Cinema

“Dune” é um dos melhores filmes do ano — e tem mesmo de ser visto no cinema

A obra de Denis Villeneuve recria um dos textos maiores da ficção científica. A produção estreou nas salas a 21 de outubro.
Timothée Chalamet e Rebecca Ferguson fazem dois ótimos papéis.

É um dos filmes mais esperados do ano. Falamos do novo “Dune”, realizado por Denis Villeneuve, que estreou nos cinemas a 21 de outubro. A história é a mesma do filme que David Lynch dirigiu em 1984 — ambas se  baseiam na obra homónima escrita por Frank Herbert. 

Comecemos por um aviso: não é necessário ter visto o filme dos anos 80, nem sequer ter lido o livro para apreciar esta produção. Mas o mais provável é que, nos primeiros minutos, seja difícil assimilar tanta informação.

As diferentes famílias que governam cada planeta, as ordens especiais e espécies que existem neste mundo compõem todo um universo a que somos apresentados de uma assentada. E, se não soubermos nada da narrativa, no início podemos ficar confusos. Aos poucos, o enredo vai entrando na mente dos espectadores, que se verão cada vez mais envolvidos.

A casa Atreides é uma das famílias nobres e poderosas, que reinam em Caladan. Eles são encarregues pelo Império de tomarem controlo de outro mundo, o árido e desértico Arrakis, onde se produz uma especiaria valiosa com propriedades especiais. Os Harkonnen, outra fação que até aqui governava Arrakis, abandonam o planeta — mas na verdade tudo se trata de uma conspiração orquestrada com o imperador.

No centro da narrativa está Paul Atreides (Timothée Chalamet), o filho do líder do clã, que perceberá que pode vir a ser o escolhido de que há muito se fala. O seu destino está ligado ao dos Fremen, a espécie nativa de Arrakis, habituados a viver no deserto e que estavam em conflito com os Harkonnen.

Apesar de terem sido introduzidas alterações que beneficiam esta versão, a linha narrativa é idêntica à do livro (e à do filme de Lynch). O “Dune” assinado por Villeneuve é espetacularmente consistente — e prepara-se para se afirmar nas salas como uma das mais célebres adaptações dentro no género da ficção científica.

Depois de realizar “Blade Runner 2049”, Villeneuve ficou com a responsabilidade de pegar noutra saga de culto — embora, neste caso, seja mais na literatura do que no cinema — e trazê-la para o cinema moderno. A missão está mais do que cumprida.

O novo “Dune” é um dos melhores blockbusters dos últimos anos. A escala do que aqui foi feito impõe respeito: os planos que captam enormes naves espaciais, os famosos vermes do deserto ou os cenários de cada planeta são absolutamente deslumbrantes. Além de a história ser envolvente e de os atores estarem a um excelente nível, é uma experiência visual que deve ser tida numa sala de cinema. A banda sonora composta por Hans Zimmer está ao mesmo nível e complementa na perfeição tudo aquilo que vemos.

O guião (assinado por Villeneuve, Jon Spaihts e Eric Roth) é incomparavelmente melhor em relação ao “Dune” de 1984, de David Lynch. Depois deste novo filme, não há nenhum motivo para algum dia alguém voltar a ver o antigo “Dune”, um filme que o próprio realizador detesta. Comparado com este, parece um telefilme amador em demasiados aspetos — que nada têm tem a ver com os efeitos especiais. O guião e a representação são provavelmente os dois maiores pontos fracos dessa primeira adaptação.

O novo “Dune” é um filme que se leva bastante a sério — e só assim a história de fantasia ganha espessura. Além de ser coeso, não há falhas lógicas de narrativa e tudo parece fluído e natural.

O elenco, que é de luxo, está magistral. Oscar Isaac é o honrado duque Leto Atreides; Jason Momoa interpreta o leal e caloroso Duncan Idaho, soldado especial ao serviço dos Atreides; Josh Brolin é uma espécie de mestre de armas da mesma família; Javier Bardem faz de Stilgar, líder dos Fremen; Stellan Skarsgård é Baron, o sinistro líder dos Harkonnen; e Rebecca Ferguson dá toda a sensibilidade necessária ao complexo papel de Jessica Atreides, mãe de Paul e mulher de Leto.

Timothée Chalamet é, claro, o grande protagonista ao interpretar a personagem que nos guia pelo enredo. O ator de 25 anos está ao mais alto nível e acerta em tudo o que faz, o que não é tarefa fácil. Aqui volta a exibir o seu talento e a provar por que é um dos melhores atores da sua geração. 

O grupo tem também outros atores de excelência que fazem pequenos papéis, desde Charlotte Rampling a David Dastmalchian, passando por Dave Bautista. O cantor Benjamin Clementine aqui se estreia como ator. E Zendaya, que aparece pouco neste primeiro filme, será uma das estrelas da sequela anunciada de “Dune” que Villeneuve há-de realizar. Mas isso vai depender do número de espectadores que este filme conseguir atrair às salas. E só para deixar registado: depois disto, será um crime colocar um ponto final nesta história. Falando em finais, fique com este mini spoiler: este “Dune” termina mais cedo do que o livro e o filme de 1984.

Se há imperfeições? Sim, claro que também existem. Aposta-se demasiado no show-off de grande escala quando deveria haver um pouco mais de tempo para as personagens alterarem as suas intenções ou estados de espírito de forma mais natural. Ainda assim, “Dune” é uma epopeia que merece ser vista por todos os fãs de universos de fantasia. 

Na última década Denis Villeneuve tem-se afirmado como um realizador de topo. Depois do incrível drama “Incendies”, dos tensos “Raptadas” e “O Homem Duplicado”, do filme de ação “Sicário – Infiltrado”, e da ficção científica de “O Primeiro Encontro” e “Blade Runner 2049”, o realizador canadiano está a impôr-se como um valor seguro — e merecia ser mais reconhecido junto do grande público.

Carregue na galeria para conhecer outros dos principais filmes que vão estrear até ao final do ano.

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