Em 2021, no espaço de um ano, o realizador Clint Bentley perdeu ambos os pais de forma inesperada e alguns amigos devido à pandemia de Covid-19. “Foram os meses mais difíceis da minha vida”, contou ao “The Daily Beast”. A dor serviu de inspiração para “Sonhos e Comboios”, que começou a ser escrito no final deste período caótico e pouco depois de ter sido pai pela primeira vez.
O drama estreou na Netflix a 21 de novembro e passou despercebido a muitos utilizadores. Um cenário que contrasta com as críticas internacionais, com vários especialistas a garantirem que está encontrado um dos melhores filmes do ano.
A obra adapta o conto homónimo de Denis Johnson, publicado em 2011, e acompanha a vida aparentemente simples, mas emocionalmente intensa, de Robert Grainier, um lenhador e trabalhador dos caminhos-de-ferro no noroeste dos Estados Unidos no início do século XX. A narrativa segue o protagonista ao longo de décadas, retratando o trabalho nas florestas, o casamento com Gladys, a paternidade e uma tragédia que o transforma e afasta.
“É uma história realmente especial e parece muito única, no sentido em que é apenas sobre a vida de uma pessoa. Uma vida muito simples. Robert Grainier não faz nada que altere verdadeiramente o curso da História — não participa em nenhuma grande batalha nem cria alguma invenção que muda a vida das pessoas e, ainda assim, vive uma vida muito profunda e rica”, explicou o realizador de 40 anos à Netflix.
O protagonista é interpretado por Joel Edgerton que, ao “The Guardian”, descreveu a obra como “um filme espiritual”. Para construir a personagem, recorreu ao seu próprio passado enquanto pai. “Houve um momento em que pensei que os meus filhos não iriam sobreviver. Baseei-me no que senti para este papel e sempre que pensava nisso sentia um aperto no estômago.”
Felicity Jones também se destaca como Gladys Grainier. Embora partilhem muitas cenas, os atores não se conheceram antes das filmagens. “Não tivemos qualquer interação prévia, o que foi propositado. Filmei todas as nossas cenas no início da rodagem e sinto que foi quase como um filme isolado”, disse à “Vogue”.
Este afastamento poderia comprometer a produção, mas não foi o caso. O filme soma elogios entre críticos e público.
No agregador Rotten Tomatoes tem uma avaliação média de 96 por cento. Segundo o “The Daily Beast”, é mesmo “o melhor filme do ano”, uma afirmação importante, num ano que contou com títulos como “Frankenstein”, “One Battle After Another” e “Hamnet”.
A revista “Rolling Stone” colocou “Sonhos e Comboios” no quarto lugar num ranking dos melhores filmes lançados este ano. “O filme assenta verdadeiramente em Edgerton, que oferece a melhor interpretação da sua carreira ao dar vida a um homem estoico, de mãos calejadas, daqueles que ajudaram a construir a América moderna desde o chão. Existiram muitos homens como Granier que percorreram o mundo e desapareceram sem deixar grande rasto. E, no entanto, como esta cativante e belíssima análise de personagem demonstra, eles também tinham histórias para contar. Viveram, amaram, sentiram alegria e tristeza. Importaram”, descreveu a publicação.
Outros elogios surgem da “New York Magazine”. “Através da interpretação subtilmente atormentada de Edgerton, da narração de Will Patton, da fotografia arrebatadora de Adolpho Veloso e de uma banda sonora trémula de Bryce Dessner, o filme envolve-nos na tristeza e no anseio inexplicável de Grainier por paz e propósito”.
Felicity Jones, que já passou por géneros como a ficção-científica em “Rogue One: Uma História de Star Wars” e o drama em “A Teoria de Tudo”, também é alvo de aplausos. “Dá uma força viva e imediata a este clássico em construção sobre a beleza e o terror dos tempos pioneiros do caminho-de-ferro. Difícil de vender? Talvez. Mas não quando um filme ousa alcançar as estrelas como este”, escreveu o site “The Travers Take”.
Entre tantos elogios, vários especialistas acreditam que “Sonhos e Comboios” pode surpreender nos Óscares. A revista “Variety”, por exemplo, assegura que uma nomeação a Melhor Filme está próxima. “Pode tornar-se uma daquelas longas-metragens que acabam por entrar na categoria não necessariamente com estrondo, mas com sentimento”, refere.
Carregue na galeria para conhecer algumas das séries e temporadas que estreiam em dezembro nas plataformas de streaming e canais de televisão.

LET'S ROCK







