Cinema

Como Johnny Depp fez implodir uma carreira de sonho — e se tornou “radioativo”

O conflito com a ex-mulher e as alegações de violência doméstica parecem ter arrasado a reputação de uma das maiores estrelas do cinema.
A vida não está fácil para o ator

Johnny Depp “bate em mulheres”. Foi essa a terrível conclusão que a que chegaram os tribunais britânicos numa das muitas batalhas jurídicas travadas pelo ator nos últimos anos. A seguinte trava-se por estes dias do outro lado do Atlântico, no estado norte-americano da Virgínia. Desta vez, ao contrário da primeira — que colocou o ator frente a frente com os tablóides britânicos, que o acusavam de ter agredido a ex-mulher —, a luta é mesmo entre Depp e Heard. A disputa promete ser feia, mas há já uma grande derrotada: a carreira de Depp.

No centro desta nova batalha jurídica está um artigo de opinião de Heard, no qual alegou ser vítima de violência doméstica. Depp montou a equipa de advogados e exigiu uma indemnização de perto de 50 milhões de euros. A ex-mulher contra-atacou com outro pedido: o dobro do valor.

O julgamento que começou esta terça-feira, 12 de abril, será um degradante espetáculo transmitido em direto e com direito a um elenco de estrelas no rol de testemunhas, de Elon Musk a James Franco. Mas a guerra pública já teve repercussões dramáticas no trabalho de Johnny Depp, um dos mais bem pagos atores de Hollywood.

De acordo com a BBC, durante os últimos 15 anos, o ator terá arrecadado mais de 600 milhões de euros em honorários. Só a participação em “Alice no País das Maravilhas”, de 2010, terá valido um cheque de 50 milhões. Por comparação, a sua participação no mais recente “Minamata” rendeu apenas 2,75 milhões — um impacto indesmentível da fraca reputação que Depp nutre em Hollywood por estes dias.

O embate legal com Heard é o mais paradigmático mas está longe de ser o único travado por Depp na última década. Em 2012, uma professora de medicina acusou o ator e os seus seguranças de agressão durante um concerto. O caso foi encerrado com um acordo extrajudicial.

O mesmo destino tiveram os processos que o ator moveu contra a empresa que geria a sua carreira, onde os acusava de má gestão do seu dinheiro, sendo que também processou os próprios advogados. O chorrilho de casos continuou em 2018, com dois guarda-costas a acusarem em tribunal o ator de não pagar salários.

Nesse mesmo ano, Depp foi processado por alegadamente ter agredido e insultado um membro da equipa de produção de “City of Lies”. Um gesto supostamente tido sob efeito do álcool.

“Ao longo dos últimos 35 anos, nunca ninguém lhe disse ‘não’. É algo típico em Hollywood, mas nunca vi um caso tão grave como [o de Depp]”, revelou à “The Hollywood Reporter” um produtor que se quis manter no anonimato.

O efeito nefasto dos sucessivos escândalos é inegável, conforme relata um assessor especializado em crises. “Ele está a sofrer uma carnificina a nível reputacional, tudo fruto das suas escolhas irresponsáveis”, nota Eric Schiffer à “THR”. Outro dirigente de um estúdio proeminente em Hollywood mostra-se pouco crente na recuperação da carreira de Depp. “Simplesmente não podes trabalhar com ele neste momento. Ele tornou-se radioativo.”

O caso Amber Heard

Os dois atores deram início a uma relação amorosa em 2012, depois de se conhecerem no set de “The Rum Diary”, alguns anos antes. Em 2015, tornavam a ligação oficial que durou muito pouco tempo. Ao fim de 15 meses de casamento, chegava o divórcio.

O divórcio chegava com estrondo e acompanhado de uma ordem de afastamento. Ao tribunal, a atriz apresentou-se com marcas visíveis na cara, originadas por, alegava, uma agressão de Depp. O marido tê-la-ia atacado “com violência” e inclusivamente arremessado o telemóvel à sua face com “força extrema”. Seguiu-se o “abuso físico, verbal e emocional”, potenciado por “agressões ameaçadoras, hostis e enraivecidas”.

Apesar da ordem de afastamento — e do choque público que a revelação na imprensa teve na vida dos dois atores —, o confronto parecia sanado pouco tempo depois. “A nossa relação foi intensa e por vezes volátil, mas sempre ligada pelo amor. Nenhuma parte fez qualquer tipo de acusação com o objetivo de obter retorno financeiro. Nunca houve qualquer intenção de ferir ninguém, física ou emocionalmente.”

Heard recebeu pouco mais de seis milhões de compensação e o caso parecia encerrado. Era pura ilusão.

