Cinema

Vale a pena descobrir “Soul”, a grande aposta da Disney para este ano

“Soul: Uma Aventura com Alma” é a prenda de Natal deste ano dos estúdios Disney/Pixar.
A viagem entre cá e lá de Joe.

O tempo que vivemos talvez seja o mais fascinante de sempre da história da animação. Às técnicas e histórias que marcaram este mundo juntamos cada vez mais estúdios, grandes e independentes, criadores e novas plataformas onde os descobrir. Ainda assim, neste mundo gigante da animação, a parceria Disney/Pixar conseguiu nas últimas duas décadas e meia encontrar um lugar especial.

Não é acaso cada nova aposta forte da Disney/Pixar ser candidata aos Óscares (e geralmente regressa da cerimónia com a estatueta de melhor animação). São histórias que balançam com um cuidado delicado entre o humor e a imaginação, explorando conceitos que, não sendo para crianças, conseguem chegar a um público mais novo e aos pais e avós.

Não se trata de agradar a gregos e troianos. É mesmo o desafio de como uma história pode ao mesmo tempo ser complexa e universal. Talvez seja essa a grande marca dos filmes Disney/Pixar. São mundos animados sempre diferentes onde há algo com que qualquer espectador se pode identificar.

Tudo começou com “Toy Story: Os Rivais”, em 1995. Conhecemos Andy e os seus brinquedos e fomos levados numa viagem sobre crescer — e o que deixamos para trás na nossa infância, aqui materializado em brinquedos com medo de serem esquecidos. Há não só uma boa ideia mas o cuidado na forma de a contar.

Vimos isso na primeira parte de “WALL-E”, um robot numa Terra devastada, sem gente nem diálogos, que haveria de se apaixonar. Vimos isso na introdução em modo de curta-metragem de “Up – Altamente”, com a velhice e o luto a serem apresentados com elegância. Mas também no mundo criado na cabeça de uma criança em “Divertida-Mente” ou no vibrante pós-vida de “Coco”. A lista é extensa. E tem em “Soul: Uma Aventura com Alma” a sua nova etapa.

O filme chegou no dia de Natal à Disney+. Era para ter sido uma das novidades do ano nos cinemas mas a gigante norte-americana decidiu alterar os planos devido à pandemia. Não estreou no verão, foi apresentado em outubro festivais de cinema e entretanto a Disney desviou a estreia de “Soul” para a plataforma de streaming. Uma decisão que quando foi anunciada não escapou a críticas, dada a preocupação pelo futuro das salas de cinema.

Não será ainda no grande ecrã que vemos “Soul”, o que não nos deve distrair do essencial: à imagem dos pergaminhos que bem conhecemos dos estúdios, voltamos a ter um mundo inventivo e um trabalho conceptual e criativo que merece atenção. Há algo aqui que reconhecemos de outras animações mas também algo de muito próprio (e ambicioso).

Há diferentes mundos por explorar.

Não será spoiler (a cena até surge no trailer) se adiantarmos que o nosso protagonista, Joe, vai dar bem cedo uma queda que o vai obrigar a uma viagem metafísica. Ele que tudo o que quis fazer em vida era música, que estava feliz com uma oportunidade que se avizinhava, cai numa tampa de esgoto e é lançado para a vida depois da morte. É um fim a que ele se recusa. E “Soul” dá-nos o embate entre este homem que não quer morrer e uma alma que se recusa a encarnar no planeta Terra. Em simultâneo trabalha-se o quem somos, o que queremos ser e as nossas circunstâncias.

Pete Docter foi o escolhido para realizar “Soul”, ele que já tinha realizado “Divertida-Mente” e “Up – Altamente”. A seu lado, como co-realizador e co-argumentista, tem um estreante nos estúdios, Kemp Powers, afro-americano que tinha como uma das suas missões dar ao filme o devido contexto cultural e que foi ganhando com o tempo cada vez mais peso no projeto.

Pode parecer acessório mas este é um dos elementos que se destaca do filme. Pela primeira vez na história Disney/Pixar, o protagonista é um negro de meia idade que traz consigo a história de um género musical que definiu como poucos a música no século: XX: o jazz.

É um músico o nosso protagonista e isso ia exigir cuidado nas escolhas. A música aqui não é apenas banda-sonora (e alguns críticos já a apontam como a melhor de todos os filmes do estúdio). Ela é parte integrante da narrativa. Para funcionar, a escolha apostou num misto de surpresa e qualidade, com uma partitura que se divide entre o jazz, a cargo de Jon Batiste, e o regresso da parceria entre Trent Reznor (sim, o dos Nine Inch Nails) e Atticus Ross, cuja música será ouvida no The Great Before, uma das localizações do novo filme.

O trabalho em “Soul” é cuidado desde início mas é no momento em que Joe (Jamie Foxx) cai na por entre a tal tampa de esgoto, e “Soul” deixa este lado da vida, que os animadores se libertam criativamente. Há outros mundos para lá do mais hiperrealista que encontramos aqui na Terra, mais concretamente na multicultural Nova Iorque. E são mundos onde cores, texturas e formas se expandem.

O The Great Before em particular é um mundo fantástico onde conhecemos as almas ainda antes de o serem, quando as personalidades, os trejeitos e interesses se vão formando. Por ali há figuras burocratas desenhadas com traços cubistas e seres curiosos que Joe vai conhecer, com destaque para 22 (Tina Fey), figura cujo percurso se vai juntar ao de Joe.

Eis o incrível: a viagem em que Joe se lança é uma daquelas maiores do que a vida. É uma aventura com obstáculos e momentos de humor, com noções que podiam ser do âmbito da teologia, da filosofia, da metafísica, e tudo enquanto acompanhamos o tal músico à procura de voltar ao seu corpo.

É especial a paixão que Joe tem pela música. É a sua “razão para viver”, como lhe ouvimos no trailer. O saxofonista Sonny Rollins disse certa vez que “o jazz é o tipo de música que absorve imensas coisas e continua a ser jazz”. Em “Soul”, Joe e a sua alma embarcam numa viagem com muito para aprender. A lição era a que já estava desde início: como continuar a ser ele próprio.

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