salvação no meio deste delírio pandémico de escrita é a figura de Robert Pattinson, um misterioso inglês com um mestrado em Física que dispara a metralhadora com a mesma facilidade com que explicaria o Bosão de Higgs — caso estivesse num filme em que essas coisas são valorizadas. Aos poucos, Neil transforma-se no verdadeiro fio condutor da história, capaz de dar nós em algumas das pontas soltas do argumento. 

Apesar do início forte e promissor com um ataque terrorista à Opera de Kiev — inspirado nos acontecimentos reais do teatro de Dubrovka, na Rússia —, “Tenet” torna-se refém da teia demasiado ambiciosa que criou e sucumbe ao desejo de ser mais e maior. Numa das principais cenas da primeira metade da ação, o Protagonista e companhia desviam um avião Jumbo contra uma estação de arte no aeroporto de Oslo, enquanto espalham lingotes de ouro pela estrada. Em retrospetiva, esta longuíssima sequência acrescenta pouco a uma história que exige 2h30 de atenção. Mais uma vez, Nolan abdicou do valor da narrativa em benefício deste jogo de sombras que entretém, mas não satisfaz. É uma pena, de facto.

O final de “Tenet” deixa em aberto a possibilidade de uma sequela. Se for esse o caso, este poderá ser o primeiro capítulo de uma odisseia que continua por explicar. E muitos dos seus pontos fracos terão uma segunda ou terceira oportunidade para se redimirem. Se não for assim, “Tenet” nasceu e morreu aqui. 

Leia também o perfil da NiT sobre John David Washington (filho de Denzel Washington) e conheça a história delirante do irmão desconhecido de Christopher Nolan que foi acusado de rapto, tortura e homicídio.

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