Teatro e exposições

“Descobrir Portugal é uma experiência horrível porque já não quero voltar para casa”

A NiT entrevistou o humorista brasileiro Fábio Porchat, do Porta dos Fundos, que está a apresentar um novo espetáculo por cá.
O humorista tem 38 anos.

Fábio Porchat está encantado com Portugal. Pela primeira vez, o humorista brasileiro do coletivo Porta dos Fundos tem oportunidade para conhecer o nosso País além de Lisboa e Porto. Desde novembro que tem estado por cá a preparar um documentário para a RTP, refazendo os passos de José Saramago no livro “Viagem a Portugal”.

A produção de seis episódios, que continua a ser gravada, deverá estrear em outubro. Além disso, Porchat aproveitou para estrear nas salas nacionais o seu novo espetáculo de stand-up comedy, que se chama simplesmente “O Novo Stand Up de Fábio Porchat”.

No sábado, 5 de fevereiro, aconteceu a estreia na Super Bock Arena – Pavilhão Rosa Mota, no Porto. A tour continua por Coimbra (12 de fevereiro, Convento de São Francisco), Aveiro (13 de fevereiro, Teatro Aveirense), Albufeira (16 de fevereiro, Palácio de Congressos do Algarve) e Lisboa (18 de fevereiro, Campo Pequeno). Ainda há bilhetes disponíveis online.

Leia a entrevista da NiT com Fábio Porchat sobre o espetáculo e o documentário.

Para quem conhece o seu percurso enquanto humorista, mas não sabe como será o seu novo espetáculo, como é o descreveria?
Sempre que faço um espetáculo de stand-up gosto de contar as minhas experiências. Neste acabei por juntar as que vivi nas minhas viagens: de lugares a que fui, das maluquices que aconteceram comigo, coisas às vezes tensas, engraçadas, atabalhoadas. Falo desde um safari em África até a uma massagem na Índia. Tudo aquilo aconteceu comigo. É claro que relato tudo com um olhar bem-humorado, recorrendo a uma lupa cómica. A ideia é que as pessoas que vão assistir riam, talvez a pensar “ainda bem que não fui eu”.

Conta histórias passadas em Portugal?
Algumas. Começo por falar de Portugal, da minha relação com o País e situações que me aconteceram por aqui.

Quando é que começou a preparar este espetáculo e como surgiu a ideia de colecionar estas histórias?
Decidi que em 2022 ia voltar a fazer stand-up. Parei de fazer em 2017 e comecei a escrever este texto mais ou menos a meio do ano passado. Eram histórias separadas que fui tentando juntar para ver como encaixavam. E também porque, apesar de a pandemia ainda não ter terminado, pelo menos agora estamos vacinados. Foram dois anos muito difíceis, especialmente no Brasil, onde perdemos muita gente. Lutamos contra um presidente muito duro. Pensei que talvez fosse um bom ano para fazer rir as pessoas, para que se possam reencontrar e rir. E para poderem esquecer durante um bocadinho, nem que seja durante uma hora, a maluquice que está o mundo aqui fora.

O riso e o humor fazem mais falta nestas alturas.
Pois é, a gente percebeu muito isso durante a pandemia. Como a gente precisa de conteúdos, de produtos culturais, como é importante ter quem nos entretenha. Com toda a gente em casa, e meio desesperada, com muita vontade de estar a ver, a assistir e a consumir. Este é um bom momento para fazer stand-up. Vou estrear no Brasil em abril e como estou aqui — vim em novembro e agora em fevereiro gravar o documentário para a RTP “Viagem a Portugal” — pensei: porque não fazer uma tournée por Portugal? Afinal de contas, já me tinha apresentado em Lisboa e no Porto, mas nunca andei por aí. 

E assim também pode conhecer outras regiões de Portugal e, talvez, até colecionar mais algumas histórias de viagens.
É exatamente isso [risos].

A ideia de juntar histórias de viagens surgiu por acaso?
Fui pensando em histórias divertidas e experiências boas para um texto de stand-up. Comecei por escrever separadamente, sem nenhuma ligação, e fui-me dando conta que todas as histórias tinham, de alguma forma, a ver com viagens. Então, pronto, no fim das contas havia um tema central e isso é ótimo. Claro que estou livre para falar do que quiser: vou falar do meu ódio às etiquetas de roupa. Mas, de um modo geral, as viagens acabam por gerar sempre algum conteúdo.

