Certo dia, um imigrante sul-coreano abriu um mapa dos Estados Unidos da América e disse: “Onde o meu cuspo cair é para onde nos vamos mudar”. A saliva atingiu o Michigan, e foi para aí que se mudaram. Foi graças a esta decisão aleatória que Steven Yeun, ator que se deu a conhecer ao mundo com “The Walking Dead”, cresceu em Detroit. Hoje, é um dos protagonistas de “Beef”, a nova série da Netflix, que já está a ser considerada uma das melhores do ano.
Yeun interpreta Danny, um homem modesto, trabalhador incansável, que subsiste à conta de biscates e tenta ajudar os pais — imigrantes sul-coreanos — enquanto lida com um primo ex-presidiário volátil e procura alguma paz na sua igreja. Nesta história, um momento de raiva em contexto de estrada vai fazê-lo chocar com Amy (Ali Wong), de classe social superior. Ao longo de 10 episódios, tanto cómicos quanto dramáticos, “Beef” retrata a angústia, a sensação de vazio e até o sentido da vida de duas pessoas aparentemente diferentes mas que têm mais em comum do que julgam.
Aos 39 anos, Steven Yeun continua a trilhar uma carreira de sucesso. Nascido Yeun Sang-yeop em Seul, a capital da Coreia do Sul, filho de um arquiteto, a família mudou-se para o Canadá quando ele tinha apenas cinco anos, em 1988. Numa viagem de trabalho ao Minnesota, o pai tinha-se deslumbrado com a beleza natural da região. Acabaram por aceitar a proposta de um programa governamental canadiano que apelava aos sul-coreanos que se mudassem para o país. Viveram alguns anos na cidade de Regina até se mudarem para Detroit, no Michigan, do outro lado da fronteira, onde já morava o tio de Yeun — o tal imigrante que escolheu o seu local de residência, onde montaria um negócio, a partir de uma cuspidela num mapa. Foi o sobrinho quem contou a história ao “The New York Times”.
Os Yeun instalaram-se num bairro com problemas sociais, elevados índices de criminalidade, onde abriram uma loja de produtos de beleza a pensar na comunidade afro-americana local. Como relatou em diversas entrevistas, Yeun Sang-yeop — que passou a ser chamado de Steven, pela família, inspirados por um médico que conheceram — vivia numa certa dualidade ao longo da sua infância e juventude.
Na escola, era calmo, sossegado, calado, tímido. Na igreja católica próxima da comunidade sul-coreana que frequentava com a família, e também em casa, era mais confiante e sentia que podia ser ele próprio. A adaptação aos EUA, sobretudo por ser visto como diferente, não foi fácil — mas Yeun levou sempre uma vida pacata e banal, não havendo propriamente nada que previsse que se tornaria uma estrela de Hollywood.
Em 2005, licenciou-se pela universidade de Kalamazoo em Psicologia. Os pais queriam que Steven se tornasse médico ou advogado, mas foi precisamente nessa altura que começou a interessar-se pela arte da representação. Foi na faculdade que conheceu a irmã do comediante Jordan Klepper. Levou-o a ver o seu espetáculo de improviso. Terá sido um gatilho fulcral para que Steven quisesse experimentar o ofício de ator — sobretudo numa vertente de comédia.
Não demorou a juntar-se ao emblemático coletivo de improviso de Chicago The Second City, por onde passaram nomes como Bill Murray, Dan Aykroyd, Tina Fey ou Amy Poehler. Porém, graças às “limitações de não ser a pessoa mais engraçada da sala”, como descreveria ao “The Guardian”, acabou por se mudar para Los Angeles para apostar numa carreira mais dramática.
Lá esteve cinco meses a participar em castings até conseguir ficar com o papel de Glenn Rhee em “The Walking Dead”. Foi o seu jackpot. Quando a série estreou, em 2010, Steven Yeun passou de um completo anónimo para um ator conhecido por milhões de pessoas.
Foi uma das séries mais vistas da década e, ao longo das sete temporadas em que participou, o ator foi cimentando o seu estatuto — tornando-se até num certo sex symbol, sobretudo quando Glenn desenvolveu uma relação com Maggie, tornando Yeun num dos primeiros atores asiáticos a interpretar um homem numa produção mainstream que tinha uma relação com uma mulher branca. Teve também direito a uma morte icónica em “The Walking Dead”: o rapaz simpático foi destruído, de forma brutal, pelo vilão Negan.
Desde então, Steven Yeun não tem parado. Pelo contrário, foi requisitado para papéis em projetos originais e de vários géneros. Participou no filme ecológico “Okja”, de Bong Joon Ho (o criador de “Parasitas”) mas também na comédia anticapitalista “Sorry to Bother You”. Fez ainda o thriller “Burning”, de Lee Chang-dong; ou “Nope”, de Jordan Peele. E, claro, foi um dos protagonistas de “Minari” — um drama aclamado sobre uma família sul-coreana imigrante nos EUA, que valeu a Steven Yeun a nomeação para o Óscar de Melhor Ator. Foi o primeiro ator asiático a consegui-lo, mesmo que não tenha levado a estatueta dourada para casa. Agora, com “Beef”, Yeun torna-se cada vez mais um nome a ter em conta, um ator de peso nesta era da indústria de Hollywood.
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