Televisão

Especialista revela como faz os matches de “O Amor Acontece”

A NiT falou com Alexandre Machado, neuropsicólogo que se tornou conhecido em “Casados à Primeira Vista”, e que faz parte do novo programa da TVI.
Os primeiros quatro casais já foram apresentados.

“O Amor Acontece”, o novo programa de relações amorosas da TVI, estreou no domingo, 4 de julho. O formato apresentado por Maria Cerqueira Gomes e Pedro Teixeira tornou-se imediatamente líder de audiências, mas não foi explicado como é que são feitos os pares de concorrentes.

Tal como aconteceu noutros programas dos últimos anos na televisão portuguesa, duas pessoas que não se conhecem são unidas como casal, tendo em conta as suas características e o grau de compatibilidade. A ideia é que vivam juntas, numa das quatro casas do programa, no máximo de uma semana. No domingo seguinte após serem apresentados, os pares escolhem se querem continuar a relação fora da televisão ou se a história fica por ali.

Na segunda-feira, dia 5, foi revelado que o neuropsicólogo Alexandre Machado é o principal responsável pelos matches. O especialista tornou-se mais conhecido depois de ter sido um dos psicólogos de “Casados à Primeira Vista”, que estreou na SIC em 2018 e que deu origem a uma nova tendência na televisão portuguesa.

Em entrevista com a NiT, Alexandre Machado revela que começou este processo há cerca de dois meses. Passa dias inteiros a entrevistar candidatos e a tentar perceber com quem poderiam ficar neste programa. Além disso, diz que está disponível para fazer acompanhamento ou ter alguma intervenção, se necessário. “Eles sabem que eu estou lá. Ainda ninguém precisou, mas se precisarem, eu estou lá.”

Os testes continuam neste momento para se admitir mais participantes no programa — no total são muitos concorrentes, já que todas as semanas são apresentados quatro novos casais. Alexandre Machado também vai ser comentador residente do programa matinal “Dois às 10”, às segundas-feiras, para comentar os episódios de domingo. Leia a entrevista da NiT.

Foi convidado para formar os pares em “O Amor Acontece”? Como é que funcionou esse processo?
Sim, a minha profissão também é esta. Sou psicólogo, especialista em avaliação do comportamento e da personalidade, e naturalmente convidaram-me, pela experiência que já tenho neste tipo de programas. Convidaram-me para fazer estas avaliações, desta parte comportamental, e para fazer os matches.

Como é que funciona? Tem acesso ao perfil dos participantes e tenta identificar pontes entre duas pessoas?
Sim, é importante realçar que o que se faz nestes métodos não é arranjar o par perfeito. Essa parte é a parte da experiência pessoal, da consciência da pessoa. Eu crio é pontes em comum, tentar que as pessoas estejam no mesmo momento de vida, que essas coisas estejam ao mesmo nível, para depois que a experiência aconteça de forma a que aquela parte não seja um entrave. Agora, obviamente, você pode conhecer alguém que acha muito engraçado, a pessoa diz-lhe uma palavra qualquer de que não gosta ou que lhe faz lembrar alguém, e vai tudo por água abaixo. Começa logo a catalogar a pessoa num sítio. E basicamente temos uma equipa que faz a recolha da parte sociodemográfica – daquilo que é a informação da história de vida — e depois, com isso mais a análise que faço, são feitos os pares.

A análise que o Alexandre faz baseia-se nos questionários que os participantes preenchem?
Não, não. Os questionários servem para recolher informação sociodemográfica de história de vida. “Sou do Benfica, sou do Sporting, gosto daquilo, os meus hobbies são estes”. Eu faço é uma avaliação, que já tem a ver com outros fatores — de identidade, auto-conceito, aquilo que a pessoa acha dela. Tem uma série de outras dimensões que me conseguem fazer ver em que ponto da vida é que aquela pessoa está. 

E esses dados são recolhidos diretamente pelo Alexandre?
Sim, através de entrevistas e avaliação mesmo propriamente dita. Há pessoas que até ligamos a um aparelho neurofisiológico, para tentar ter um registo, o biofeedback de aquilo que é a atividade do corpo. Varia muito consoante o tipo de pessoa que é e daquilo que a gente quer obter. 

Alexandre Machado foi especialista de “Casados à Primeira Vista”.