E que documentário vai ser esse que está a preparar para a RTP?
Comecei em Miranda do Douro em novembro. Passámos 25 dias a viajar por Portugal, e agora voltei para terminar. São seis episódios que vão para o ar na RTP a partir de outubro. É um por semana, episódios de uma hora. A ideia é refazer os passos de Saramago, que estão no livro “Viagem a Portugal”. Tentando ir ao máximo de sítios e vivenciar os locais, entender que Portugal é este, o que é que mudou em 40 e poucos anos? Que lugar era aquele que Saramago visitou e como está agora? Encontrei-me com algumas pessoas que se encontraram com Saramago, comi nos mesmos restaurantes, pedi o mesmo prato, bebi o mesmo vinho… Fui a lugares onde ele pisou. Estamos a tentar ir a todos estes sítios e entender o que têm de especial ou curioso. Até fui à Nazaré surfar, mas claro que Saramago não surfou [risos]. Fui fazer o que os nazarenos fazem hoje em dia. É lógico que tem humor, mas não é um programa de comédia. É uma grande viagem de descoberta desse Portugal, tão grande e completo.

Como tem sido descobrir mais sobre Portugal e refazer os passos de Saramago?
É uma experiência horrível porque já não quero voltar para casa [risos]. Quero ficar. Os brasileiros todos que estão a vir para aqui como se estivessem a fugir de uma praga do Egito, no fim das contas, estão a fugir da violência. Mas quando conheces o País de verdade, os lugares, e paras de dizer “Portugal é incrível porque a comida é boa e não tem violência”… Sim, isso é uma maravilha, mas em Itália ou França também encontras essas coisas. O tem Portugal a mais? Nestas viagens é que fui descobrindo. Vou entendendo melhor o povo português, que é recetivo, carinhoso, amável. As cidades têm a sua beleza muito específica. A história que cada pessoa tem dentro de si aqui em Portugal. Fui descobrindo um lugar realmente mágico para se viver.

Houve alguma coisa específica que mais o tenha surpreendido até agora?
Muitas coisas — e de que nunca tinha ouvido falar. Como a Mata do Buçaco. Nunca tinha ouvido falar, mas cheguei lá e fiquei encantadíssimo. Almeida? Nunca tinha ouvido falar. As pedras em Monsanto são uma loucura. A Aldeia de Romeu, que hoje tem 14 habitantes… Podia estar aqui a falar uma hora inteira sobre todos os lugares de Portugal que me encantaram. Porque são muitos cantos e recantos encantadores. 

Com todos esses motivos para querer viver em Portugal, também gostava de se mudar um dia?
Antes de Portugal virar modinha entre os brasileiros, já dizia que queria vir morar para aqui. Ainda tenho esse sonho e vontade, mas penso que acontecerá lá mais para a frente. Ainda preciso de ter filhos, de me estabelecer um pouco mais, crescer mais no Brasil. Mas tenho muita vontade até porque tenho trabalho aqui. Não só no teatro, mas também na televisão. Por isso, sim, penso muito em vir para cá. Não quero ser só mais um que vem para cá — quero trazer a Portugal algum tipo de benefício.

Foram partilhadas algumas imagens do Fábio com o ator português Tiago Castro. Fez parte das gravações do documentário?
Sim, temos tido participações especiais, desde jornalistas a cantores, passando por comediantes. Temo-nos encontrado, às vezes a falar, outras a fazer cenas. Com ele foi uma cena muito divertida [risos].

Sente que fazer stand-up para o público português é diferente de o fazer para o público brasileiro?
Pensava que sim, antes de o fazer pela primeira vez. Pensava que a cultura era totalmente outra, a realidade é totalmente diferente, por isso provavelmente as piadas iriam surtir efeitos diversos. Fiquei muito feliz de saber que o público português me recebeu muito bem, também por conta do Porta dos Fundos. Por isso, fazer um espetáculo aqui não me assusta por conta do público. Assusta-me por ser um espetáculo novo, que nunca fiz e vai ser a primeira vez. Mas sinto que não havia lugar melhor para estrear do que em Portugal. Vou estar no melhor dos mundos.

E nunca testou as piadas que fazem parte do espetáculo?
Algumas delas vão ser uma estreia absoluta. Faço nos clubes, vou testando em pequenos espaços, e entre amigos — vou contando, fingindo que é uma história normal, e vou sentindo a recetividade dos comentários. Algumas delas funcionaram na mesa de bar, resta saber se vão funcionar para 4.800 pessoas no Porto, onde vou começar a tournée [risos].

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