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Diogo Amaral: “Aceitei este projeto sem ler nada. Ri-me muito durante as gravações”

A NiT entrevistou o ator de 39 anos sobre os novos projetos: a série “Pôr do Sol” e o filme “O Pai Tirano”.
Diogo Amaral é um dos protagonistas.

“Terra Brava”, “Vidas Opostas”, “A Impostora”, “Jardins Proibidos”, “Belmonte”, “Doce Tentação”, “Espírito Indomável”, “Sentimentos”, “Olhos nos Olhos” ou “Floribella” — enfim, a lista é grande. Diogo Amaral já fez muitas novelas, ao longo dos seus quase 20 anos de carreira, mas nenhuma como “Pôr do Sol”.

A produção da RTP1 estreou a 16 de agosto. É apresentada pela estação pública como uma “mini novela” de 16 episódios, mas na verdade trata-se de uma grande sátira ao formato convencional das telenovelas, que têm uma grande tradição em Portugal.

Diogo Amaral interpreta um dos protagonistas, Lourenço. Ele é o filho de um homem que sempre foi empregado de uma família rica. Lourenço cresceu com a filha da família, Matilde, e acabaram por se apaixonar, numa paixão que ultrapassa classes sociais e com laivos de amor proibido. Contudo, acaba por haver uma suspeita de que eles talvez sejam irmãos. E a protagonista tem uma gémea má secreta que também vai aparecer na narrativa. Se parecem clichés a mais, é porque o objetivo foi mesmo esse.

Leia a entrevista da NiT com Diogo Amaral sobre “Pôr do Sol”, mas também acerca do remake do filme clássico “O Pai Tirano”.

De que é que gostou mais em “Pôr do Sol” e neste papel, quando lhe foi apresentado pela primeira vez?
Eu aceitei este projeto sem ler nada, porque me caiu assim de pára-quedas. Sou amigo do Manuel Pureza, o realizador e produtor, e há algum tempo que falávamos, “quando é que trabalhamos ou fazemos alguma coisa juntos?” E de repente há um dia em que o Manel me liga a propor-me isto e a dizer que me ia enviar guiões para eu ler. E eu disse: eu faço isso. E aceitei logo. As características deste projeto, de ser uma série que brinca com o enredo de uma novela, do que é o formato de uma novela, isso é arriscado, não é? Quando te dizem que é isso, pode ser muitas coisas. Neste caso eu gosto muito do Manel, daquilo que ele faz, e arrisquei e acho que me correu bem [risos]. Ri-me muito durante o processo, foi muito bom de fazer. 

Portanto, diria que é uma sátira ao formato das novelas, usando alguns dos clichés das histórias?
O texto e a realização brincam. O enredo é o de uma novela: uma família rica e uma pobre, o filho do caseiro apaixona-se pela filha do patrão, que entretanto se descobre que tem uma irmã gémea, e há uma suspeita de eu e ela sermos irmãos. Tem traições [risos], todas as coisas que uma novela tem. Só que…

Em 16 episódios.
E com muita parvoíce. A brincadeira está muito também no texto, há discussões profundíssimas em que nós não dizemos nada [risos], onde depois de repente se metem as cenas de sponsors, e essa sátira também está muito na forma exagerada da realização. Exageram as marcações, é assumidamente uma brincadeira. Estou muito curioso para ver a reação do público e acredito que vai haver pessoas que vão achar que é só uma novela [risos].

Uma novela mais curta.
E estranha [risos]. 

Para um ator como o Diogo, que obviamente já participou em muitas novelas, estar num projeto deste género é interessante? É quase um diálogo com produções em que pode ter participado?
Aqui a sátira está no texto e nas marcações. O desafio do meu trabalho é conseguir dizer aquelas coisas, conseguir manter a personagem, e fazer daquilo verdade. Sem fazer daquilo um sketch de comédia, uma parvoíce pegada de alguém que está a gozar assumidamente. Aquilo tem de ser feito a sério para depois poder ter, ou não, piada. Muitas vezes quando estou em novelas, acontece brincarmos: e se fizéssemos isto assim? E aqui tivemos essa possibilidade, de exagerar, de fazer quase tragédia grega. Eu sou protagonista, que tem o par romântico, e sou excessivamente sensível. Ele chora muito [risos]. Isto é quase um presente, poderes participar nisto. Foi mesmo muito divertido. Ríamo-nos tanto que às vezes era difícil gravar. Eu acho que nunca se fez isto e, sim, para mim interessa-me fazer coisas diferentes, arriscar, experimentar outros registos, cada vez mais.

Também esteve recentemente a gravar o remake de “O Pai Tirano”. Que papel é que faz neste filme?
Faço o Artur — as personagens são as mesmas do original. Sou o antagonista do filme. O Artur é muito rico, muito vaidoso, e acredita que com o dinheiro e a educação — e muita arrogância — consegue tudo o que quer. E, pronto, é um bocadinho a batalha… Ele está interessado na protagonista, e o Artur é o grande parvalhão da história. 

