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Festas com sexo e violência psicológica: revelados os podres de “America’s Next Top Model”

Novo documentário da Netflix revela que, nos bastidores da série sobre jovens que sonhavam ser modelos, o glamour era substituído pelo terror da produção.

“Estive apagada durante boa parte do tempo”, conta Shandi Sullivan, em lágrimas, recordando um dos momentos mais perturbadores que passou no reality show “America’s Next Top Model”, programa onde jovens ascendentes a modelos lutavam por uma oportunidade. Estreou nos Estados Unidos no início dos anos 2000, apresentado por Tyra Banks, e teve várias novas temporadas. O sucesso junto do público, na época, é proporcional à aversão com que a geração mais jovem vê hoje as falas, exigências e decisões da produção.

Mais de 20 anos depois, o programa é agora analisado no documentário “Reality Check: Inside America’s Next Top Model”, que chegou à Netflix esta segunda-feira, 16 de fevereiro. E está lá tudo: as polémicas à volta do conceito, os motivos por detrás das discussões, os limites ultrapassados e os traumas que deixou em jovens que só queriam entrar na indústria da moda.

A informação partilhada por Shandi Sullivan, ex-concorrente, refere-se ao que aconteceu após uma festa regada a álcool numa banheira de hidromassagem, com alguns modelos que o grupo conheceu num ensaio fotográfico em Milão, Itália. Shandi acabou por ter sexo com um deles no chuveiro e os dois acabaram por ir para a cama juntos, tudo isto acompanhados pela equipa de filmagem. 

“Só percebi vagamente que estava a ter relações sexuais e então desmaiei”, conta. A sequência exibida em “America’s Next Top Model” (ANTM) sugere que estava demasiado embriagada para consentir o que quer que fosse, porém, a produção não interveio e “filmou tudo”. 

Em 2026, estas imagens jamais chegariam aos olhos do público, mas naquela época “eram consideradas normais”. “E aquilo que o público viu não é nada comparado ao que foi filmado”, revela Ken Mok, produtor executivo. Uma afirmação arrepiante, mas alinhada com a lógica de que o que aconteceu nunca é referido explicitamente como agressão sexual. 

O pior? A vergonhosa defesa da decisão de “manter a câmera ligada”, não apenas durante o ato, mas também depois, enquanto Shandi ligava para o namorado em lágrimas. Olhando para trás, Mok admite, relutante, que “se calhar, aquele momento não deveria ter ido para o ar”. Mas logo a seguir acrescenta que “a equipa estava a filmar um documentário”, então sabia que não deveria interromper e que, além disso, “as concorrentes aceitaram ser filmadas 24 horas por dia”.

Na verdade, quem conhece o contrato que as aspirantes a modelos assinavam, revela que eram “apenas” 22 horas de filmagens por dia, com um “bónus”: todo o material captado poderia ser utilizado/editado como a produção bem entendesse. Na prática, isto significa que abdicavam de quaisquer direitos sobre as imagens e estavam legalmente impedidas de os reclamar.

 

As revelações da série documental, embora ofereçam uma visão crua sobre os bastidores do império de Tyra Banks, não contam a história toda. A lógica de “prestação de contas”, que é quase exigida à supermodelo para que se retrate da forma como as modelos eram tratadas na altura, funciona numa perspectiva de: “a intenção era boa, a concretização foi má”, que deixa muitas zonas cinzentas de fora.

Se o reality show original, que se prolongou por 24 temporadas, era sobre a ascensão ao glamour do mundo da moda, o “Reality Check”, dividido em três partes, é sobre a queda das máscaras. Com depoimentos de figuras centrais como Nigel Barker, Jay Manuel e J. Alexander, além de dezenas de ex-participantes, o documentário mostra que o “amor exigente” de Tyra Banks era, muitas vezes, apenas uma forma de conquistar audiência.

A antiga supermodelo apresenta-se como “uma pioneira que queria democratizar o acesso ao mundo da moda”, colocando mulheres negras, trans e plus size (ou seja, fora dos padrões de beleza da época) sob as luzes da ribalta, como aconteceu em algumas temporadas. No entanto, revela uma contradição profunda: embora tenha apresentado a ideia de diversidade, também continuou a manter os mesmos padrões contra os quais Banks aparentemente se insurgia.

Quando confrontada com decisões antiéticas de produção, Banks escusa-se a qualquer responsabilidade. “É um pouco difícil para mim falar sobre a edição porque esse não é o meu campo de atuação”, afirma a produtora-executiva do formato que tinha, sim, uma palavra a dizer sobre qualquer decisão tomada.

