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“Euphoria”: a série viciante (e chocante) da HBO é inspirada numa história real

O criador do projeto foi um toxicodependente durante a adolescência. Esta produção tem um enredo repleto de sexo e drogas.
Jules e Rue são duas das protagonistas.

“Euphoria” estreou na HBO Portugal a 17 de junho — e quem viu o primeiro episódio percebeu logo que estava ali uma série que poderia chocar muita gente, tendo em conta a quantidade de drogas e sexo (e a leviandade com que os temas são tratados) nesta história adolescente.

O enredo acompanha Rue Bennett (Zendaya), uma rapariga de 17 anos que é viciada em drogas e acaba de sair da reabilitação — apesar de não ter servido para nada, já que a primeira coisa que faz quando regressa a casa é encontrar-se com o seu amigo e dealer habitual.

Entre os problemas de ansiedade e respiração, a relação difícil com a mãe e a irmã, os sentimentos em relação à morte do pai, a dificuldade de se ligar com certas pessoas (e o facto de muitas dessas pessoas serem idiotas), Rue parece estar um pouco perdida na vida. Mas parece também que as coisas vão mudar, sobretudo agora que conheceu Jules, uma rapariga que acaba de chegar à cidade e com quem ela se identifica. Mais tarde, descobrimos que Jules é transsexual.

Temas como a sexualidade, os problemas de identidade, as redes sociais, a crueldade típica da adolescência ou os preconceitos sociais são fortes nesta produção — que é bastante distinta das típicas séries leves adolescentes.

Apesar de se basear num projeto israelita, que se foca nos mesmos assuntos, a história também é inspirada na vida real do showrunner, produtor e argumentista da série, o americano Sam Levinson, filho do realizador Barry Levinson, que hoje tem 34 anos. Apesar disso, claro que houve uma adaptação à atualidade, em que os miúdos ouvem trap e fazem engates em apps de encontros. 

Durante grande parte da adolescência, Sam Levinson foi um toxicodependente — só conseguiu ficar limpo aos 19 anos.

“Passei a maioria dos meus anos de adolescência a entrar e a sair de hospitais, clínicas de reabilitação e instituições”, contou o produtor na estreia de “Euphoria”, citado pela revista “The Hollywood Reporter”.

“Eu era um toxicodependente, tomava tudo até que deixasse de ouvir, respirar ou sentir. Algures quando tinha 16 anos, aceitei a ideia de que as drogas me iriam matar, e que não havia razão para lutar contra isso. Iria simplesmente deixar que elas tomassem conta de mim e tinha feito as pazes com isso. Aos 19 já estava na reabilitação, estava a tentar deixar os opiáceos e a ir para uma droga mais produtiva, como as metanfetaminas.”

Foi na reabilitação — ansioso e a sofrer uma depressão — que começou a refletir sobre qual seria o seu legado se morresse naquela altura. “Era um mentiroso, um ladrão, um viciado, fui merdoso para quase todas as pessoas na minha vida que amo, e tive um momento em que pensei: não me sinto assim por dentro, acho que sou uma melhor pessoa que isso.” 

Sam Levinson percebeu que poderia ser a tal pessoa melhor se conseguisse deixar as drogas — e conseguiu. Há 14 anos que está limpo. Foi esta história “profundamente pessoal” que o levou a querer criar uma série como “Euphoria”.

Sam Levinson e Zendaya, que interpreta Rue.

“O que eu queria mesmo retratar era a dor e a vergonha que tens quando estás naquela situação e não te consegues tratar, apesar do caos e da destruição que estás a causar à tua volta e isso é uma coisa difícil para um ator conseguir transmitir.”

Levinson marcou uma reunião com a responsável pelas séries de drama na HBO, Francesca Orsi, para lhe perguntar o que pensava da produção israelita. Acabaram por conversar durante duas horas sobre a sua própria história. Depois de o ouvir, Orsi pediu-lhe para ir para casa escrever um guião.

“Simplesmente escrevi-me a mim mesmo. Escrevi-me a mim mesmo enquanto adolescente. Essas memórias e sentimentos são muito acessíveis para mim, por isso não foi difícil”, explicou Levinson a outra revista, a “Entertainment Weekly”.

As críticas sobre o facto de a série ser tão explícita começaram a acumular-se, por isso, a HBO já teve de defender o projeto em público. O diretor de programação, Casey Bloys, comentou o assunto com a “The Hollywood Reporter”: “Não é sensacionalista para ser sensacionalista. Pode parecer que está a ultrapassar os limites, e a ideia de ter isso na televisão pode-o ser, mas há pessoas que viveram isto.”

Ainda assim, a história foi suficientemente longe para que um dos atores tivesse desistido e abandonado a produção a meio das gravações do episódio piloto. Brian Bradley não quis continuar depois de ler guiões de cenas que sugeriam que a sua personagem fosse ter relações homossexuais.

O objetivo da produção era ter atores profissionais — mas também amadores, que pudessem dar uma frescura à história. “Encontrámos atores em centros comerciais do Ohio e da Florida e a ideia foi mais tentar encontrar o grupo certo de pessoas que conseguisse aguentar o material e trazer um espírito incontrolável e dar alguma vida à coisa”, disse Levinson à “Entertainment Weekly”.

A cena em que Jules pega numa faca de cozinha quando está a ser maltratada naquela festa numa casa — no primeiro episódio de “Euphoria” — é uma história real que se passou com o showrunner. “Eu era a pessoa que não queria ser espancada.”

Leia ainda a crítica da NiT ao episódio piloto da série da HBO.

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