Cinema

Timothée Chalamet: o antigo rapper que se tornou na nova grande estrela de Hollywood

É um ícone de moda, um ator admirado pelos realizadores mais respeitados e prepara-se para fechar o melhor ano da sua carreira.
Ninguém teve um ano melhor do que o dele

No final de 2017, poucos tinham dúvidas de que o jovem de 21 anos era a cara de uma nova geração de atores. O papel como protagonista em “Chama-me Pelo Teu Nome”, a aparição em “Lady Bird” e em “Hostiles” provavam que esse ano inesperado vinha cimentar a carreira do rapaz de Nova Iorque com nome francês.

Que mais podia pedir um ator a dar os primeiros passos? Aparentemente, muito mais. Quatro anos depois, Timothée Chalamet volta a fazer linha numa espécie de bingo hollywoodesco. O épico “Dune” e o novo trabalho de Wes Anderson, “The French Dispatch”, são duas das produções mais aguardadas do ano. Chalamet é a estrela de ambas.

O ponto de viragem da sua vida aconteceu quando foi admitido na LaGuardia High School of Music & Art and Performing Arts, onde se formou ao lado de outro ator conhecido, Ansel Elgort. A matrícula esteve para nunca ter acontecido, após ter sido rejeitado na entrevista com os responsáveis da escola.

Foi o professor de teatro com quem fez a audição de apresentação que o salvou. “A irmã dele era minha aluna e disse-me que tinha sido rejeitado. Pensei: ‘como é que isso pode acontecer?’”

“Lembro-me da audição porque lhe dei a nota mais alta que alguma vez dei a um miúdo nas provas”, recorda Harry Shifman à “Vanity Fair”. “Era realmente bom. Creio que tinha 13 anos. Era fascinante (…) Percebemos logo que este miúdo tinha um dom.”

Shifman confrontou a diretora da escola e convenceu-a: Chalamet deveria fazer parte da turma. “Graças a Deus ouviu-me, porque senão, agora estaria provavelmente a formar-se em medicina.”

 Chalamet aproveitou o tempo na escola para se dedicar a outra paixão: ao rap. Criou uma persona artística, batizou-a de Lil’ Timmy Tim e interpretou uma série de vídeos que, anos mais tardei, voltariam para o embaraçar.

Um dos primeiros temas de Lil’ Timmy Tim é inspirado na sua antiga professora de Estatística e numa prova falhada. Enquanto os colegas estudavam arduamente para o teste, Chalamet pensou em fazer uma música sobre a matéria. “Gravei o vídeo na escola, com a ajuda de um amigo, frente a um fundo verde”, recordou no programa de Graham Norton.

Entre rimas sobre estatística e vestido com uma simples t-shirt cinzenta e boné vermelho, imaginou que estava a gravar cenas de um videoclipe criativo. “A ideia passava por colar a cara da professora no fundo verde do vídeo, mas ficámos com preguiça… e agora pareço ridículo a apontar para espaços vazios no ar.” O resultado foi uma nota negativa.

A curta e frenética carreira como rapper não se ficou por aí. Anualmente, apresentava-se no espetáculo do final do ano escolar com um tema novo — e as performances incluíam muita dança. Eventualmente, Chalamet percebeu que não residia ali o seu maior talento.

Entre breves aparições em curtas-metragens, o primeiro grande papel surgiu curiosamente em “Segurança Nacional” — participou em oito episódios. Foi no papel de Finn Walden, filho do vice-presidente dos Estados Unidos, que começou a revelar o talento que o levou a uma seleção inesperada.

Apenas dois anos depois, Christopher Nolan, um dos maiores realizadores de Hollywood, escolhia Chalamet para um papel em “Interstellar”, como Zac, filho do protagonista interpretado por Matthew McConaughey. Os escassos minutos em que surge no ecrã — a sua personagem adulta é interpretada por Casey Affleck — foram suficientes para dar nas vistas. Ainda assim, o ator sentia que o seu desempenho não merecia assim tanta atenção.

Chalamet promoveu o filme ao lado de outros protagonistas como Jessica Chastain, John Lithgow ou Anne Hathaway. E, no dia da estreia, estava em êxtase. “Basicamente, não tinha qualquer carreira até esse momento. Sentia-me uma fraude [no meio daqueles atores]”, confessou em entrevista. Só quando viu o filme é que percebeu que a sua personagem aparecia durante menos minutos (muitos menos) do que esperava. “Assim que cheguei a casa com o meu pai, chorei durante uma hora porque pensei que o meu papel era maior”, reconheceu.

No centro de toda a frustração estava aquela que acreditava ser a sua melhor cena: uma performance emotiva onde gravava um vídeo que seria transmitido ao pai, Cooper. Nolan acabou por decidir cortá-la integralmente do filme, precisamente porque se focou na reação dramática de McConaughey (o pai) — que se tornou num dos takes mais emblemáticos do filme. Tudo à custa de Chalamet que, apesar disso, assegura não guardar ressentimentos.

