Cinema

Violência doméstica, ódio aos judeus e alcoolismo: a vida atribulada de Mel Gibson

Apesar dos comportamentos erráticos, o ator continua a trabalhar em Hollywood. Esta quinta-feira tem um novo filme nos cinemas.
Mel Gibson tem 66 anos.

Para todos aqueles que acreditam que está implementada uma cultura do cancelamento — sobretudo na esfera pública norte-americana — basta olhar para o caso de Mel Gibson para perceber que não será bem assim. O ator e realizador americano de 66 anos continua a trabalhar na indústria de Hollywood apesar de todos os comportamentos erráticos e da controvérsia que geram.

Nesta quinta-feira, 12 de maio, estreia nos cinemas portugueses “Crime em Hollywood”, onde interpreta um juiz envolvido em meandros duvidosos. A história acompanha um antigo polícia caído em desgraça que volta ao ativo quando é contratado para investigar um homicídio. Não é o único exemplo, claro. Mel Gibson tem gravado outros projetos, mesmo que, por várias razões, esteja afastado dos grandes blockbusters. 

Em 2010, foram reveladas gravações de Gibson a insultar a namorada Oksana Grigorieva, mãe de um dos seus nove filhos. O ator sugeria que se “fosse violada por um bando de pretos [niggers]”, a culpa seria dela. Foi uma das provas apresentadas por Grigorieva para obter uma ordem de restrição contra ele, que alegadamente também a agredia fisicamente. O tribunal acabou por aceitar a providência cautelar, depois de Gibson não desmentir ter cometido um crime de agressão.

Ao longo dos anos, Mel Gibson tem também feito vários comentários negativos em relação aos homossexuais. Em 1991, foi duramente criticado pela associação Gay & Lesbian Alliance Against Defamation após uma entrevista ao jornal espanhol “El País” onde fez várias declarações homofóbicas. Anos depois, após a estreia de “Braveheart” em 1995, recusou pedir desculpas e retratar-se do que havia dito. Só se recriminou em 1999, numa outra entrevista ao “El País”. “Não o deveria ter dito, mas estava a beber alguma vodka durante essa entrevista —, e aquelas citações voltaram para me assombrar.”

Contudo, o grupo mais problemático para Mel Gibson são os judeus. Já fez várias afirmações anti-semitas — que têm até influenciado o seu trabalho enquanto ator e cineasta. Tudo começou, podemos assumir, com o seu pai, Hutton Gibson.

Quando Mel Gibson nasceu em 1956, o pai era veterano da Segunda Guerra Mundial.  E também um católico fervoroso que acreditava que o Concílio Vaticano II — responsável por ter modernizado a igreja católica — era uma “conspiração maçónica apoiada pelos judeus”, descreveu, citado pelo “The New York Times”.

Várias décadas depois, Hutton Gibson foi entrevistado na rádio, aquando da estreia de “A Paixão de Cristo” — filme do filho também muito criticado pela forma como representa os judeus — e afirmou que “a maior parte” do Holocausto foi “ficção”, que os museus sobre este genocídio eram “um truque para fazer dinheiro”, e que havia mais judeus na Europa no pós-Segunda Guerra Mundial do que antes.

A primeira alegação anti-semita sobre Mel Gibson surgiu em 1996. A atriz Winona Ryder e o amigo homossexual Kevin Aucoin, maquilhador, estavam numa festa quando se cruzaram com Gibson. Winona Ryder afirmou que Mel Gibson perguntou a Aucoin: “ah, espera, será que vou apanhar SIDA?”. Os judeus também acabaram por entrar na conversa. “Tu não és uma das que fugiram do forno, pois não?”, perguntou a Winona Ryder, que só divulgou o teor do diálogo anos mais tarde.

Mel Gibson sempre negou ter usado estes termos. “Ela mentiu sobre aquilo há mais de uma década, quando falou com a imprensa, e continua a mentir sobre isso agora”, disse um representante do ator à revista “The Hollywood Reporter”, em 2020. 

Winona Ryder sempre manteve o que disse. “Acredito na redenção e no perdão, e espero que o senhor Gibson tenha encontrado uma forma saudável de lidar com os seus demónios, mas eu não sou um deles”, frisou a atriz à mesma publicação. “Só ao aceitarmos a responsabilidade pelo nosso comportamento é que podemos retratarmo-nos e respeitar verdadeiramente os outros.”

Em 2003, quando o projeto de “A Paixão de Cristo” já era conhecido, um grupo de cidadãos judeus deslocou-se aos escritórios da Fox para dissuadir os estúdios de distribuírem o filme, alegando que o conteúdo sugeria que o povo judeu carregava uma culpa coletiva pela morte de Jesus Cristo. Resultou: a Fox preferiu não ficar com a distribuição do filme.