No final de 2018, Heard decidiu contar a sua história num artigo de opinião publicado no “The Washington Post”. Queria ser “uma figura pública contra a violência doméstica”. “Senti toda a pujança da raiva que a nossa cultura tem pelas mulheres que ousam falar”, escreveu. “Estava numa posição privilegiada para observar, em tempo real, a forma como as instituições protegem os homens acusados de abusos.”

O nome de Depp nunca foi mencionado, mas o ator acusou o toque e avançou com um processo em tribunal por difamação. “O artigo de opinião deixa claramente implícito que Depp é um abusador, o que é falso.” Opinião diferente tiveram os tribunais britânicos que, perante o pedido de indemnização do ator aos jornais que o acusaram de ter agredido Heard, se manifestaram pela improcedência do pedido. A juíza considerava terem ficado demonstrados os abusos e agressões.

Agora, a luta prossegue nos Estados Unidos e, em poucos dias, os testemunhos tornaram já o caso num desolador espetáculo mediático. Mais uma vez: será a carreira de Depp a pagar o preço.

As discussões em tribunal tiveram outro condão nefasto: o de desvendar muitos sórdidos detalhes sobre a vida do ator. Durante o primeiro julgamento, por exemplo, os seus advogados alegaram que gastaria perto de 30 mil euros em vinho todos os meses. Depp, no seu estilo habitual, considerou o valor “insultuoso”. “Gastava muito mais do que isso”, notou.

O casal tornou-se num power couple de Hollywood

Discutiram-se viagens em jatos privados, o consumo de cocaína às primeiras horas da manhã e até o facto do cão de Heard ter ou não feito as necessidades na cama do ator. Na origem de muitos dos abusos invocados em tribunal estava o temperamento complicado de Depp, supostamente enciumado pela proximidade da mulher aos seus co-protagonistas como Leonardo DiCaprio ou Channing Tatum. Nenhum deles se livrou de insultos. O primeiro era, para Depp, um “cabeça de abóbora”, o segundo um “cabeça de batata”.

Ao longo das décadas em que firmou o nome como uma das estrelas mais pretendidas da indústria, sempre procurou fugir ao rótulo de pretty boy, do menino bonito. Fê-lo conscientemente nos papéis que aceitava, mas também de forma menos consciente e mais problemática, através dos escândalos privados em que se ia vendo envolvido.

Chegou a ser detido em confrontos com a polícia, destruiu quartos de hotel. Bebia, fumava, consumia drogas, de tudo um pouco, sempre de forma excessiva. Na vida amorosa, seguia o mesmo exemplo e envolveu-se com algumas das estrelas mais veneradas, de Kate Moss a Winona Rider.

A sua biografia faz-se com os ingredientes das verdadeira estrelas rock. Uma infância problemática na qual começou a consumir os comprimidos da mãe. Aos 14 anos, diz o próprio, já “havia consumido todas as drogas” que se encontravam nas ruas. O tema, aliás, ganhou espaço nos primeiros dias do julgamento do ator já com 58 anos.

No banco das testemunhas, a irmã mais velha de Depp, Christi Dembrowski, defendeu o ator, numa viagem até aos traumas de infância menos conhecidos. Segundo a própria, foram alvo de violência às mãos da mãe — um episódio traumático que, justifica, fez Depp jurar que nunca perpetuaria esse tipo de violência na sua própria vida.

“A mãe gritava com ele, batia-lhe, chamava-lhe nomes”, recorda. “O nosso pai não reagia, nunca fez nada. Deixava que ela fizesse o que tinha a fazer. Era a única forma de lidar com ela. Ele sempre tentou manter a paz.”

Os abusos verbais e psicológicos também eram comuns. “Ela tinha umas quantas alcunhas para o Johnny. A favorita era ‘one eye’ — um olho, em tradução livre —, porque quando era miúdo, os médicos achavam que ele sofria de estrabismo e taparam-lhe um dos olhos para fortalecer o outro.” “Ele nunca respondeu de forma negativa. Ele habituou-se a isso. Aceitava tudo.”

Dembrowski recordou também alguns episódios de alegado abuso de Heard para com Depp. “Vi-a insultá-lo por várias vezes. Dizia que era um ‘homem velho, gordo’.” Em apenas um par de dias, a vida de Depp foi arrastada violentamente para a praça pública e não se espera que a situação melhore. Muito menos servirá para impulsionar a já decadente carreira do ator ou sequer ajudar a fazer esquecer o rótulo dado por Hollywood: o ator “radioativo” em que ninguém quer tocar.

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