Cinema

A trágica aventura do miúdo que enfrentava as montanhas mais perigosas do mundo

Marc-André Leclerc era o melhor alpinista da sua geração e apesar de odiar câmaras, é a estrela do novo documentário “The Alpinist”.
"The Alpinist" conta a história incrível de Leclerc

“Querem saber a verdadeira definição de um durão?”, diz Rolando Garibotti, um respeitado alpinista. “Aqui a têm”, refere enquanto aponta para os feitos de Marc-André Leclerc.

Aos 22 anos, aventurou-se uma das rotas mais perigosas de Cerro Torre, na Patagónia. Depois do feito em 2016, regressou em 2016, para escalar o monte vizinho, Torre Egger, numa rota ainda mais difícil. Nunca ninguém tinha feito essa subida no inverno.

Fê-lo como o fazia sempre: sem cordas de segurança, sem uma escapatória entre si e o fundo rochoso, numa modalidade a que chamam free solo. Uma proeza inédita.

Era precisamente a sós que gostava de estar nestes desafios, sem câmaras, sem publicidade, apenas ele e as escorregadias e traiçoeiras escarpas geladas. O espírito indomável de Leclerc, apontado por muitos como o melhor alpinista da sua geração, é a estrela de “The Alpinist”, o novo documentário que encapsula a curta e emocionante vida do canadiano.

Não era fácil apanhá-lo. Os produtores do documentário, Peter Mortimer e Nick RoRo seguiram-no durante semanas. Conheceram-no ainda a dar os primeiros passos já nas escarpas mais difíceis do planeta.

“Foi como descobrir o Neymar ainda a jogar futebol de praia no Brasil”, explica Mortimer ao “The Guardian”. Apesar de Leclerc ter aceitado participar no documentário, nem sempre era fácil filmá-lo. Era habitual lançar-se num novo desafio sem avisar ninguém.

“Não seria uma subida a solo se alguém estivesse lá. Essa não é a aventura que eu procuro”, explica no trailer do filme que estreou a 10 de setembro.

Começou a praticar escalada indoor aos nove anos, depois de se apaixonar pelo tema ao ler “Quest For Adventure” do alpinista britânico Chris Bonington, um livro oferecido pelo pai. Aos 11 já praticava escalada tradicional e aos 15 arriscava-se nas primeiros desafios a solo.

“Dizia aos adultos que queria ir aos Himalaias e eles diziam-me que era demasiado perigoso”, confessou Leclerc. “Na América do Norte, as pessoas gostam de aumentar o nível de dificuldade sem enfrentar o risco. O lado mais perigoso da escalada é desencorajado.”

Nasceu em 1992 em Vancouver, no Canadá. O pai trabalhava na construção, a mãe optou por ficar em casa a criar os filhos, Marc-André e os dois irmãos. Viveu nos subúrbios da cidade, em Agassiz, onde a escalada estava longe de ser um desporto comum.

Apesar de competir na escalada indoor — e bater miúdos mais velhos —, dedicou-se a ajudar o pai nas obras para comprar o seu primeiro equipamento de montanha. Os pais perceberam que a paixão não acalmava e ofereceram-lhe um curso de dez dias.

Leclerc era um aventureiro autodidata. Treinava pequenas subidas entre o musgo e rochas molhadas, horas e horas a fio, dois fatores que o próprio considera terem ajudado a tornar-se num dos melhores. O musgo, explica, assemelhava-se ao comportamento da neve, ajudou-o a saber como distribuir o peso do corpo.

Já adolescente, viajava até às montanhas à boleia, quando os pais não o podiam levar. Entre treinos e livros, tornou-se num ás da escalada, apesar de ninguém o saber ainda.

Heróis tinha muitos, mas nenhum como Guy Edwards, outro craque do free solo que desapareceu numa escalada no Alasca em abril de 2003. Foi a pouco mais de 180 quilómetros de distância, nas Mendenhall Towers, que Leclerc encontrou também o seu maior e pior desafio.

Foi a escalada que o fez cruzar-se com Brette Harrington, canadiana igualmente apaixonada pela escalada. Tinham 19 e 20 anos. Apesar de querer escalar quase sempre sozinho, era com Harrington que cedia e abria as poucas exceções.

Brette Harrington e Marc-André Leclerc numa das suas escaladas em conjunto

Leclerc era um apaixonado pelos velhos durões da escalada. “Os alpinistas da velha guarda eram conhecidos pela sua resistência. Lês coisas sobre o Walter Bonatti (…) chegou a ficar encharcado pela chuva, congelado, despejou gás na comida, esmagou o dedo com um martelo e perdeu a ponta, e ainda assim terminou a rota”, revelou à “Outside”. “Hoje não vês pessoas a fazerem esse tipo de coisas.