Como estava a dizer que as personagens são as mesmas do filme original, houve uma tentativa de, embora havendo uma adaptação, se fazer algo próximo?
É muito próximo, mas pessoalmente acho que um remake é fazer outra vez, é fazer uma coisa nova, e preocupei-me zero em ver o trabalho… Por acaso vi o filme, quando recebi o convite, foi a primeira reação. Mas acho que é impossível imitar aqueles atores ou sequer tentar fazer parecido.

É muito distante?
Muito distante e acho que não é nada. A proposta é exatamente essa: somos outros atores e é fazer uma coisa nova. O teatro repete-se tantas vezes, há tantas vezes que se pega em textos e faz-se e refaz-se e vamos ver outras encenações. Aqui acho que é uma lavagem, não me baseei nada no que foi feito. Construí a minha personagem e fiz, com todas as consequências que isso possa ou não ter. Mas acho que as pessoas vão ter muita curiosidade, o filme está incrível, está com uma fotografia incrível, os atores — do que eu vi — estão com interpretações excelentes, aquilo ultrapassou todas as minhas expetativas. Acho que vai ser mesmo uma coisa nova, embora havendo sempre uma grande referência, que o filme [original] é incrível. E em nenhum momento da rodagem me perguntaram “ah, lembras-te de como eles fizeram?”.

Mas acredita que é importante haver remakes destes clássicos do cinema português? Obviamente há muitas gerações, mais velhas e mais novas, que nunca viram “O Pai Tirano” original.
Eu acho interessante que se arrisque fazer coisas. E se neste caso havia esta vontade… É um bocado como no teatro, de eu gostar de fazer aquele texto. É pegar e fazer. É tão válido como fazeres um original. Aqui se calhar tens alguma garantia, de que aquilo resultou há uns anos. E vamos fazer isto à nossa maneira.

Estava a dizer que tentou construir a personagem por si, sem ter essa referência original muito presente. Houve algum tipo de preparação especial que tenha feito para o papel?
Assim de preparação especial, específica, que tenha a ver com algum skill, não houve. Preparei-me como costumo. Há todo um trabalho à volta do texto, de alguma fisicalidade, mas depois é sempre muito importante para mim ver a personagem montada, vestida. E o facto de ser um filme dos anos 40, toda aquela coisa da roupa, dos chapéus, havia todo um ritmo diferente de uma época. Mas também, quase a título de curiosidade, tentar descobrir como andar com a bengala… Fui investigar essas coisas, os maneirismos, os pormenores da época, o que é que um tipo com a mania fazia nesta altura? A minha personagem gostava de caçar e de se gabar, tudo nele é muito para ostentar. Quando chegas já causas uma impressão: tens o carro, o chapéu, a bengala, o casaco. Antes de abrires a boca já estás a contar muita história.

Há pouco estava a dizer que gostaria de explorar cada vez mais registos diferentes. Há algum tipo de papel, ou de projeto, que ainda não tenha feito mas que gostaria muito? Ou não pensa muito nisso?
Há tanta coisa que eu gostava de fazer. Há algumas que guardo secretamente para mim, tenho outras assim no campo da fantasia — estilo James Bond — e depois outras num plano mais real. Mas há tanta coisa. Estivemos a falar do “Pôr do Sol” e d’”O Pai Tirano”. São duas coisas tão diferentes e acabei o “Pôr do Sol” num dia e comecei “O Pai Tirano” no outro. É um privilégio poderes fazer estas coisas todas tão diferentes. Eu não gosto de dizer “sorte”, porque vamos trabalhando a nossa sorte e as coisas vão acontecendo, mas há muitas coisas que eu ainda gostava que acontecessem — e vão acontecer. 

Pessoalmente, gostaria de explorar mais o cinema nos próximos tempos? Obviamente, também depende dos projetos que vão aparecendo.
Se eu pudesse, só fazia cinema na minha vida. Eu sou ator porque sempre quis fazer cinema. Não estou com isto a dizer que não gosto de experimentar outras coisas, mas para mim o cinema é a arte dos pormenores. Tens o ecrã grande, um tremer de dedo conta uma história. Por isso, se eu pudesse, só fazia cinema.

Falta haver projetos suficientes em Portugal?
Estamos em Portugal e é o que é, é tranquilo. Mas enquanto ator há tantos caminhos e hoje em dia há tantas coisas e tantos formatos que podemos fazer. Até temos muito trabalho em Portugal, felizmente. 

O setor, para os atores, está num melhor momento agora do que, por exemplo, há dez anos?
Sei lá, acho que é diferente. Tenho de pensar onde é que eu estava há dez anos. Mas acho que estamos num momento melhor, sim. Agora se calhar é mais rico. Há mais coisas para fazer, tens a RTP, a Opto, e os próprios canais têm essa vontade de fazer formatos diferentes. E até no cinema acho que se tem procurado fazer mais coisas e diferentes, por isso acho que estamos num bom momento.

Já agora, viu algum filme ou série recentemente que queira recomendar, enquanto espectador?
Estou a ver agora uma coisa mas que acho que já toda a gente viu: “Mare of Easttown”, uma série da HBO. Recomendo, aquilo está incrível. Antes estive a ver uma mais levezinha, da Netflix, o “Lupin”. Mas também gostei. E ainda vi outra: “Sharp Objects”, também da HBO. Bom, perturbador. É o que tenho andado a ver.

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