Porém, o programa, que se apresentava como disruptivo e um marco da diversidade, “precisava atingir as metas de audiência”. Ao responder às exigências cada vez mais dramáticas do público acabou por se transformar num caso de estudo sobre “a toxicidade sistémica”. 

As transgressões relatadas em “Reality Check” não estão todas no mesmo patamar de comportamento infame; vão desde comentários cruéis a situações arriscadas que colocam em causa a integridade física das concorrentes. Com muitos momentos humilhantes e traumáticos pelo meio.

Alguns dos casos problemáticos

A “bronca“ de Tyra Banks a Tiffany Richardson (na temporada 4, em 2005), discussão que acabou imortalizada em memes, é uma das poucas coisas que a apresentadora reconhece cabalmente ter sido um erro. “Perdi a cabeça”, diz, acrescentando que a sua reação foi o reflexo de “muitas outras coisas”, incluindo suas próprias frustrações face às  adversidades que enfrentou na indústria por ser uma mulher negra. “Muita coisa foi dita naquele dia”, afirma Jay Manuel, revelando que o que foi dito fora das câmeras foi muito pior e “nada engraçado”. 

Os casos problemáticos sucedem-se ao longo dos três episódios. Um dos mais irónicos foi pressão insistente de Banks sobre Dani Evans (temporada 6) para fechar o espaço entre os dentes (“diastema”), alegando “padrões da indústria”; sendo que numa temporada posterior encorajou uma concorrente branca a aumentar o seu.

No temporada 4, Keenyah Hill denunciou o comportamento inadequado de um modelo masculino, mas foi ignorada pela produção. Além disso, foi também repetidamente “aconselhada” a emagrecer — na altura pesava 56 quilos e era considerada “plus size”.

Dionne Walters, por outro lado, foi forçada a posar como vítima de um tiro na mesma semana em que revelou que a sua própria mãe havia sido baleada anos antes. Hoje, o produtor Ken Mok reconhece, no documentário, que foi um “erro”, mas a concorrente suspeita que a produção tenha usado essa revelação com o intuito de lhe provocar “um colapso mental de propósito para a câmera”. 

Ao longo dos anos, outras aspirantes a modelos também foram denunciando as condições impostas durante as filmagens, como a privação do sono e a falta de comida. Os problemas começavam antes do início das gravações, com a equipa a usar métodos poucos ortodoxos para recolher informações pessoais durante o processo de seleção, que mais tarde, acabavam por entrar no programa. Uma concorrente, por exemplo, afirmou sofrer de aracnofobia numa das entrevistas preliminares e, mais tarde, teve de participar numa produção fotográfica rodeada de aranhas.

Segundo os realizadores do documentário, Daniel Sivan e Mor Loushy, Tyra Banks e os restantes produtores aceitaram participar na produção sem ter “qualquer influência sobre a edição final do documentário ou sobre a direção editorial do projeto”. Porém, a motivação não terá sido apenas altruísta.

A rejeição da geração mais nova

Muitos afirmam que a supermodelo aceitou falar sobre o reality show, que no auge de sua popularidade atraiu mais de 100 milhões de telespectadores no mundo, para “limpar a sua imagem” junto da Geração Z.  

O antigo fenómeno de audiências encontrou uma nova vida no streaming durante a pandemia, quando os jovens maratonaram o programa e inundaram as redes sociais com comentários indignados. Os vídeos no YouTube e no TikTok sobre cenas “extremamente problemáticas”, que envolviam body shaming, racismo, desafios perigosos ou humilhantes, multiplicaram-se como cogumelos. 

Muitos desses clipes tornaram-se virais e Banks acabou por sair do seu silêncio ensurdecedor em maio de 2020, reconhecendo as críticas no Twitter. “Olhando para trás, algumas escolhas foram realmente questionáveis”, escreveu. “Agradeço o vosso feedback honesto e envio muito amor e abraços virtuais a todos.”

Além de estratégia de “controle de danos”, o documentário é apontado também como uma “plataforma de lançamento”. Uma teoria que parece não andar muito longe da verdade, sobretudo quando ouvimos Tyra Banks fazer uma revelação ambígua perto dos minutos finais: “vocês não têm ideia do que estamos a planear para a temporada 25 do ‘ANTM’”.

A grande questão que fica no ar é saber como será possível retomar um formato que continua a ser retratado como “um produto da sua época”, quando o “mundo dos reality shows ainda era muito selvagem e desregulado” e a saúde mental não passava de uma miragem.

Tyra Banks remata a sublinhar que o seu objetivo era impulsionar a mudança no mundo da moda e que as suas intenções eram boas. Provavelmente não conhece o célebre ditado “de boas intenções está o Inferno cheio”.

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