Quantos candidatos é que passaram pelo Alexandre?
Já lhes perdi a conta, mas foram centenas. Já estou naquela fase em que… foi muita gente, muitos inscritos. E há uma equipa antes de mim, que filtra. Quando chegam a mim já chegam aqueles escolhidos pela equipa, sobre se são “televisionáveis” ou não, são critérios que eu não tenho em consideração. Quando chegam a mim são aqueles que eles querem que entrem. Há muitos que não entram porque não são compatíveis com este tipo de programas, porque o programa lhes vai fazer mais mal do que bem — nós também temos isso em consideração, porque a nossa preocupação número um é a saúde mental das pessoas, saber se estão preparadas para um programa deste género. Não tem nada de mal para a maior parte de nós, mas a pessoa tem de estar preparada, bem resolvida, pronta para a aventura, perceber o que isto é, que lhe vão arranjar um par, que em várias dimensões é compatível, para que ela possa experienciar na sua consciência aquilo que é a outra pessoa. Agora, os mecanismos de defesa dela, as barreiras, os medos, isso é o trabalho da pessoa.

Nestes programas há sempre candidatos que pedem pares com certas características, sobretudo físicas, que possam não ser consideradas determinantes. Por exemplo, no primeiro programa uma das raparigas mais jovens tinha pedido um rapaz um pouco mais alto do que aquele a que teve direito. Mas o que interessa mais são outros elementos, é isso?
Sim, as pessoas naturalmente põem barreiras, e as pessoas mais jovens têm alguns estereótipos socioculturais. Mas depois a outra pessoa tem de ter aquela capacidade de superar. Uma pessoa ser mais alta ou mais baixa acaba por ser irrelevante se o caráter for bom. O Napoleão, que tinha para aí um metro e sessenta, é que dizia: se não chegar eu, chega a minha espada [risos]. Portanto, isto tem a ver com a atitude que ele tem em relação àquilo que a natureza lhe deu. Isso é o desafio da pessoa que é baixa e o desafio da outra pessoa que está a limitar conhecer um ser humano por causa de uma característica física.

Mas o Alexandre tem isso em conta, esse tipo de características físicas, quando estabelece os matches?
A gente acaba por dar, como é óbvio… “Eu gosto de homens com um metro e 86”. Isso assim é uma coisa muito específica, não temos isso em consideração. “Eu gosto de homens que penteiam o cabelo para o lado direito”. Há coisas que acabam por ser ridículas, não podemos ter em consideração. Mas aquilo que é o normal… Por exemplo, as pessoas que não gostam de carecas com certeza que não vão estar com uma pessoa careca na experiência. Há coisas que obviamente respeitamos mas há outras… Há coisas que percebemos que são mecanismos de defesa até, para às vezes justificarem a dificuldade que a pessoa tem em se abrir com outra pessoa. “Estão a ver, ele falhou só porque tinha menos dois centímetros”. Embora esse não seja o objetivo do programa, é bom que a pessoa tenha alguns desafios, também.

O Alexandre já tinha alguma saudade em participar neste tipo de programas? É algo que lhe interessa profissionalmente, continuar a fazer?
Eu sou um profissional, eu trabalho nisto… Se me disserem que tenho de ir ao hospital X tratar pessoas, vou lá, se for o Y é o Y. Onde contratarem os meus serviços… é o que faço profissionalmente.

Mas suponho que seja diferente trabalhar num programa de televisão, ainda que nos bastidores, e fazer consultas.
Os métodos de avaliação podem ser diferentes, mas o empenho é o mesmo. Mas não tenho assim nenhuma predileção [pela televisão], sinceramente. Gosto, acho piada, mais naqueles programas que dá para passar uma mensagem positiva às pessoas. 

E além disso o Alexandre vai estar a comentar às segundas-feiras, no “Dois às 10”, os novos participantes e a conclusão das histórias.
Sim, é no dia a seguir aos programas de domingo, com o Cláudio [Ramos] e a Maria [Botelho Moniz], a tentar explicar, a dar sentido e a responder aos porquês de porque é que estas coisas acontecem. As pessoas têm dúvidas, têm questões: porque é que ele disse isto, porque é que fez aquilo, como é que devo interpretar isto? De alguma forma esclarecer, apanhar as histórias que começam e as que acabam.

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