Cinema

Vanessa Kirby: a nova grande estrela que coloca Napoleão a um canto

Brilhou em "The Crown" e é uma das melhores atrizes da sua geração. Mas viveu uma infância atribulada entre bullying e problemas de saúde.

Cresceu num lar abastado em Wimbledon, o subúrbio pitoresco de Londres, recheado de famílias de classe alta. A mãe é Jane Kirby, editora da revista “Country Living”. O pai, Roger Kirby, é um famoso cirurgião e professor de urologia. Um ambiente aparentemente perfeito e que oferecia todas as bases para uma infância feliz. Mas não é assim que Kirby recorda os primeiros anos.

A luta contra a girardíase provou ser um desses primeiros desafios. Este parasita intestinal causou-lhe náuseas constantes durante a infância e demorou anos até ser diagnosticado. “Eram injeções horríveis, comprimidos pelo rabo… tudo isso desde os nove aos onze anos”, contou a atriz de 35 anos ao jornal britânico “The Guardian”.

Vinte anos mais tarde, Kirby está imparável e destaca-se como uma das estrelas mais requisitadas da indústria. No seu papel mais recente é Josefina, protagonista do elenco de “Napoleão”, onde contracena ao lado de Joaquin Phoenix no épico histórico de Ridley Scott. O filme chegou esta quinta-feira, 23 de novembro, aos cinemas portugueses.

A sua carreira começou a ganhar forma precisamente na infância, quando o pai influenciou a futura grande paixão de Kirby. Ela era regularmente exposta a filmes pouco próprios para a sua idade. “Ele via imensos filmes comigo, até os que eram completamente impróprios para a minha idade”, revelou. “Filmes como ‘O Expresso da Meia-Noite’, que vi quando tinha apenas seis anos. Acho que a minha irmã tinha cinco anos quando fomos com ele ao cinema ver o ‘Um Homicídio Perfeito’.”

O teatro também desempenhou um papel importante na sua educação. O pai, “completamente obcecado por Shakespeare”, costumava levá-la frequentemente ao teatro. “Aborrecia-me bastante, até que aos 11 anos, deu-me um clique. Percebi que, quando o teatro é bom, pode ser transformador e ajudar a compreender as pessoas”, disse à revista  “Esquire”.

A escola, no entanto, trouxe-lhe experiências traumáticas. Foi vítima de bullying sistemático durante a primária. “Sempre me senti viva a fazer teatro. Era quando me sentia mais eu”, recorda. “Sofri bullying, foi muito mau, durante vários anos. Foi quando comecei a sentir-me mais insegura sobre tudo o que fazia. Mas o teatro era um porto seguro. Mas as outras raparigas…era sistemático, era horrível.”

“Uma professora, no último dia de escola, confessou à minha mãe: ‘Ela sobreviveu. Ela conseguiu’. O que significa que eles sabiam de tudo o que estava a acontecer.” Apesar do bullying e das frequentes idas ao hospital, Vanessa encontrou refúgio e paixão na atuação. Participava em todos os clubes de teatro que conseguia depois da escola. “Era um espaço onde era totalmente aceite e podia ser verdadeiramente eu própria.”

Mesmo perante as adversidades, Vanessa Kirby transformou as experiências em forças e emergiu como uma atriz talentosa e respeitada, capaz de retratar a complexidade das personagens que interpreta. É a própria que atribui essa capacidade aos desafios da infância. “Agora olho para trás e sinto que esses três anos me deram uma espécie de empatia, uma capacidade de perceção emocional”, explicou à “Marie Claire”.

Tal como muitas jovens aspirantes, Kirby fez castings para escolas de teatro imediatamente após concluir o ensino secundário. Aos 17 anos, sentia-se “terrivelmente impreparada e completamente perdida”. Rejeição após rejeição, foi aconselhada pelos diretores a ganhar mais experiência. Por isso, decidiu viajar durante nove meses, antes de se candidatar à universidade para estudar representação. O objetivo? Conhecer o mundo, outras pessoas, longe dos meios do teatro.

De regresso, a universidade não foi tudo o que imaginava. A experiência revelou-se transformadora e sentiu-se mais determinada do que nunca em perseguir a carreira de atriz. “Percebi que, de alguma forma, tinha que virar a minha vida apenas para o teatro, mesmo que fosse fazer peças aos domingos sem qualquer pagamento domingos.”

Foi descoberta por David Thacker que lhe ofereceu três papéis no Octagon Theatre Bolton. A jovem Vanessa engavetou a ideia de tirar o curso de teatro e começou a trabalhar de imediato. Era uma ávida devoradora de livros. Leu tudo o que encontrava que tivesse sido escrito por Chekhov, ainda na adolescência. “Teria sido a pessoa mais feliz do mundo se pudesse estar permanentemente em palco. E quando chego a um set de filmagens, começo logo a sentir saudades do teatro. Acho que o teatro será sempre o centro da minha identidade.”

A carreira de Kirby no cinema era uma inevitabilidade. Após vários papéis em televisão, foi escolhida para o elenco de “The Crown”. Uma oportunidade que transformou a sua carreira e que a fez passar de respeitada atriz de teatro a estrela britânica em ascensão. Na produção sobre a história da família real interpretou a princesa Margaret, irmã mais nova de Isabel II, nas duas primeiras temporadas da série, entre 2016 e 2017.

“Foi um papel que mudou a minha vida. É tudo o que eu sempre quis”, confessou à “Marie Claire”. A série não só a catapultou para a fama, como também se tornou uma paixão pessoal. “É mais empolgante e gratificante do que qualquer outro trabalho como atriz.”

Se “The Crown” lhe deu um lugar no palco principal, foi o seu papel em “Pieces of a Woman” que a consolidou como uma das atrizes mais promissoras da indústria — e a atirou para o centro de Hollywood. O filme de 2020 valeu-lhe a primeira nomeação para o Óscar na categoria de Melhor Atriz. Nele, Kirby interpreta Martha, uma jovem mãe que enfrenta uma tragédia num parto em casa, seguido de um longo e penoso período de luto. Uma atuação magnífica que marcou a sua carreira desde então, mas que exigiu uma preparação dura.

Para a cena do parto, a atriz teve a possibilidade de assistir a um nascimento real, numa sala de partos. “Meu Deus, que coisa tão incrível para fazer por alguém: deixar que um estranho esteja presente num momento tão sagrado”, comentou. “Consegui ver o animal selvagem nela. Foi a esse espírito selvagem a que tive que recorrer, mesmo que nunca tenha sido mãe.”

Se “Pieces of a Woman” lhe trouxe o conforto da crítica, foi a saga “Missão Impossível” que a levou a um público mundial. Entrou para a saga em 2018 e repetiu a presença no mais recente filme de 2023. Da experiência, recorda o feitio implacável de Tom Cruise. “É um profissional incrível. Absolutamente disciplinado, super entusiástico. Quer sempre tudo executado ao mais alto nível, o que te obriga a praticar imenso”, contou. “Disse-lhe que nunca me enfiaria numa máquina de corrida com ele, mas aprendi muito sobre ética de trabalho. Nunca pensei que ação e manobras perigosas seriam o meu género, mas consigo agora perceber que é possível transcenderes os géneros, desde que tentes encontrar a mulher verdadeira por detrás de cada papel.”

Em cada papel que assumiu, desde “Missão Impossível” a “Napoleão”, Kirby tem impressionado tanto o público quanto a crítica. Um percurso que levou a “Variety” até à conclusão a que muitos também já chegaram: Kirby é “a mais notável atriz de teatro da sua geração”.

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