Televisão

Henrique Dias, o homem que escreveu os diálogos e as piadas de “Pôr do Sol”

A novela da RTP que é uma sátira às novelas tem sido um sucesso. Faltam mais duas semanas de episódios diários.
Diogo Amaral é um dos protagonistas.

Estreou há uma semana, a 16 de agosto, e rapidamente se tornou num dos assuntos mais comentados do Twitter em Portugal. Nas audiências televisivas houve um crescendo — o episódio de sexta-feira foi o mais visto desde o início. Falamos de “Pôr do Sol”, a nova sensação da televisão portuguesa, a novela da RTP1 que é uma sátira às novelas.

Gabriela Barros interpreta as gémeas Matilde e Filipa. Matilde é a filha da família Bourbon de Linhaça, dona de uma herdade. Vive um amor proibido com Lourenço, o filho do caseiro — mas eles têm um laço de sangue secreto que desconhecem. Os seus pais são Eduardo e Madalena — Eduardo tem pouco tempo de vida e tem de lidar com o seu irmão rancoroso, Simão, que quer o dinheiro e o poder da família para si. Filipa é a outra irmã gémea. Cresceu órfã, tem um temperamento duvidoso, é diretora da principal revista de moda em Portugal e está a tentar descobrir as suas origens.

A narrativa foi construída com base nos clichés das novelas e, apesar de ter havido uma preocupação em ter um enredo consistente, com desenvolvimento de personagens, há diversos acontecimentos absurdos, diálogos surreais e referências pop que não estamos habituados a ver numa produção de ficção nacional.

“Pôr do Sol” foi realizada por Manuel Pureza e produzida pela Coyote Vadio, a partir de uma ideia do próprio, do ator Rui Melo (que interpreta o tio Simão) e do argumentista Henrique Dias, que já pensava em fazer um projeto deste género há muitos anos.

Henrique Dias começou a escrever guiões para televisão nos anos 90. Trabalhou com Herman José, escreveu para programas como “5 Para a Meia-Noite”, “Queridas Manhãs” ou “Praça da Alegria”, além de diversas séries de ficção. A ideia para fazer uma sátira às novelas surgiu até com outro ícone da televisão portuguesa, Nicolau Breyner, com quem trabalhou, por exemplo, em “Nico à Noite”.

À NiT, o argumentista explica que para venderem “Pôr do Sol” à RTP gravaram um excerto de 10 ou 15 minutos que funcionou como uma espécie de episódio piloto, uma prática rara em Portugal — depois de a RTP perceber o tom daquilo que queriam fazer, aprovou o projeto e começaram as gravações à séria.

“Era uma ideia que no papel seria muito difícil de explicar, se eu dissesse que era uma sátira às novelas. Era um bocadinho vago e queríamos mostrar o que queríamos fazer e a seriedade com que queríamos fazer a coisa. Fazer bem feito para depois destruir”, explica Henrique Dias. Leia a entrevista da NiT com o argumentista.

Como é que nasceu a ideia para “Pôr do Sol”?
O [Manuel] Pureza ligou ao Rui Melo, a perguntar se ele tinha alguma ideia para uma coisa nova, e o Rui Melo disse “não tenho, mas o Henrique tem uma ideia há muito tempo que é gira”. Ligaram-me os dois, falámos, eu expliquei e foi “espetacular, ‘bora lá pensar nisso”. Juntámo-nos os três numas reuniões de Zoom, fizemos um esqueleto provisório do que é que aquilo iria ser e arrancámos. Portanto, a ideia é dos três. Nos primeiros dois episódios, pedi ainda ajuda ao Roberto Pereira para me ajudar a desenvolver uma estrutura de novela. E depois peguei eu e fui escrevendo. Foi uma conjugação fantástica. 

