Livros

3 livros (e um x-ato) obrigatórios para conhecer a vencedora do Nobel da Literatura

A norte-americana Louise Glück foi distinguida com o maior prémio esta quinta-feira, 8 de outubro.
Fotografia de Don Usner.

A discussão sobre a justiça do Nobel da Literatura é quase tão antiga quanto o próprio prémio. Muitas vezes não está tanto em causa o talento de quem ganhou, mas sim as figuras ímpares que nunca o receberam. Nomes como Leo Tolstói, Vladimir Nabokov, Virginia Woolf, James Joyce ou Marcel Proust estão entre os históricos da literatura que nunca ganharam um Nobel.

Com tantos livros e autores que todos os anos podem figurar entre candidatos, o Nobel da Literatura tem pelo menos um lado positivo: é que entre discussões sobre vencidos e vencedores, há premiados que só nos chegam às mãos na língua portuguesa após terem vencido o Nobel. É o que podemos prever com a poetisa e ensaísta Louise Glück, a vencedora deste ano. Glück já vencera vários prémios, incluindo o Pulitzer, já era lida e estudada mesmo em ambiente académico e era um sucesso de crítica nos EUA. Mas por cá, até agora, era um nome que ainda passava longe do radar da maioria de nós.

Há alguns trabalhos no Brasil recentes a tentar dar conhecer a autora. Por cá, temos também alguns exercícios mais de âmbito académico, como do poeta e tradutor Rui Pires Cabral. Esta distinção do Nobel deverá abrir caminho a traduções em livro por cá. No site da Fnac, por exemplo, existe um ou outra opção em inglês e francês de trabalhos da autora. No site da Bertrand é possível encontrar o grosso da obra na língua original.

Entre os volumes de poesia e ensaios publicados ao longo da vida pela autora de 77 anos, há algumas obras que se destacam. Temas como o trauma, a dúvida ou mesmo a natureza são marcas que a crítica destaca que vão de um modo ou outro surgindo ao longo da obra de Glück. A NiT dá uma ajuda a desvendar as obras fundamentais na carreira da poetisa. E oferecemos de caminho uma efeméride curiosa.

O x-ato, durante décadas a lâmina mais útil de qualquer escritório, foi inventado nos anos 30 por um imigrante judeu polaco nos EUA, Dundel Doniger. O seu plano era criar um bisturi mas como era de difícil lavagem, a ideia não pegou. Felizmente, o seu cunhado teve outra ideia e começaram a comercializá-lo como ferramenta de escritório. Foi um sucesso, a solução encontrada pelo cunhado. Chamava-se Daniel Glück e o pai da autora que agora é Nobel.

A Academia sueca destaca que, não sendo uma poeta confessional, Glück tem um lado autobiográfico que vai surgindo na sua obra. A verdade é que alguns dos seus trabalhos mais distintos foram escritos após tragédias e problemas pessoais, como a morte do pai ou o divórcio. A própria autora já referiu num ensaio que a anorexia que sofreu em adolescente resultou de um ato falhado de se tornar mais independente da sua mãe.

Glück estreou-se em 1968 com “Firtsborn” e sentiu rapidamente um bloqueio de escrita, só desfeito em 1971. Foi nessa altura que começou a escrever os poemas que entrariam em “The House on Marshland”, o seu segundo livro e o primeiro a destacá-la entre a crítica e a poesia contemporânea norte-americana. Em 1980, um incêndio destruiu a sua casa e todos os seus pertences. Os poemas que resultaram nos anos seguintes saíram num elogiado “The Triumph of Achilles”. As obras que se seguiriam iriam consagrá-la.

Uma foto de Louise Glück em 1977.

Em 1985, após a morte do pai, começou a escrever uma nova coleção de poemas que só seria publicada em 1990: “Ararat”. Em 2012, o crítico do “New York Times” Dwight Garner abre um texto sobre a carreira de Glück da seguinte maneira: “O livro mais brutal e carregado de angústia da poesia americana publicada nos últimos 25 anos é ‘Ararat’, de Louise Glück”.

A década de 1990 foi, na verdade, a que marcou o fulgurante reconhecimento de Glück entre os seus pares. Em 1993, “The Wild Iris” venceu o prémio Pulitzer de poesia. Glück tornava-se assim uma certeza na poesia, numa obra em que colocava através de poemas flores pensantes a falar com o jardineiro.

Se “Ararat” partira da perda do pai e “The Wild Iris” encontrara uma voz narrativa tão invulgar, uma terceira obra da artista acabaria por se destacar, não só pela densidade, mas também pelo tema que teve como partida: o trauma dos ataques terroristas de 11 de Setembro.

Foi em 2004 que a obra foi publicada, com um título tão simples e ao mesmo tempo tão certeiro sobre o que veio depois daquele setembro de terror: “October”. A obra é um poema mais denso, dividido em seis partes, em que mitos da Grécia Antiga são invocados para abordar o trauma e o sofrimento.

Foi nesse mesmo ano que conseguiu uma bolsa que lhe permitiu ser autora residente na Universidade de Yale. É a mesma universidade onde ainda dá aulas de inglês. À Academia Nobel, Glück confessou a sua “surpresa” com a escolha. Mas ela está feita. E a única dúvida agora é saber se irá receber o prémio numa cerimónia presencial, uma dúvida que a atual pandemia ainda deixa em aberto.

À procura de outro tipo de leituras? Carregue na galeria e descubra a lista da NiT com os melhores e mais viciantes livros que acabam de sair ou que vão ser publicados até ao final do ano.

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