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Há várias séries portuguesas que podem chegar à Netflix: “O Chefe Jacob” é uma delas

Conta a história de um inspetor que investigava crimes na Lisboa do século XIX. Um dos guionistas compara-a com “O Alienista”.
Está a ser desenvolvida neste momento.

Foi em agosto do ano passado que foram revelados os vencedores do concurso inédito que juntou a Netflix ao Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA). Foram premiados dez projetos de argumentistas portugueses, com valores monetários, que servissem de incentivo à sua concretização.

A plataforma de streaming assumiu desde o início que não estava garantido que esses projetos pudessem estrear no seu serviço — mas a porta ficou aberta. Muitos desses projetos estão agora a ser desenvolvidos de forma aprofundada pelos seus criadores.

Um deles é “O Chefe Jacob” — foi uma das potenciais produções que, em 1200 candidaturas, foram selecionadas. Ficou nos cinco primeiros lugares — o que deu direito a um prémio de 25 mil euros. Esta futura série policial está a ser escrita por Raquel Palermo e João Lacerda Matos, casal de guionistas experientes, com um longo currículo na ficção em Portugal.

A NiT falou com João Lacerda Matos sobre o “O Chefe Jacob”. “É uma história sobre uma personagem que existiu, um inspetor da então Polícia Secreta, que depois foi dar mais ou menos naquilo que conhecemos como Polícia Judiciária, com as suas diferenças”, conta o argumentista.

“Esta personagem era muito rica porque estava claramente à frente do seu tempo. Ele usava um método de dedução que só estamos habituados a ver em personagens como o Sherlock Holmes. E o processo de dedução é aquilo que depois fez escola nas histórias policiais. É muito interessante perceber que havia de facto um inspetor português que fazia esse processo e que cultivava aquilo que hoje parece banal mas que na altura não era: a relação com informadores, o trabalho undercover, e tudo isto num universo do século XIX — em que Lisboa ainda era uma capital imperial mas já numa situação de grande perturbação política e social. Claro que esses também são condimentos para a história.”

João Lacerda Matos explica que a linha, o conceito e tom do projeto poderão ser semelhantes a uma série que já existe na Netflix, “O Alienista”. “É um bocadinho esse universo e essa estética que procuramos. O que acho mais interessante é que é baseada em factos reais, de personagens e casos de investigação [verdadeiros].”

É precisamente esse o trabalho que está a ser feito agora — de pesquisa, para construir o contexto e universo genérico da narrativa. João Lacerda Matos conta que não há muita informação sobre o protagonista Chefe Jacob, apenas “uma entrevista e pouco mais”.

João Lacerda Matos e Raquel Palermo na apresentação de um livro escrito pelos dois.

“Agora estamos a criar à volta — o que podem ser as várias áreas daquela sociedade, o contexto social e religioso e político, os crimes da época, as preocupações da altura, a vida das pessoas. Estamos a aprofundar aquilo que já tínhamos na proposta inicial. É um desafio que dá muito gozo, é quase uma arqueologia narrativa.”

A ideia é que “O Chefe Jacob” tenha dez episódios. Raquel Palermo e João Lacerda Matos estão a seguir o cronograma de desenvolvimento do projeto que apresentaram na candidatura ao concurso.

“Permitiu-nos fazer um trabalho que nem sempre é possível, e que é o trabalho normal nos Estados Unidos — o desenvolvimento do guião ser um trabalho cuidado e moroso para que depois, quando chega a fase de produção propriamente dita, as pontas que vamos acertar sejam coisas de produção, porque já temos a certeza absoluta da história que temos.”

O argumentista português explica que o destino da série “é algo que está em aberto”. “Mas obviamente que há vontade de um dia poder ser produzido para a Netflix, claro que sim. É um processo em curso.”

E acrescenta: “Sem dúvida que é bom ser um dos vencedores deste concurso, porque dá o incentivo de poder desenvolvê-lo. Mas seja um projeto diretamente apresentado ou em co-produção, seja quais forem as multiplicidades de alternativas que há, é a nossa vontade que seja desenvolvido e que daqui a uns tempos possa estar a ser produzida para a Netflix. Sempre foi um dos objetivos e acho que era o objetivo de qualquer pessoa que concorreu ao concurso. Sabíamos também que o facto de vencer não era garantia de produção. É preciso provar que se tem uma boa história e obviamente ter uma produtora para produzir. Não é um processo rápido, precisa do seu tempo.”

João Lacerda Matos realça, contudo, que a série original “Glória”, a primeira produção nacional que vai chegar à Netflix, e cujas gravações já arrancaram, é algo “excelente”. “Vai abrir, de certeza, oportunidades a outras produtoras e autores de poderem vir a ter produtos portugueses na Netflix. É ótimo.”

Leia também a entrevista da NiT com João Lacerda Matos sobre “O Clube”, série da Opto inspirada no Elefante Branco, criada por si.

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