Em que sentido?
Na realização, o Manuel, como já vem das novelas, traz a linguagem das novelas mas depois vai muito além — há ali planos que não têm nada a ver com novelas. A fotografia é um bocadinho puxada, as cores e tudo mais, mas depois também tem um bocadinho mais de bom gosto… quando digo bom gosto é que têm mais tempo para o fazer do que normalmente se tem nas novelas. Os atores também perceberam o conceito, que era muito difícil. Lembro-me que fizemos reuniões de Zoom com o elenco e era uma das coisas complicadas, porque tem de ser um equilíbrio muito ténue entre a intensidade, mas sem ser uma intensidade muito grande para não cair no ridículo. Portanto, as coisas têm de ser ditas com muita intensidade e força, mas não apalhaçadas nem exageradas nem caricaturais. E lembro-me de o Manuel Cavaco dizer que o maior desafio era esse — e é verdade. O desafio dos atores era muito difícil mas acho que eles conseguiram todos. Havia um bom ambiente, e para filmar humor é preciso porque se não as coisas não correm bem. Quer dizer, filmas à mesma, mas não é a mesma coisa, o resultado é diferente. 

Henrique Dias começou a escrever guiões nos anos 90.

Mas o Henrique estava a dizer que isto já era uma ideia sua há muito tempo.
Sim, eu lembro-me de jantares com o Nicolau Breyner em que falávamos disto: temos de fazer uma novela que é uma sátira. Ele já tinha feito o “Moita Carrasco” há muitos anos e o Herman tinha feito “O Diário de Marilú” mas o Nico tinha este fascínio. E cada vez que nós jantávamos a conversa ia sempre dar a isso. “E depois podíamos ter isto, e depois aquilo”. Ele sempre disse que o Manuel Cavaco tinha de entrar. O tempo foi passando, aconteceu o que aconteceu, mas a ideia sempre ficou lá… Mas era daquelas coisas que eu sabia que era uma ideia cara, que era difícil arranjar alguém que apostasse. Acho que a RTP deve ter mesmo o devido crédito em ter apostado num projeto destes. Porque é um produto arriscado, de certa maneira. Agora que está a correr bem e que toda a gente diz bem, as pessoas podem pensar que é fácil, mas para a RTP não é fácil apostar numa coisa tão — a expressão é horrível — fora da caixa. 

Viu muitas novelas enquanto escrevia os guiões?
Não, eu tenho a cultura de novelas provavelmente típica de qualquer português médio. Ou seja, vi algumas, não sou um espectador assíduo. De vez em quando, quando falam muito de uma, vou espreitar. Mas acho que todos os portugueses têm uma cultura média de novelas, porque está tão presente no nosso universo audiovisual, na nossa ficção. Eu percebo: é uma indústria que evoluiu muito, que está a dar trabalho aos atores, aos técnicos e tudo mais. Mas tornou-se um bocado eucalipto nos últimos tempos, está a secar um bocado as coisas à volta. Acho que a RTP tem feito um excelente trabalho de apostar em outro tipo de ficção e espero que a SIC e a TVI também façam o mesmo caminho. Sei que é mais difícil, sendo canais privados não têm a liberdade da RTP, mas gostava muito. Não só para mim, mas para todos os argumentistas, autores, realizadores, produtores, para toda a gente… E no panorama internacional claramente as séries estão a ganhar um protagonismo que não tinham há uns anos. E acho que esse caminho provavelmente vai chegar a Portugal, sempre um bocadinho mais tarde. Mas acho que a RTP está a fazer esse caminho. E a SIC com a Opto também está a fazer esse trabalho, abriu mais o mercado para as séries.

