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Da saúde mental à lúpus, os problemas que têm marcado a vida de Selena Gomez

Estreou um documentário sobre a artista no dia 4 de novembro. “Estou grata por estar viva”, admite a cantora e atriz de 30 anos.
A artista de 31 anos "apercebeu-se" que não vai voltar ao que era.

No Dia Mundial da Saúde Mental, a 10 de outubro, Selena Gomez revelou que  no dia 4 de novembro iria estrear o documentário “My Mind & Me”, centrado na sua saúde mental. A produção já está disponível na plataforma de streaming Apple TV+. Neste projeto, a cantora e atriz americana de 30 anos, que é uma estrela pop desde pequena, aborda as dificuldades por que tem passado e como as tem superado, de forma a também ajudar outras pessoas.

“My Mind & Me” é descrito como um retrato “cru e íntimo que aborda os seis anos que durou a viagem da cantora para voltar a ver a luz”. “Apenas sê tu mesma, Selena. Ninguém se importa com o que estás a fazer. É sobre quem sou, estar bem onde estou. Estou grata por estar viva”, diz a artista no trailer divulgado.

A Apple TV+ descreve-o como “um filme revelador” que apoia a “consciencialização mundial sobre o tema e acerca do qual Selena partilha de forma corajosa a sua própria viagem”. Comecemos, então, por partes, a detalhar que processo tem sido este — e de que forma é que outra doença, a lúpus, afetou também a saúde mental de Selena Gomez.

As lutas de Selena Gomez com os problemas de saúde

Em 2014, quando tinha 22 anos, Selena Gomez foi diagnosticada com lúpus. É uma doença auto-imune, que enfraquece o sistema imunitário, pelo que se pode manifestar de diversas formas. No seu caso, afetou os rins. E em 2017 teve mesmo de ser submetida a um transplante. Selena Gomez recebeu um rim da atriz Francia Raisa, uma grande amiga, que conheceu no início da sua carreira. Também foi sujeita a tratamentos de quimioterapia.

A partir do momento em que foi diagnosticada com lúpus, a saúde mental de Selena Gomez foi afetada — logo nesse ano de 2014 houve relatos sobre o facto de a cantora procurar ajuda profissional. Em março desse ano, fez um discurso numa conferência da Disney que explicava alguns dos motivos que a levavam a não se sentir bem.

“Estou rodeada de pessoas que supostamente me deveriam guiar, e algumas têm-me guiado, mas outras não. Elas pressionam-me. Há tanta pressão. Tens de ser sexy, tens de ser fofa, tens de ser simpática. Tens de ser tanta coisa. Dizem-me o que vestir, como me devo parecer, o que devo dizer, como devo ser. Até recentemente, cedia a essa pressão. Perdi a visão de quem eu era. Ouvia as opiniões das pessoas, e tentava mudar quem eu era porque acreditava que os outros me iriam aceitar dessa forma.”

Já em abril de 2016, falou pela primeira vez em público sobre o processo de ter procurado ajuda profissional dois anos antes. “Fui diagnosticada com lúpus. A minha mãe sofreu um aborto muito público. Por isso tive de cancelar a minha digressão. Precisava de tempo simplesmente para estar OK”, explicou em entrevista à revista “GQ”.

Em agosto desse ano, voltou a abordar o assunto, desta vez numa entrevista com a “US Weekly”. “Como muitos de vocês sabem, há cerca de um ano revelei que tenho lúpus, uma doença que pode afetar as pessoas de várias maneiras. Descobri que a ansiedade, ataques de pânico e depressão podem ser efeitos secundários da lúpus, e acarretam os seus próprios desafios.” Só voltaria aos palcos um pouco mais tarde, em novembro de 2016, sendo que foi deixando aos fãs algumas declarações públicas sobre o facto de continuar no processo de tentar melhorar a sua saúde mental — explicando que estava a “lutar a luta de ‘não se sentir o suficiente’”, como descreveu numa mensagem partilhada no Dia de Ação de Graças.

Desde que começou a sofrer com estes problemas que Selena Gomez usou a sua voz para sensibilizar o público para estas questões, tentando ajudar tantos outros que sofrem dos mesmos problemas mas que têm mais dificuldades em lidar com eles. Foi promovendo alguns projetos nesta área e foi mesmo uma das grandes impulsionadoras da série “Por Treze Razões”, da Netflix, que aborda muito o tema da saúde mental num contexto de ensino secundário.

Em março de 2017, numa entrevista com a “Vogue”, admitiu sentir-se “muito solitária” em digressão. “A minha auto-estima estava em baixo. Estava deprimida, ansiosa. Comecei a ter ataques de pânico antes de subir ao palco, ou imediatamente depois de sair do palco. Basicamente sentia que não era boa o suficiente, que não era capaz. Senti que não estava a dar nada aos meus fãs, e que eles o podiam ver — o que acredito que tenha sido uma distorção completa. Mas estava habituada a atuar para miúdos”, explica, sobre o processo de o seu público também ter envelhecido e mudado, e de como isso pode ter alterado as coisas.

