Cinema

Yuh-Jung Youn: a Meryl Streep coreana que conquistou o mundo aos 73 anos

A atriz cativou a Academia com a sua atuação em “Minari” e o público com o discurso nos Óscares. O filme chega esta quinta-feira, 13 de maio, às salas de cinema portuguesas.
Um exemplo

Faltavam pouco menos de dois meses para Yuh-Jung Youn cumprir 74 anos de idade quando na madrugada de 26 de abril ficámos a saber que era a ela que seria entregue o Óscar de Melhor Atriz Secundária. “Minari” estreia nos cinemas portugueses esta quinta-feira, 13 de maio, e esta mulher é mais uma razão para não perder o filme.

No meio de outras nomeadas como Maria Bakalova, Olivia Colman, Amanda Seyfried ou Glenn Close, o nome da sul-coreana poderia passar despercebido e até seria considerado por muitos como um dos excluídos à partida. Se o mundo ainda não conhecia Yuh-Jung Youn, ficou a conhecer — o Óscar e o BAFTA não podem ser esquecidos —, mas na sua terra Natal é já há muito uma super estrela. Quase como uma Meryl Streep à escala asiática.

A carreira vai longa, passaram mais de 50 anos desde que se estreou no cinema com “Hwanyeo”, em 1971, do realizador Ki-young Kim. Mesmo assim, não se esqueceu dele no discurso de agradecimento deste seu primeiro Óscar, garantindo que Kim “estaria muito feliz se fosse vivo”.

Este discurso foi, aliás, muito falado por diversas questões. Divertido e ao mesmo tempo sagaz, naquela combinação que só se consegue com um pouco de leveza e de experiência que os anos de vida e de carreira dão. As primeiras palavras chegaram logo para demonstração: “Senhor Brad Pitt, encantada de conhecê-lo. Onde esteve enquanto filmávamos?” Tudo porque o ator fazia parte dos produtores de “Minari”, mas pelos vistos não tinha estado assim tão perto da produção.

Depois seguiram-se algumas considerações sobre as constantes trocas que os ocidentais lhe fazem ao nome, que garantiu estarem perdoadas depois daquela noite. Num pequeno desabafo, disse ainda estar incrédula por estar na cerimónia dos Óscares, algo que normalmente só tinha visto como um programa de televisão. No meio disto, não se esqueceu de agradecer a toda a família que criou entre o elenco do filme e muito menos ao realizador, Lee Isaac Chung, “sem o qual não estaria aqui”.

Num conjunto raro de afirmações em Hollywood, frisou que não acredita em competição porque não conseguiria vencer nenhuma das outras nomeadas, como Glenn Close. Assim, explicou que todas foram boas fazendo papéis diferentes em filmes também eles diferentes, apontando que talvez tivesse tido mais sorte do que as outras. “Ou talvez seja a hospitalidade norte-americana para os atores coreanos?”

Quem a vê, com um ar jovial e ao mesmo tempo sábio, reconhece que há muito para descobrir sobre Yuh-Jung Youn. Há mesmo. A carreira desta atriz nem sempre foi linear ao longo deste meio século. No início, quando começava a ser reconhecida e a ter mais trabalho na Coreia, casou com o também artista Jo Young-nam. Esta relação levou-a para os EUA e só quando se divorciou e regressou a casa, dez anos mais tarde, por volta de 1984, é que voltou a trabalhar na representação. O que não foi tarefa fácil dada a forma como eram vistas naquela época as mulheres divorciadas e até a levou a ponderar abandonar a carreira.

Tanto em cinema como em televisão, os papéis de femme fatale ou de matriarca são aqueles em que mais se destacou, o que torna mais fácil perceber a sua prestação em “Minari”. E também as dezenas de prémios que venceu na Ásia durante a sua longa carreira.

Ao longo dos anos interpretou personagens noutros filmes destacados no ocidente como são os casos de “Noutro País” ou da famosa série “Sense8”.

Talvez tudo isto explique aos filhos a razão pela qual passa tanto tempo fora de casa e trabalha tão arduamente, como a própria acabou por dizer no tal discurso de agradecimento à Academia. E sim, no fim, conseguiu tirar a tão aguardada fotografia com Brad Pitt — que elogiou a sua atuação e em cujas palavras a própria diz ser demasiado velha para acreditar —, apesar de nem ligar assim tanto a tudo o que Hollywood e o seu glamour representam.

“Não, não admiro Hollywood. A razão pela qual continuo a vir é porque se vier aos EUA e trabalhar, talvez possa ver o meu filho mais uma vez. Do fundo do meu coração”, explicou à NBC.

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