O que é que o inspirou particularmente para escrever “Pôr do Sol”?
Numa primeira fase, naquelas reuniões com o Pureza e o Rui Melo, eles como trabalharam em novelas muitos anos — e ainda trabalham, no caso do Rui Melo —, iam-me dando alguns clichés além daqueles que eu já sabia. “Acontece sempre isto, há sempre uma personagem que diz isto” e eu fui juntando isso tudo. Depois, quando me juntei com o Roberto a desenvolver o esqueleto mais pormenorizadamente e a desenvolver os arcos, ele também tem experiência em novelas, também acrescentou mais. E depois, a partir daí, quando comecei a escrever, fui buscar muito àquilo que sempre me inspirou. Ou seja, o meu terreno é o humor nonsense, é o que eu gosto: Monty Python, ou humor de desconforto, tipo Ricky Gervais. Mas basicamente é nonsense. Eu tenho aquela frase genial do Conan O’Brien que acha que o humor é uma intersecção entre a parvoíce e a inteligência. Acho que é mesmo isso e é aí que tento navegar. Há ali uns momentos em que há uma intersecção entre uma coisa inteligente e profundamente estúpida e há qualquer coisa de mágico quando isso acontece. Depois, aqui, tinha de partir de todos aqueles estereótipos das novelas… E uma coisa engraçada foi que criámos toda uma estrutura clássica como se fosse uma novela, fizemos os arcos todos, as personagens e depois os acontecimentos que fazem avançar a narrativa é que são absolutamente absurdos. E depois exagerar muitas coisas… “Tu aqui a estas horas?!” Como se houvesse horas para as pessoas [risos]. Ou o vilão com os copos de whisky, que é uma coisa que vejo muito nas novelas, que chegam a casa e bebem whisky, pronto. Há uma cena mais para a frente que tem um pequeno-almoço de novela, que também é um clássico. Foi pegar naquelas coisas que, qualquer pessoa, mesmo não estando no meio e se senta no café a comentar novelas, todos nós sabemos o que é que normalmente as novelas têm ou o que mais aparece. Os cavalos, por exemplo, não é uma coisa muito presente nestas novelas que estão a dar agora… 

Mas muitas vezes há uma ligação a um certo mundo rural nas novelas.
Sim, sim, principalmente ultimamente, que se tenta fazer a ligação ao mundo rural como uma forma de captar audiência, ou de estar mais perto das pessoas — e também vão para locais menos rurais, no caso da Nazaré. Nós aqui foi Santarém, foi a nossa escolha.

O que é que foi mais interessante em desconstruir o formato das novelas?
Acho que mesmo os guionistas de novela — que já me disseram “às vezes estamos a escrever coisas e imaginamos que era tão bom fazer assim” —, mesmo eles têm essa noção. E acho que qualquer pessoa que se sente a ver uma novela às vezes tem vontade de ver algumas coisas ditas como nós as dizemos. Desde o início sempre tivemos uma noção: isto não pode ser vexatório, não pode ser sobranceira sobre as novelas. Tem que ser entrar dentro do formato e brincar com ele. E uma coisa importante quando fazes isso é perceber as limitações. Quando se faz uma novela, os guionistas têm pouquíssimo tempo. Aquilo é uma fábrica. Portanto, é normal que os guiões não saiam como o guião de uma série onde se tem uma semana para se escrever um episódio, ou 15 dias para se escrever, enquanto numa novela se tem um dia. Portanto, é normal que aquelas coisas aconteçam. Têm que se trabalhar àquela velocidade e as coisas não saem com tanto apuro. Este olhar não é elitista, nada disso: as novelas são o que são pelas circunstâncias, principalmente de tempo. Seria quase impossível fazer algo ao mesmo nível de uma série, quando os atores têm tempo para trabalhar, o realizador tem tempo para preparar os planos, os guionistas têm tempo para escrever, voltar atrás, corrigir, lê-lo duas, três, quatro ou cinco vezes. Numa novela não funciona assim.

Houve liberdade criativa total?
Total. Foi por isso que comecei por dizer que a RTP tem muito crédito, porque nos deu liberdade total. Obviamente foram vendo os guiões, mas nunca nos sentimos de forma alguma constrangidos ou censurados. Temos aqui uma série de referências pop, que não é uma coisa muito comum, e que a RTP percebeu que neste contexto, nesta novela, neste produto, faz todo o sentido. E era bom que seguisse o seu caminho e que mais pessoas o fizessem. Porque acho um pouco estranho como em Portugal há sempre um cuidado e um pudor e um prurido tremendo com o facto de se falar em A, B, C… Quando não é uma coisa vexatória ou a achincalhar ninguém… Quando estamos nos cafés ou nos jantares com amigos falamos “olha como o fulano tal”, é normal dizermos isto, e há um cuidado tremendo nos canais, principalmente no humor. Não se pode dizer isto ou falar daquilo… Quer dizer, eu percebo quando é uma coisa ofensiva. Neste caso que são só referências não percebo.

