Cinema

“Última Noite” é o filme natalício mais deprimente de sempre

A comédia dramática com Keira Knightley é sobre o pior Natal de sempre. Estreia esta quinta-feira, 8 de dezembro.
Eles vão receber o pior presente de sempre
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Não fosse a sinopse reveladora, o destino cruel deste Natal fictício numa rural Grã-Bretanha chegaria sorrateiro, adivinhado por um ou outro comentário fora de sítio. Nesta noite de consoada, reúnem-se à mesa amigos de infância que garantem estar preparados para um Natal de confraternização.

Porque se anuncia desde logo como uma comédia, “Última Noite” gasta quase todos os cartuchos no arranque, enquanto ainda se apalpa terreno naquela que será uma noite apocalíptica. Há pais que ignoram os filhos, há mães que exibem os vestidos e sapatos comprados com a poupança para a educação dos catraios. Há médicos que fazem rodar a marijuana medicinal roubada no hospital.

“Última Noite” é, como já se percebeu, um filme natalício com um espírito original. Na verdade, estes amigos reúnem-se para comemorar aquele que será o seu último Natal. Lá fora, longe das quatro paredes da casa de campo, muito do planeta está já destruído.

O planeta finalmente vingou-se. “Durante anos o planeta levou com o lixo sujo de todos nós. Agora fartou-se, já não aguenta mais. Decidiu cuspi-lo todo e mandar-nos foder”, explica Art, o filho mais velho do casal anfitrião, interpretado por Roman Griffin Davis, o miúdo talento de “Jojo Rabbit”.

Com várias partes do planeta devastadas por tempestades tóxicas que aniquilam toda a vida por onde passam, o governo britânico tomou uma decisão. Sem solução à vista, foi distribuída pela população um comprimido letal e indolor, que todos deveriam tomar antes da chegada das poeiras tóxicas, para evitar uma morte dolorosa. “Evite o sofrimento e morra com dignidade”, alertam as autoridades.

Todos os presentes, os adultos, firmaram um pacto: iriam divertir-se e, no final da noite, cada um tomaria o seu comprimido. Todos, claro, menos Art e uma jovem convidada, Sophie (Lily-Rose Depp).

Sem ser uma comédia brilhante, as poucas piadas caem bem, sobretudo para aliviar o tenso ambiente que uma iminente morte coletiva — sobretudo graças à boa ligação entre as personagens e os atores do elenco, que conta com Keira Knightley, Mathew Goode ou Annabelle Wallis. Infelizmente, o guião nunca consegue tirar proveito da química entre alguns dos atores e vai-se arrastando até ao êxtase final. É, contudo, uma ideia criativa que traz uma lufada de ar fresco aos habituais peganhentos filmes da época — como já alguns críticos haviam notado, é uma espécie de cruzamento entre “Melancolia” de Lars von Trier e “O Amor Acontece” de Richard Curtis.

Não brilha como comédia, não se excede como um arrebatador drama. Infelizmente, fica sempre a meio caminho daquilo que pretende atingir.

A moral, esfregada na cara a cada cinco minutos, torna-se perfeitamente evidente a partir do momento em que o pacto é desvendado. E a escalada dramática que antecede o clímax é tudo menos compensadora.

Ainda assim, nunca se opta por uma saída fácil. As alterações climáticas, o desrespeito pelo ambiente, tudo isso culmina num adeus inglório e inevitável, numa escolha entre a morte ensanguentada no meio de poeiras tóxicas ou de um suicídio coletivo.

Apesar do azevinho, das sessões de karaoke e dos doces natalícios, há pouco do espírito da época em “Última Noite”, talvez o derradeiro filme anti-Natal. Pode ser a escolha perfeita para arruinar o espírito da época ou, pensando bem, a arma adequada para nos pôr a pensar que se continuarmos a esbanjar

dinheiro em brinquedos de plástico, produzidos por mão de obra infantil, em empresas que destroem o planeta, vamos acabar a enfiar uma pílula letal na boca dos nossos filhos, tragada com um copo de Coca-Cola fresquinha e um pudim. Feliz Natal.

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