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A relação com Diana manchou “o percurso irrepreensível” de Isabel II

O diplomata José de Bouza Serrano, autor do livro “A Viúva de Windsor”, aponta os dois momentos de fraqueza do reinado da rainha.

Passou o último ano e meio a mergulhar nas histórias de vida de Isabel II, apenas para ser surpreendido com a notícia da sua morte. “Preferia tê-lo publicado com a rainha viva”, explica à NiT o diplomata e embaixador já reformado, mas que viveu a sua vida entre os membros das famílias reais. Sobretudo porque passou sempre por países marcados pelas monarquias.

O lançamento de “A Viúva de Windsor” coincide, assim, com a morte da monarca britânica. E é de forma oportuna que José de Bouza Serrano sublinha aqueles que considera serem os dois momentos marcantes do seu reinado.

“Foi uma rainha magnífica, irrepetível, de uma grandeza, dedicação e compromisso com o serviço notável. Mas teve dois momentos nos quais a coroa podia ter vacilado. São dois momentos-chave em que não terá avaliado a profundidade e o risco que representavam para a monarquia.”

Em 1966, uma mina de carvão no País de Gales colapsava de forma inesperada e provocava um deslizamento de terras que despejou mais de 100 mil toneladas de rochas sobre a pequena localidade. A rapidez com que tudo aconteceu, tornou impossível qualquer manobra de evacuação.

Na rota dos detritos estava uma escola, onde morreram 116 crianças, a grande maioria das 144 vítimas mortais do desastre. Enquanto decorriam as desesperadas operações de salvamento e os sobreviventes lidavam com o trauma, todos os olhos se viraram para Isabel II.

“A rainha não foi logo lá. Esperou sete ou oito dias, apesar da insistência de Harold Wilson, primeiro-ministro do governo trabalhista”, recorda Bouza Serrano. “Entretanto, o cunhado da rainha foi lá, como fotógrafo, e tirou imagens impressionantes. Ele também avisou a rainha do estado preocupante das pessoas.”

Mesmo sob fortes críticas, a Isabel II resistiu, sob a justificação de que não queria atrapalhar as operações de salvamento e passar a ser ela o centro das atenções. “Haveria de se arrepender de não ter ido logo nos primeiros dias. Essa hesitação ficou conhecida como o Síndrome de Aberfan.”

21 anos depois, o síndrome regressava para ensombrar o reinado de Isabel II. A notícia da morte da princesa Diana surpreendeu a família real, que estava então na residência de Balmoral, na Escócia. “Ela decidiu manter-se na Escócia com os netos, com a desculpa de que estava a tentar protegê-los, agora que eram órfãos”, recorda. “Só que entretanto, em Londres, crescia um mal-estar terrível.”

Apesar da pressão, Isabel II manteve-se durante cinco dias enclausurada em Balmoral, até inevitavelmente ter que descer a Londres, onde encontrou um cenário inesperado. “Quando chegaram a Londres, havia pessoas com cartazes a acusá-los de serem assassinos. Foi horrível. A rainha ficou chocada com aquela hostilidade, até porque estava habituada a ser recebida de forma carinhosa. De repente, chocou com todo aquele ódio”, recorda.

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“A Lady Di tinha conseguido criar uma ligação forte com muitos e diferentes extratos sociais da sociedade inglesa. Era muito popular. Houve até um momento em que se tornou na figura mais fotografada, até mais do que a rainha.”

Isabel II acabaria por tentar reverter a situação, até porque. Nas cerimónias, a rainha foi além do dever e do protocolo para tentar amenizar o clima de crispação.

“No discurso que faz à televisão, onde se podem ver, atrás dela, as pessoas a depositarem as coroas de flores em Buckingham, ela descreve-se como rainha, mas também como avó. A palavra avó fez toda a diferença e foi acrescentada pelo então conselheiro de imprensa do primeiro-ministro Tony Blair”, explica.

“Incredulidade, incompreensão, raiva, preocupação com os que permanecem. Todos nós sentimos essas emoções nos últimos dias. Por isso, o que vos digo agora, como rainha e como avó, é dito do coração”, sublinhou Isabel II no arranque do discurso. “Quero ser eu própria a prestar homenagem a Diana. Ela era um ser humano excecional.”

Haveria ainda outro gesto que ficou conhecido como uma das raras vezes em que a rainha quebrou o protocolo. Durante o funeral, Isabel II decidiu sair de Buckingham e juntar-se à multidão que aguardava a passagem do caixão que carregava o corpo. Nesse momento, surge uma imagem nunca antes vista: a rainha a fazer uma vénia, num gesto de respeito por Diana. “Era a majestade que agora se cruzava perante a nora.”

Para o diplomata e embaixador, estes dois episódios servem “de contraste” na vida de “uma mulher experiente” como Isabel II. “Ela teve um percurso irrepreensível e esses ficam como os dois momentos de fraqueza, nos quais não conseguiu, apesar de toda a sua experiência, avaliar a gravidade e o perigo que poderiam ter colocado à monarquia”, conclui. “Mas é um facto que os Windsor têm um talento especial para dar a volta às coisas.”

Recorde o artigo da NiT sobre a influência de Isabel II e carregue na galeria para rever alguns dos looks mais marcantes da rainha ao longo das décadas.

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