Chalamet no discreto papel em “Segurança Nacional”

Dois anos depois, o ator de 20 anos embarcava para Itália para um projeto singular. Chegou ao destino seis semanas antes do resto do elenco com o objetivo de se preparar para o papel de Elio, um jovem inteligente, poliglota e exímio pianista.

Chalamet tinha duas missões: aprender a tocar piano e juntar o italiano ao seu lote de línguas que fala fluentemente, o inglês e francês. Chalamet tem, aliás, dupla nacionalidade americana e francesa. Filho de um francês, passava os verões em França.

A dedicação obsessiva ao cinema valeu-lhe o primeiro grande êxito da carreira — e que o levou a tornar-se no mais jovem ator a ser nomeado para um Óscar de Melhor Ator nos últimos 80 anos. À proeza juntou o facto de, nesse mesmo ano, ter contracenado com Saoirse Ronan em “Lady Bird”, nomeado para cinco estatuetas.

A viagem até um inesquecível 2021 foi recheada de papéis menos reconhecidos mas não menos importantes. Contracenou com Steve Carrell em “Beautiful Boy”, participou de forma polémica em “A Rainy Day in New York” de Woody Allen, foi protagonista em “The King” e regressou às mãos de Greta Gerwig na sua versão de “Mulherzinhas”.

Depois de Nolan e de Luca Guadagnino terem visto nele um talento único, Denis Villeneuve acreditou que Chalamet poderia ser o protagonista do seu projeto de vida: conseguir adaptar ao cinema o épico de Frank Herbert, “Dune”.

“Escolhi-o por várias razões. Primeiro, é um ator fenomenal, tem imensa profundidade, é alguém muito maduro para a idade. O Paul Atreides é uma alma velha num corpo jovem e o Timothée tem isso”, explica o realizador. “Tem coisas que me recordam as estrelas da velha guarda de Hollywood. Pões o Timothée à frente da câmara e é uma explosão.”

O rol de elogios é interminável e inclui alguns dos maiores cineastas do momento. Wes Anderson, que o escolheu para fazer parte do seu grupo restrito de atores repetentes, é outro realizador que se apaixonou pelo ator.

No papel em “The French Dispatch” de Wes Anderson

“Tinha-o visto em ‘Lady Bird’ e ‘Chama-me Pelo Teu Nome’ e nunca me passou pela cabeça, nem por um segundo, oferecer este papel a outra pessoa que não a Chalamet”, conta. “Sabia que ele era a pessoa certa. Além disso, fala francês e dá ares de que acaba de sair diretamente de um filme do Eric Rohmer, ali por volta de 1985. Vindo num comboio lento de Paris, de mochila, para passar 10 dias numa praia com mau tempo. Não encaixa em nenhum tipo específico [de ator] — mas a New Wave ter-lhe-ia guardado um lugar feliz.”

Não é só um ator talentoso. Nos últimos anos, as passagens pelas red carpets de Hollywood revelaram outro dos seus talentos: o da moda. Se Greta Gerwig revelava que era o ator quem escolhia todas as roupas para as suas cenas em “Lady Bird”, ter sido escolhido para anfitrião da Met Gala — ao lado de Tom Ford e de jovens talentos como Amanda Gorman, Billie Eilish e Naomi Osaka — e o estilo arrojado, cimentaram-lhe a fama de fashionista.

Depois de um incrível 2017 e de um ainda mais entusiasmante 2021, poderá Chalamet superar o feito de disparar vários êxitos em simultâneo? Este ano reserva outra enorme conquista: o ator de 25 anos faz parte do elenco do novo filme de Adam McKay, inserido num super-elenco com DiCaprio, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett, Meryl Streep e Mark Rylance. O futuro é ainda mais promissor: vai ser o novíssimo Willy Wonka, numa produção que está atualmente a ser gravada; e de Hollywood acaba de surgir a confirmação de que a segunda parte de “Dune” será mesmo concretizada.

No bolso tem ainda um papel valioso. Chalamet vai encarnar um jovem Bob Dylan em “Going Electric”, um papel que já discutiu com Joel Coen, o cineasta e assumido fã do músico. Cruzaram-se no set de “The French Dispatch” — o realizador e argumentista é marido da co-protagonista do filme Frances McDormand — e jantaram juntos para debater o novo papel de Chalamet. “Parecia ter medo de falar sobre os temas [do Dylan] por serem tão grandes e potentes”, explicou Chalamet à “GQ”.

Coen explicou-lhe o porquê de achar Dylan tão fascinante. Não era apenas e só a qualidade como músico, mas a destreza com que lançava tema após tema, sucesso após sucesso, obras primas umas atrás das outras. E é isso que Chalamet quer fazer: mais obras primas, umas atrás das outras. Se o fizer, talvez consiga repetir ou superar o fabuloso ano louco de 2021 ou, como ficará conhecido, o ano de Timothée Chalamet.

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