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Como Volodymyr Zelensky passou de humorista a líder heróico da resistência ucraniana

O improvável presidente ucraniano está na pior situação possível para um chefe de estado. Os discursos têm impressionado o mundo.
Zelensky diz que é o alvo principal da Rússia

Zelensky sobe ao palco, baixa as calças e, atrás de um piano, finge tocar toda uma longa melodia com o pénis. A multidão explode em gargalhadas. Foi com pequenos trechos humorísticos do género que o comediante ucraniano se tornou numa das caras mais reconhecidas da televisão e, sem surpresa, foi escolhido para ser protagonista da série “Servant of the People”.

O guião era suficientemente disparatado para criar uma situação cómica e altamente improvável. Vasyl Petrovych Holoborodko é um professor do ensino secundário revoltado com a corrupção que contamina todo o governo ucraniano. Um dos seus discursos privados sobre o estado da nação é gravado por um estudante, que o partilha e rapidamente se torna viral.

Quando dá por si, Holoborodko é candidato à presidência e acaba inevitavelmente sentado no posto mais poderoso da nação. O que se segue é pura sátira política sobre os problemas reais do país, resolvidos por uma figura imaginária. Quatro anos depois da estreia do programa humorístico, algo ainda mais improvável acontecia.

Zelensky concorria realmente às eleições presidenciais de 2019 e conquistava a confiança dos ucranianos. Subia assim ao lugar mais poderoso do país, concretizando a profecia da série que teve direito a três temporadas.

Agora, noutro golpe de alta improbabilidade — e a provar que, em pouco mais de sete anos, Zelensky tem já material para deixar uma enciclopédia de histórias aos netos —, transformou-se no líder da resistência ucraniana frente à agressão russa de Vladimir Putin.

“A Rússia quer destruir a Ucrânia politicamente através do abate do chefe de estado”, anunciou esta sexta-feira o presidente Zelensky, num pequeno vídeo divulgado pouco depois da meia-noite, enquanto os bombardeamentos russos ecoavam pelos céus da capital. “Estarei nas instalações do governo, ao lado de todos. O inimigo designou-me como o alvo número um. A minha família é o alvo número dois.”

Se em 2019 pairavam dúvidas sobre a real capacidade de liderança do humorista, os acontecimentos recentes valeram-lhe aplausos e elogios vindos de todo o mundo. Naquele que é, sem qualquer discussão possível, o mais difícil momento do seu mandato — e um desafio que nenhum líder mundial quereria enfrentar —, Zelensky mostrou-se focado, determinado, ágil, ponderado e, sobretudo, corajoso.

Já havia mostrado a sua capacidade de lidar com perigos e expectativas. Quando subiu ao poder em 2019, pairava nas sombras da Ucrânia o eterno dilema que provocou a Revolução Laranja de 2004 e os protestos de Maidan em 2014: o povo queria aproximar-se do ocidente e da Europa, ou regressar à esfera de influência da Rússia e de Vladimir Putin?

Curiosamente, Zelensky foi capaz de manter o governo unido e de colocar na balança os melhores interesses do país sem se deixar cair na armadilha da escolha de um dos lados. Claro que nenhum homem ou político escapa incólume às críticas que, no seu caso, se avolumaram ainda antes de ser eleito.

Os seus maiores detratores acusaram-no de ter um oligarca acusado de corrupção por detrás do financiamento da sua campanha, Ihor Kolomoysky, dono do canal televisivo que acolhia os programas do humorista.

“Não sou um fantoche de Kolomoysky. Não seria o fantoche de nenhuma destas pessoas”, sublinhou numa entrevista durante a campanha. Questionado sobre o motivo que o levava a trabalhar para um homem acusado de roubar dinheiro ao povo, foi peremptório: “Todos os canais e todas as grandes empresas do país estão nas mãos dos oligarcas. Isso significa que todos os ucranianos, os 40 milhões que aqui trabalham, são pessoas sem princípios?”

As respostas desarmantes e o discurso anti-corrupção — que era bastante semelhante ao da sua personagem na série — haveriam de ser um grande apoio, quando finalmente se lançou na campanha.

Zelensky e a sua empresa de produção de conteúdos Kvartal 95 agarraram na licença de um partido existente e mudaram-lhe o nome. Foi rebatizado precisamente com o título da série que o tornou famoso. À frente do partido ficou o então CEO da Kvartal 95, mas as ambições políticas foram desconsideradas. Pelo menos até 2019, quando Zelensky se assumiu como o homem forte do partido e candidato às presidenciais.

O então presidente Petro Poroshenko partia como o grande candidato incumbente. Foi ele quem agarrou os comandos do país depois dos violentos protestos em Maidan que provocaram a queda de Viktor Yanukovych, fortemente ligado à Rússia. Numa corrida imprevisível, Zelensky surpreendeu tudo e todos.

Zelensky e Poroshenko foram os dois nomes no boletim da segunda volta das eleições. O humorista goleou: concentrou em si mais de 73 por cento dos votos.

Três anos depois de tomar o poder, Zelensky mostrou-se equilibrado mas o pendor para o ocidente tornou-se evidente — para o povo e sobretudo para a Rússia, que começou a temer a potencial entrada do país vizinho na NATO. O presidente mostrou não ter dúvidas sobre qual o melhor caminho para o país. “Acreditamos que não poderá haver uma União Europeia forte sem a Ucrânia. Digo-o abertamente ao presidente norte-americano: não ter a Ucrânia na NATO seria uma perda para a aliança.”

A nível interno, Zelensky não fica isento de críticas. Após a acusação de traição que recaiu sobre o antigo presidente Poroshenko — por suspeitas de ter colaborado com os separatistas pró-Rússia que combatiam nas regiões de Donetsk e Luhansk —, os olhos da imprensa viraram-se para si, sobretudo por não ter cumprido com muitas das promessas de combate à corrupção. “Tem havido uma enorme centralização do poder. Muitos sinais de que talvez Zelensky não esteja a combater a corrupção conforme prometia”, explica à “Vox” Oleskiy Sorokin, jornalista político ucraniano.

Todas essas críticas esmoreceram à medida que a ameaça russa surpreendeu até os ucranianos, que não acreditavam numa invasão. Zelensky assumiu a responsabilidade da defesa do país e procurou a solução diplomática até ao último segundo, até para poupar vidas. Quando a diplomacia não funcionou, colocou o capacete e prometeu manter-se ao lado dos compatriotas, mesmo com os tanques às portas da capital Kiev.

Com pouco mais a fazer e sem os seus apelos de ajuda internacional a surtirem efeito, Zelensky socorreu-se da maior arma dos políticos em tempos de crise: a palavra. Os seus discursos diários que têm atraído todas as atenções e elogios. E mesmo que não seja capaz de resistir à ameaça russa, deixou na memória uma daquelas frases que acabam por ter lugar reservado nos livros de história.

“Sabemos, por certo, que não queremos guerra. Não queremos uma guerra fria, não queremos uma guerra quente nem uma guerra híbrida. Mas se formos atacados, se tentarem roubar-nos o nosso país, a nossa liberdade, as nossas vidas e as vidas das nossas crianças, vamos defender-nos”, disse num discurso que antecedeu a invasão. “E quando nos atacarem, verão as nossas caras. Não verão as nossas costas, mas sim os nossos rostos.”

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