Cinema

“Uncle Frank”: o filme que ninguém viu em 2020 (mas que toda a gente devia ver)

É uma produção da Amazon, pela mão do argumentista de “Beleza Americana” e “Sete Palmos de Terra”. Paul Bettany é o protagonista.
O filme tem pouco mais de uma hora e meia.

Mesmo num ano em que os cinemas estiveram vários meses encerrados — e com as principais estreias adiadas para 2021 — não houve falta de oferta de novos filmes para ver no ano que terminou há poucos dias. O que acontece é que ela está mais dispersa.

Se a Netflix, a HBO Portugal ou a Disney+ são plataformas conhecidas de muitos portugueses fãs de séries e filmes — mesmo que nem todos possam não ter uma subscrição — a Amazon Prime Video tem tido menos atenção. 

Por um lado, não existe uma equipa local dedicada a publicitar o catálogo desta plataforma de streaming — que só recentemente fez acordos com as operadoras de televisão nacionais. Depois, mesmo a um nível internacional, a sua afirmação tem sido lenta, embora prolífica. É a casa de boas séries e filmes, muitos deles premiados, nos últimos anos.

“Fleabag”, “The Marvelous Mrs. Maisel”, “The Boys”, “Transparent” ou “The Man in the High Castle” são algumas das produções televisivas. Recentemente têm estreado filmes, como o aclamado “Sound of Metal” (considerado pela NiT como um dos melhores do último ano) ou “7500”, protagonizado por Joseph Gordon-Levitt.

O filme que destacamos neste artigo, porém, é outro. Estreou a 25 de novembro mas pouca gente terá ouvido falar dele — não foi especialmente promovido e, lá está, a plataforma continua a não ser a escolha preferencial dos portugueses.

Chama-se “Uncle Frank” e é um drama, com alguns momentos cómicos pelo meio, escrito e realizado por Alan Ball. Pode não ser um nome muito conhecido, mas é o responsável pelo argumento de “Beleza Americana” (pelo qual venceu um Óscar) além de ser o criador das séries “Sete Palmos de Terra” e “True Blood”.

A história passa-se sobretudo em 1973. O protagonista do filme é Frank Bledsoe, um professor universitário de literatura que vive em Nova Iorque, mas cujas raízes e família estão no estado rural da Carolina do Sul. Como o título da história sugere, nós somos levados até Frank pela sua sobrinha, Betty, ou Beth, Bledsoe.

Para ela, que se sente deslocada da família, onde não há grandes ambições nem pretensões de levar uma nova vida, ele é o tio fixe — o seu familiar favorito. Por isso mesmo, ela não percebe porque é que o avô, chamado por todos de “papá Mac”, trata tão mal o seu filho mais velho, Frank.

De forma constante, Frank incentiva a que Beth tome as próprias decisões, que leve a vida que quiser — que mude de nome, se lhe apetecer, ou que vá estudar para a universidade que lhe interessar.

A imagem que construiu do tio e a realidade chocam quando, aos 18 anos, Beth vai estudar para a universidade de Nova Iorque onde o tio dá aulas — e não demora muito até perceber que Frank tem uma vida diferente daquela que apresenta à família na Carolina do Sul, nas raras ocasiões em que lá vai.

O tio Frank é gay, numa altura em que ser homossexual ainda é um perigo — e pode levar os “criminosos” à prisão. Beth apercebe-se disso depois de aparecer sem avisar numa festa que Frank está a ter em casa, com o seu namorado de longa data, Wally (um imigrante da Arábia Saudita). Inocente, e depois do choque inicial, Beth começa a conhecer melhor o tio — e tudo aquilo que não sabia sobre ele.

Tudo muda, contudo, quando recebem um telefonema. A morte de um familiar vai levar Frank e Beth de volta à Carolina do Sul — numa road trip entre tio e sobrinha, que se vai tornar mais complexa e atribulada do que aparentava, culminando na chegada à pequena cidade de Creeksville, ao confronto entre a realidade e a família, e a importância de um trauma secreto no passado de Frank, relacionado com o seu crescimento e amadurecimento enquanto homossexual (que tem tudo a ver com a má relação que tem com o pai).

Não podemos revelar mais pormenores para não estragar as várias surpresas que o filme tem, mas podemos dizer que é um drama emocional e comovente sobre família, aceitação do outro, trauma e preconceito na América dos anos 70, em profunda transformação, e com uma grande disparidade entre os meios rurais e os centros urbanos (que talvez continue a perdurar).

Paul Bettany é o grande protagonista enquanto Frank — sendo que Beth é interpretada por Sophia Lillis. Já Peter Macdissi (o namorado de Alan Ball na vida real) faz de Wally. O elenco inclui ainda nomes como Steve Zahn, Judy Greer, Stephen Root, Margo Martindale e Jane McNeill, entre outros.

A história é, de certa forma, inspirada na vida do pai de Alan Ball, que também se chamava Frank. O filme começou a ganhar forma na mente do argumentista há vários anos. “Foi quando saí do armário para a minha mãe”, contou Ball ao “The Advocate”.

“Ela agarrou na cabeça dela como se fosse voar para o espaço caso não a agarrasse e disse: ‘Deus tem-me dado vários golpes’. Eu comecei a rir-me porque foi tão absurdo e depois ela disse: ‘Bem, eu culpo o teu pai por isto, porque eu acho que ele também era assim.’”

Alan Ball ficou chocado, já que não estava à espera que a mãe lhe dissesse que o seu pai, que mal tinha conhecido, poderia também ser gay. No dia seguinte, Ball e a mãe foram visitar um familiar perto de um parque na Dakota do Norte, chegaram perto de um lago e a mãe disse-lhe: “Aqui foi onde o Sam Lassiter se afogou.”

“Quem é o Sam Lassiter? Nunca ouvi falar desta pessoa”, respondeu Ball. “Bem, ele era um amigo muito, muito, muito próximo do teu pai”, disse a mãe. No filme, o nome de Sam Lassiter também foi usado para retratar uma personagem que passa por um acontecimento semelhante.

Mais tarde, Alan Ball descobriu que, após o afogamento, o seu pai acompanhou o corpo numa viagem de comboio para Asheville, a cidade natal de ambos. “Eles tinham 18 ou 19 anos, penso eu. Não sei se o meu pai era gay, porque ele já estava morto e eu não podia falar com ele sobre isso. Mas a ideia de que um jovem cujo amante cometeu suicídio ficou na minha cabeça durante anos e anos. E depois um dia comecei a escrever.”

Assim, a história é fictícia, fruto da imaginação de Alan Ball, mas baseada nalguns acontecimentos verdadeiros e perceções da vida real do seu pai. Além disso, o realizador e argumentista quis associar a sua vida ao filme. Deu o nome do pai ao protagonista, usou o de Sam Lassiter e a expressão “no problem”, usada pelo irmão de Frank no filme, foi o que o irmão de Alan Ball lhe disse na vida real quando ele revelou que era homossexual. 

Alan Ball explicou ainda que não queria uma história trágica nos contornos de outros filmes sobre relações gay — tentou escapar disso, ainda que haja vários momentos emocionais ao longo da narrativa que possam não ser assim tão surpreendentes. O filme tem pouco mais de uma hora e meia de duração.

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