Em fevereiro de 2004, a Anti-Defamation League e a conferência americana dos bispos católicos tiveram acesso ao guião do filme antes da estreia. Emitiram um comunicado caracterizando o argumento como “um dos textos mais problemáticos, em termos de potencial anti-semita, que alguma vez tinham visto nos últimos 25 anos”. A narrativa, segundo as entidades, retrata Cristo “a ser perseguido de forma implacável por uma cabala maléfica dos judeus”, que terão contribuído para a sua condenação à morte.

Quando, algumas semanas depois, o filme estreou nos cinemas, muitos críticos apontaram o conteúdo anti-semita do enredo. Caiaphas, o padre judeu que lidera o ataque a Jesus, diz com remorsos: “o seu sangue é da nossa responsabilidade e dos nossos filhos”. Várias organizações judaicas protestaram veementemente contra esta fala específica em que um sacerdote judeu admitia que o seu povo era o culpado pela morte de Cristo. A legenda acabou por ser retirada do filme, mas a fala em hebreu permaneceu.

“Queria aquela fala”, justificou Mel Gibson em declarações à “The New Yorker”. “O meu irmão disse-me que daria sinais de fraqueza se não a incluísse. Mas se a incluísse, eles viriam atrás de mim, à minha casa, para me matar.” Em diversas entrevistas, quando questionado sobre a forma como os judeus poderiam olhar para a produção, disse simplesmente que o filme só continha “a verdade”.

Dois anos depois, em 2006, Mel Gibson foi detido por conduzir embriagado. O ator é alcoólico — começou a beber aos 13 anos —, já fez diversos tratamentos e teve múltiplas recaídas, ao longo dos anos. A sua tendência para a depressão também está relacionada com o alcoolismo — na altura da estreia de “A Paixão de Cristo” disse que chegou a ponderar o suicídio por volta dos 30 anos.

No dia em que foi detido, em 2006, o ator fez comentários anti-semitas que não estavam, de todo, relacionados com nada daquilo que se estava a passar. “Cabrões dos judeus… São responsáveis por todas as guerras no mundo”, disse ao polícia judeu que o prendeu, antes de lhe perguntar se era um deles.

Nesse caso, Mel Gibson pediu desculpas pelas palavras proferidas. “Agi como uma pessoa completamente fora de controlo quando fui detido, e disse coisas que não acredito que sejam verdade e que são desprezíveis. Estou profundamente embaraçado com tudo o que disse e peço desculpas a todos aqueles que posso ter ofendido”, disse em comunicado.

O incidente terá provocado um afastamento entre Mel Gibson e a indústria de Hollywood. Entre 2004 e 2010, o ator não fez qualquer papel — embora tenha realizado o filme “Apocalypto” em 2006.

Em 2011, é noticiado que Mel Gibson está a desenvolver um filme histórico sobre a vida de Judas Macabeu. As críticas da comunidade judaica não tardam a chegar. O rabino Marvin Hier do Simon Wiesenthal Center Museum of Tolerance disse à “The Hollywood Reporter” que Mel Gibson “tem um longo histórico de antagonismo para com os judeus”. 

“Escolhê-lo como realizador ou talvez como protagonista de um filme sobre o Judas Macabeu é como colocar um supremacista branco a tentar retratar Martin Luther King. É simplesmente um insulto aos judeus”, afirmou.

Um ano depois, os estúdios da Warner Bros. decidem cancelar o projeto, citando problemas com o argumentista Joe Eszterhas. O guionista acabou por vir a público dar o seu lado da história, alegando que Mel Gibson simplesmente desejava “contrariar as acusações contínuas de anti-semitismo” que têm “estragado a sua carreira”. 

Eszterhas afirmou mesmo que Gibson não tinha realmente intenção de concretizar o filme, mas quando o projeto avançou, disse que o seu objetivo principal era “converter os judeus ao cristianismo”. O argumentista acusou ainda Gibson de usar termos insultuosos para com os judeus e de dizer que o Holocausto era “essencialmente, um monte de tretas”. Mel Gibson respondeu e negou a grande maioria das acusações.

Em 2016, depois de dirigir o filme de sucesso “O Herói de Hacksaw Ridge”, voltou a falar das acusações de anti-semitismo numa entrevista à “Variety”. “Não percebo porque é que isso continua a ser uma questão dez anos depois. Certamente, se eu fosse mesmo aquilo que eles dizem que eu sou, alguém que odeia, haveria alguma prova.”

Três anos depois, a “Deadline” noticiou que Mel Gibson vai protagonizar um filme chamado “Rothchild”, interpretando a personagem Whitelaw Rothchild — que é uma sátira e um trocadilho com a famosa e milionária família judaica Rothschild, de Nova Iorque. Não foram divulgados mais detalhes sobre o projeto desde então. Entretanto, foi anunciado que vem aí um novo filme de “A Paixão de Cristo”.

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