“Nos concertos costumava fazer o público inteiro levantar os mindinhos para fazerem uma promessa de que nunca iam deixar que ninguém os fizesse sentir que não eram bons o suficiente. De repente tenho miúdos a fumar e a beber nos meus concertos, pessoas com 20 ou 30 anos, estou a olhar nos olhos deles e não sei o que dizer. Não posso dizer: ‘vamos prometer que vocês são lindos!’ Não funciona dessa forma. E sei-o porque estou a lidar com as mesmas merdas com que eles estão a lidar.”

Muitas vezes foi fazendo pausas das redes sociais, ou optou por não falar do assunto durante largos meses. Mas também foi partilhando, aos poucos, os progressos que foi fazendo. Em janeiro de 2019, refletiu sobre o ano que havia passado no Instagram. “Foi definitivamente um ano de auto-reflexão, de desafios e crescimento. São sempre estes desafios que te fazem quem és e aquilo que és capaz de ultrapassar. Confiem em mim, não é fácil, mas estou orgulhosa da pessoa em que me estou a tornar.” No mesmo mês, cantou sobre a sua ansiedade em “Anxiety”, um tema com Julia Michaels.

Foi também partilhando que os profissionais que a acompanham foram essenciais para os progressos que foi fazendo — e que a medicação receitada também foi fulcral. “Descobri que sofro de problemas de saúde mental. E isso foi um alívio. Porque percebi que assim conseguia encontrar ajuda e pessoas em quem confiar. Comecei a tomar a medicação certa e a minha vida mudou por completo”, partilhou com a “WSJ Magazine” em janeiro de 2020.

Poucos meses depois, em abril, Selena Gomez revelou numa conversa no Instagram com Miley Cyrus que também sofre de transtorno bipolar. “Recentemente fui a um dos melhores hospitais do mundo relacionados com saúde mental, e apercebi-me de que, depois de anos a passar por várias coisas diferentes, sou bipolar”, partilhou. “E quando tenho mais informação, ajuda-me, não me assusta.”

Já em 2021, através da sua marca Rare Beauty, anunciou uma campanha para “apoiar a educação sobre saúde mental, dar poder à comunidade e encorajar apoio financeiro para mais serviços de saúde mental em contextos educativos”. 

“Sei em primeira mão o quão assustador e solitário pode ser enfrentar a ansiedade e a depressão numa jovem idade. Se tivesse sabido da minha saúde mental desde cedo — ser ensinada sobre a minha condição na escola da mesma forma que fui ensinada sobre outros assuntos — a minha jornada poderia ter sido bastante diferente. O mundo precisa de saber que a saúde mental importa. É tão importante como a saúde física, e desejo que todos pudéssemos reconhecer isso, não apenas por palavras, mas através das nossas ações”, disse na altura a artista.

No mesmo ano refletiu sobre aquilo por que tinha passado nos últimos anos, em conversa com a “Elle”. “A minha lúpus, o meu transplante de rim, a minha quimioterapia, ter doenças mentais, atravessar desgostos amorosos muito públicos — isto são tudo coisas que, honestamente, me deveriam ter levado abaixo. Sempre que passava por algo, estava do género: ‘O que mais? Com o que é que vou ter de lidar mais?’.” Mas dizia a si mesma: “vais ajudar pessoas”. “Isso foi o que me levou a continuar. Poderia ter havido uma altura em que não tinha força suficiente e poderia ter feito algo para me magoar a mim mesma.”

Em dezembro de 2021, explicou no Instagram que por vezes o que a ajuda, naqueles dias mais difíceis em que nem tem vontade de sair da cama, é ligar imediatamente a alguém para falar um pouco com essa pessoa. Mas também recomendou aos seguidores a prática de exercício físico. “Odeio treinar, não é divertido, mas tenho feito aulas de boxe intensas e tem-me ajudado a expulsar muitas frustrações e energia.” Também deixa notas escritas, que espalha pela sua casa, com afirmações positivas — para que mais tarde as encontre de forma espontânea e seja a recetora da mensagem.

Agora, toda esta jornada culmina no documentário “My Mind & Me” — o que não é surpreendente, visto que o tema da saúde mental tem sido tão determinante na vida e carreira de Selena Gomez ao longo dos últimos anos. 

“Trabalhei toda a minha vida, desde que era uma pequena criança. Nunca quis ser incrivelmente conhecida. Mas estou consciente de que, se estou aqui, tenho de o aproveitar e dar-lhe bom uso”, resume no seu documentário.

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