Em 2018, depois de uma escalada conjunta, a namorada decidiu viajar até climas mais quentes. Leclerc ficou por casa e apostou num novo desafio na neve, para o qual tinha sido convidado por Ryan Johnson, um alpinista de 34 anos que andava de olho na face norte das Mendehnall Towers, no Alasca.

A perigosa rota com mais de 700 metros era traiçoeira e já tinha obrigado Johnson a retroceder numa tentativa feita em 2015. Apesar de não ser tecnicamente complicada, as condições tornavam-na perigosamente fatal devido à fragilidade da rocha e ao gelo. Leclerc aceitou e viajou para o Alasca, onde se reuniu com Johnson.

O desafio começava muito antes do sopé rochoso, com um longo percurso de 16 quilómetros a percorrer em cima de skis. Guardaram o equipamento na base da escalada e prepararam-se para subir.

Chegaram ao local no domingo e o plano passava por regressar à civilização o mais tardar na quarta-feira seguinte. Como sempre fazia, na manhã de segunda-feira, 5 de março, Leclerc enviou uma mensagem a Harrington. “Amor, estou no cume. Foi uma subida incrível.”

Ao mesmo tempo, partilhou as fotos no Instagram que, mais de três anos depois, continuam disponíveis.

Dois dias depois, chegara a quarta-feira e Harrington estranhou o silêncio. Leclerc avisava sempre que estava são e salvo depois de um desafio. Preocupada, contactou imediatamente a equipa de salvamento da região, que a acalmaram. Johnson avisou, antes de partir, que só chegariam ao final do dia.

No dia seguinte, Harrington recebeu uma nova chamada dos membros da equipa de salvamento. Numa busca inicial, tinham encontrado os skis de Johnson e Leclerc intactos, ainda no sopé, tal e qual os haviam deixado.

A descoberta tinha implicações preocupantes: significava que, por algum motivo, os dois alpinistas não tinham completado a descida. As buscas de salvamento arrancaram nesse preciso momento.

Mesmo com a ajuda de câmaras térmicas, foram incapazes de detetar o calor corporal dos dois alpinistas na face norte das Mendenhall Towers. As operações prosseguiram durante os três dias seguintes, até terem que ser interrompidas pelo mau tempo.

Na cidade mais próxima, Juneau, estava já Harrington e vários amigos e familiares de Leclerc. A última comunicação do alpinista de 25 anos tinha sido feita na segunda, pelas 10h26 da manhã. Uma mensagem para a mãe com uma imagem do cume da montanha.

Os helicópteros voltaram ao ar a 13 de março e o mau tempo havia acumulado já uma enorme camada de neve na zona. Na escarpa rochosa, detetaram à distância algum equipamento que indicava onde teriam estado Leclerc e Johnson.

Ao seu lado, dois pares de pegadas que terminavam numa vala de gelo a 300 metros de altura. Foi ali que avistaram um resto de uma corda pendurada no topo. Já mais próximos de uma enorme fenda no gelo glaciar, repararam noutra corda.

Leclerc era um alpinista à moda antiga

A zona era demasiado perigosa e instável para que qualquer equipa de salvamento se pudesse aventurar numa busca no terreno. Tudo indicava que a escalada de Leclerc e Johnson havia terminado ali — e que nada nem ninguém os poderia resgatar.

Segundo os especialistas da equipa de salvamento, os dois alpinistas estariam soterrados precisamente no local onde foi avistada a corda, aproximadamente a quatro ou cinco metros debaixo da neve. “Johnson e Leclerc estão presumivelmente mortos.”

Até hoje, ninguém conseguiu explicar o que terá acontecido na descida em rappel feita pelos dois alpinistas, conhecidos por serem altamente experientes e metódicos. Teria sido um erro ou um infeliz acaso? Terão sido atingidos por uma rocha que se desprendeu do topo? Ou uma avalanche que os arrastou?

Leclerc conhecia melhor do que ninguém os riscos, que pesava na balança a cada viagem. E, em cada um desses exercícios, nada pesava mais do que a alegria pura de estar sozinho na montanha.

“Sentia-me atraído pelas montanhas em busca de aventura, de um desejo de explorar as minhas próprias limitações…”, escreveu no seu blog depois da épica subida no Monte Robson onde foi o primeiro a completar a rota. “…mas também um desejo de estar imerso num mundo tão profundamente belo que ficaria para sempre gravado na minha memória.”

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