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Abusos, abortos e um AVC: as histórias inacreditáveis da vida de Sharon Stone

A autobiografia recheada de revelações da atriz chega finalmente a Portugal. Chama-se “A Beleza de Viver Duas Vezes”.
É a história de uma vida louca

Não há quem não se recorde da cena assim que o nome da atriz é citado. De vestido branco justo, cabelo loiro apanhado e olhar intimidatório, Stone descruza e volta a cruzar as pernas numa das cenas mais famosas do cinema. Só que o plano de “Instinto Fatal” foi tudo menos consensual.

Segundo Sharon Stone, a produção pediu-lhe para tirar as cuecas por causa de um problema de reflexo. Assim fez. Quando percebeu que ficava completamente exposta no plano escolhido por Paul Verhoeven, perdeu as estribeiras. “Fui à sala de projeção e dei uma bofetada no Paul, saí, meti-me no carro e liguei ao meu advogado”, escreve nas suas memórias.

O caso nunca avançou para tribunal, o filme saiu tal e qual foi gravado e Verhoeven acusa Stone de mentir. Seja como for, a atriz fala com arrependimento e pavor das gravações do filme. Contrariamente ao que seria de esperar, a atriz revela que a experiência foi traumática, de tal forma que encarnar a personagem a obrigou a enfrentar o seu “lado mais negro”.

“Andava apavorada. Tive episódios de sonambulismo por três vezes, duas delas acordei completamente vestida dentro do meu carro. Tinha pesadelos horríveis”, descreve nas suas memórias que foram um sucesso nos Estados Unidos e que agora chegam a Portugal.

“A Beleza de Viver Duas Vezes” foi publicada originalmente em março e tornou-se rapidamente um dos best sellers do ano. Chega a Portugal esta terça-feira, 7 de setembro, editada pela Guerra e Paz. No seu interior, muitas revelações bombásticas de uma vida que não dava um filme, mas sim três ou quatro.

Aos 63 anos, Stone já passou por tudo, do brilho das nomeações aos Óscares a encontros imediatos com a morte. E sobreviveu a tudo.

Ainda não era uma adolescente quando ela e a sua irmã Kelly terão sido vítimas de abuso sexual às mãos do avô, Clarence Lawson. Tudo terá acontecido com a conivência da avó, que era quem trancava a porta do quarto.

O inferno só terminou com a morte de Lawson, tinha Stone apenas 14 anos e Kelly 11. Foi no funeral que a agora atriz percebeu que estava livre. “Toquei-lhe com o dedo e senti uma satisfação bizarra ao perceber que ele estava finalmente morto. Essa perceção atingiu-me como um bloco de gelo. Olhei para a Kelly e ela também percebeu. Tudo tinha acabado.”

Cresceu no estado da Pensilvânia e foi lá que teve que saltar a fronteira estadual para, aos 18 anos, poder fazer um aborto, então ilegal. Conduzida pelo então namorado, viajou até ao Ohio para terminar a gravidez. “Estava demasiado assustada e chocada para saber o que devia fazer”, escreveu.

De regresso a casa, o cenário piorou. “Estava a sangrar por todo o lado, muito mais do que era normal. Mas era um segredo e não podia dizer a ninguém, por isso mantive-me fechada no quarto a sangrar durante dias.” Estava fraca e assustada, mas resistiu.

Acabaria por se tornar numa super estrela de Hollywood mas a fama trouxe consigo toda uma outra série de problemas. Segundo Stone, semanas antes de ser escolhida para o elenco de “Instinto Fatal”, foi o seu próprio agente que lhe explicou que ninguém a contratava “porque não era fodível”.

O tratamento das mulheres na indústria do cinema é, aliás, um dos grandes temas presentes da sua autobiografia. Revela, sobretudo, os comportamentos degradantes e misóginos a que foi sujeita. Por exemplo, quando um produtor a aconselhou a “ir para a cama” com o co-protagonista. “Ele explicou-me que devia fodê-lo para que pudéssemos criar uma química no ecrã. Que ele, nos seus tempos, fez amor com a Ava Gardner durante uma gravação”, recorda.

“Vocês insistiram em contratar este ator quando ele não conseguia acertar uma cena nos testes”, retorquiu. “E agora acham que se eu o foder, ele se vai tornar num bom ator? Ninguém é assim tão bom na cama.” As respostas rápidas fizeram com que ganhasse fama por ser alguém com quem era “difícil trabalhar”.

Stone recorda também o dia em que um realizador se recusou a gravar com ela porque se recusava sentar-se ao seu colo para ouvir as instruções. O estúdio, recorda, nada fez.

A atriz fala ainda sobre o dia em que teve que se sujeitar a uma cirurgia para remover um enorme tumor benigno num seio. E que, quando acordou da anestesia, se sentiu violada.

“Quando me tiraram a gaze, descobri que tinha os peitos com um tamanho acima, peitos que, segundo o cirurgião, ‘combinavam melhor com o tamanho da anca'”

“Quando me tiraram a gaze, descobri que tinha os peitos com um tamanho acima, peitos que, segundo o cirurgião, ‘combinavam melhor com o tamanho da anca’. Ele alterou o meu corpo sem o meu consentimento”, conta.

Stone terá confrontado o médico, que se defendeu com um simples: “Pensei que ficava melhor com maiores e melhores mamas”.

O mais tenebroso momento da vida da atriz estava guardado para 2001, quando Stone sofreu um AVC do qual recuperou, não sem antes ter aquilo que descreve como “uma experiência mística”. Enquanto estava inconsciente nas urgências, a atriz diz ter saído do seu corpo e ter encontrado três amigos que já tinham morrido. Eles ter-lhe-ão dito para não ter medo.

“A luz era tão luminosa. Era tão mística. Queria fazer parte dela”, recorda, antes do momento em que se sentiu como se fosse “pontapeada no peito por uma mula” e que “decidiu” viver.

Esteve mais de sete horas na sala de operações e a recuperação foi difícil. Durante esse tempo, Stone revela que se converteu ao budismo e se tornou numa hippie. “Tornei-me na Miss Paz e Sossego.”

Esse não seria o seu último encontro imediato com a morte. Sharon Stone diz também que foi atingida por um raio enquanto passava a ferro na sala de sua casa. O impacto foi de tal forma forte que foi atirada pela cozinha, contra o frigorífico.

“A minha mãe estava ao meu lado e deu-me uma bofetada para me despertar”, recorda. “Estava num estado tão alterado que não o consigo descrever. Levou-me ao hospital para fazer um ECG que mostrava a eletricidade no meu corpo. Tive que repetir o exame todos os dias durante dez dias.” Stone sobreviveu a tudo com a saúde suficiente para contar cada um dos episódios.

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