O projeto tem tido um grande feedback online, com muitas imagens partilhadas até a enaltecer os diálogos e as referências. Tem sentido esse carinho e apoio dos espectadores?
Sim, totalmente. Eu não tenho Twitter, mas já lá fui ver as coisas que se dizem e é incrível. Há pessoas a fazerem memes todos os dias e fotos… É mesmo uma coisa avassaladora, não estávamos… Obviamente acreditávamos no projeto e achávamos que era bom, mas não esperávamos esta reação quase de culto já. As reações têm sido fantásticas. 

Sem revelar grandes peripécias, é possível dar algumas pistas sobre o que as pessoas podem esperar do resto da história?
Não posso mesmo, a RTP matava-me se eu fizesse isso [risos]. Mas isto vai num crescendo, todas estas coisas que começaram com a rebelião na herdade, com o fogo, isto vai continuar com acontecimentos e acontecimentos… Fizemos questão de ir tendo, que não fosse só diálogo, para fazer andar a narrativa. E não vou estar a ser imodesto, acho que estão bons e que as pessoas vão gostar.

Gostaria de fazer uma segunda temporada?
Todos nós gostaríamos de fazer uma segunda temporada. Não há ninguém nesta equipa… Porque mal acabámos, o sentimento foi tão bom, ainda antes de termos visto tudo editado. Foi o sentimento de perceber que estávamos a fazer uma coisa diferente, tenha sucesso ou não: o ambiente é tão bom entre todos, isto correu tão bem, que era tão bom voltarmos a encontrar-nos para fazer mais. Sem sequer sabermos se iria resultar ou não. Só nesse sentimento de estarmos felizes com o que estávamos a fazer e com o ambiente que estava ali criado. Por isso, claro que sim. E quando digo isso estou a falar por toda a equipa técnica, todos os atores, todas as pessoas que estiveram neste projeto.

E agora que há o feedback do lado do espectador, e tem sido bastante positivo, ainda mais haverá esse sentimento de ser possível.
Sim, claro que sim. À medida que esta reação apareceu e está a crescer, obviamente que as possibilidades de isso acontecer são maiores. Houve uma coisa aqui que fez muita diferença. Para começar, o arranque da história feito comigo, pelo Rui e pelo Manel, foram várias reuniões a debater. Depois, com o Roberto, ainda passámos mais não sei quantas horas a fazer o esqueleto, a narrativa, a acertar tudo. Ainda trabalhámos muito tempo nos dois primeiros episódios — que tiveram em média umas cinco versões. E a escrita não era de dia a dia, tinha mais ou menos uma semana para 25 minutos, o que já é um tempo razoável. Dava para fazer, rever, voltar. Este tempo é importante. Nada se consegue fazer no humor, ficção, sem o tempo. 

O Henrique já está a preparar um próximo projeto, do qual nada ainda se sabe, chamado “Da Mood”, não é?
É uma série, não lhe posso chamar um drama, mas não é uma série de comédia como esta. E é uma co-produção entre a SPi, a Coyote Vadio e a Caos Calmo. Já terminei, vão começar a filmá-la brevemente. Não posso mesmo falar muito sobre isso porque a RTP é que depois dirá o que entender.

Leia também a entrevista da NiT a um dos atores principais de “Pôr do Sol”, Diogo Amaral, e leia a nossa crítica após vermos os primeiros episódios deste projeto.

Carregue na galeria para conhecer outras produções que estrearam (e vão estrear) neste mês de agosto.

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