Cinema

“Três Mil Anos de Desejo”: o novo filme de George Miller a caminho de “Mad Max”

O cineasta australiano tem uma nova história, com Idris Elba e Tilda Swinton. Como sempre, reflete sobre a auto-destruição humana.
Idris Elba e Tilda Swinton são protagonistas.

Chama-se “Três Mil Anos de Desejo” e é o novo filme de George Miller, o cineasta australiano mais conhecido por ter criado a saga de “Mad Max”. Protagonizado por Tilda Swinton e Idris Elba, estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 8 de setembro.

Nesta história com doses generosas de surrealismo, Swinton interpreta Alithea Binnie, uma académica britânica. Profundamente racional, solitária mas nem por isso descontente com a vida, embarca numa viagem para Istambul, na Turquia, para participar numa conferência.

Lá, durante um passeio por um bazar, encontra um frasco antigo — a que não resiste. Quando regressa ao hotel onde está hospedada, tenta lavá-lo e acaba por libertar acidentalmente um génio (Idris Elba), que lhe concede três desejos em troca da sua liberdade.

Alithea Binnie duvida que ele seja genuíno. E, além disso, é uma estudiosa de história e mitologia. Pelo que conhece todos os relatos sobre pedidos de desejos que correram mal ao longo dos tempos. Para a convencer, o génio conta-lhe três histórias fantásticas sobre o seu passado. Acaba por a conseguir cativar e os dois formam uma ligação.

A narrativa é uma adaptação do conto “The Djinn in the Nightingale’s Eye”, publicado em 1994 e escrito pela autora britânica A. S. Byatt. A estreia mundial aconteceu no prestigiado Festival de Cinema de Cannes. O elenco inclui ainda Pia Thunderbolt, Berk Ozturk ou Alyla Browne.

Como um artigo extenso da “Polygon” defende, e que conta com declarações do próprio George Miller, toda a obra do cineasta é centrada nas mesmas questões. Por mais diverso que seja o seu trabalho (e Miller não tem assim tantos filmes no seu currículo), o foco está sempre no “porquê?”

“As histórias são uma pergunta”, assume George Miller. “São como nós, seres humanos, desde que evoluímos para esta neurologia, atribuímos significado. Tornamos o mundo coerente através das nossas histórias. E fazemo-lo tal como temos pulsação e respiramos e fazemos todas as outras coisas da vida.”

No caso específico de “Três Mil Anos de Desejo”, é mesmo um filme sobre histórias e fábulas. As coisas correm bem quando a protagonista e o génio estão sentados, sossegados e concentrados naquilo que contam um ao outro. Quando Alithea Binnie volta para Londres e leva consigo o génio, dão por si afetados por toda a tecnologia e distrações da sociedade contemporânea — como se a essência da própria humanidade estivesse presente naquelas histórias mágicas (e no próprio processo de contar histórias) que ali já não têm lugar.

“Mad Max” — que terá direito a uma prequela, “Furiosa”, em 2024 — é uma saga inspirada nas vivências de George Miller enquanto médico. No tempo que passou nas urgências, durante os anos 70, lidou com o lado obscuro das corridas de carros na Austrália.

As longas estradas no deserto sem limites de velocidade tornaram-se no cenário ideal para um mundo pós-apocalítico baseado na queda da sociedade e na falta de combustível. Depois de três filmes nas décadas de 70 e 80, estreou em 2015 “Mad Max: A Estrada da Morte”, que se passa numa fase ainda mais avançada do pós-apocalipse e que foi aclamado como um dos melhores filmes da década.

Acima de tudo, George Miller tem vindo a refletir sobre a auto-destruição da espécie humana — baseada na ganância. Aborda a crise das alterações climáticas, que tanto tem afetado a Austrália, ou o sistema patriarcal na sociedade ocidental. Com os seus filmes, pergunta porquê. Estamos condenados a matar-nos uns aos outros, e à Terra em simultâneo? Será tonto acreditar num mundo que não tenha de ser assim? George Miller pergunta, cabe aos espectadores encontrarem as respostas e agirem em conformidade. A pergunta que já tem resposta é aquela que é colocada no mais recente filme de “Mad Max”: quem matou o mundo? Essa já sabemos: nós.

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