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Amanda Gorman, a poetisa que adora Harry Potter — e que superou um problema na fala

Das jóias oferecidas por Oprah à homenagem à sua heroína. Como é que a miúda de 22 anos roubou o palco a Biden.
No dia de Biden, a estrela foi outra

Os erres saíam-lhe com dificuldade da boca — quando saíam de todo. O impedimento da fala tornou-se num obstáculo duro de contornar. Quando não era confundida com uma imigrante — ela que nasceu em Los Angeles —, enclausurava-se nas casas de banho a repetir as palavras que custavam a sair.

Na quarta-feira, 21 de janeiro, subiu os degraus do palanque que um país inteiro observava. Sem sinais à vista do impedimento que a atemorizava, Amanda Gorman cresceu do alto dos seus 1,55 metros e recitou um poema da sua autoria: “The Hill We Climb”. Em cinco minutos, tornava-se na estrela da tomada de posse de Joe Biden.

Aos 22 anos, Gorman continua acrescentar títulos ao já lotado currículo. Desta vez, tornou-se na mais nova poeta a recitar numa tomada de posse. Uma honra que foi oferecida a poucos e por poucos. Foram apenas três os presidentes que o fizeram, todos eles democratas. Kennedy recrutou Robert Frost. Obama chamou Elizabeth Alexander e Richard Blanco e Clinton convidou Maya Angelou — poetisa e ativista que é também heroína de Gorman.

O convite chegou-lhe às mãos em dezembro, depois de Jill Biden, a nova primeira-dama, ter assistido ao vivo ao recital que deu na Livraria do Congresso. O impressionante dom da palavra tem garantido que Gorman é sempre o centro de todas as atenções. Foi eleita Jovem Poeta Laureada da sua cidade-natal ainda não tinha completado 18 anos e acabaria por conquistar o prémio nacional em 2017.

O convite exigia-lhe uma obra do tamanho do mundo ou, pelo menos, que ombreasse com a escrita de Frost ou Angelou. Atirou-se aos livros, estudou os discursos de Abraham Lincoln, Frederick Douglass, Martin Luther King e Winston Churchill. Pelo caminho, foi aperfeiçoando a obra.

O ataque ao Capitólio deu-lhe a linha perfeita: “Mas enquanto a democracia pode ser periodicamente adiada / Nunca pode ser permanentemente derrotada”. “Esse dia deu-me uma segunda vaga de energia para concluir o poema”, explicou

O discurso no palanque da casa da nação alimentou-lhe outro sonho, o de ser presidente dos Estados Unidos. “Mais lá para 2036”, confessa.

Embora não tenha a idade ou a experiência para se lançar numa obra dessa magnitude, presença não lhe falta. De amarelo garrido no casaco Prada, bandolete vermelha e jóias cheias de simbolismo, o look colorido e ousado — pelo qual é também conhecida — escondia um par de histórias.

No dedo, Gorman trazia um volumoso anel em forma de jaula. Um presente dado por Oprah Winfrey como forma de homenagem a Maya Angelou e ao seu célebre “Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola”, recitado no mesmo local em 1993, na tomada de posse de Clinton.

Tal como fez com Angelou, Winfrey quis ser ela a pagar o casaco de Gorman que, afinal, já se tinha adiantado. Decidiu então que as jóias haveriam de ser a forma escolhida para apoiar, como faz quase sempre, todos os jovens talentos negros do seu país.

Porém, a história de Gorman não cai nos estereótipos comuns da comunidade negra. Filha de uma mãe solteira professora de inglês, fez a educação numa escola privada. Ainda assim, nem tudo foi fácil.

Nascida 45 segundos após a irmã gémea, ambas as raparigas foram prematuras e Joan Wicks, a mãe, temia que pudessem sofrer de algum tipo de incapacidade. O caso não foi tão grave quanto se poderia prever, mas as sequelas manifestaram-se.

Além de um impedimento de fala que lhe dificultava a comunicação, Gorman foi diagnosticada com um distúrbio de processamento auditivo. “Ela tinha dificuldades em exprimir-se, mas sempre teve um pensamento muito avançado para a idade”, recordou a mãe à “Understood”.

Oprah ofereceu-lhe as jóias para usar na tomada de posse

Curiosamente, aprendeu a ler muito mais tarde do que os colegas. Mas quando o fez, tornou-se numa ávida leitora. Devorava livros do Harry Potter, antes de se lançar em obras e autores mais desafiantes.

As suas dificuldades levaram-na à terapia e a ter que se esforçar um pouco mais do que os outros. Gorman não gostava, sobretudo quando o impedimento na fala mudava a perceção que os outros tinham de si.

Era regularmente confundida como uma imigrante, por vezes britânica, noutras vinda de África. “Obviamente que não sou imigrante, nasci e cresci na América, mas sinto que tive que aprender inglês quase como um outsider e isso fez-me dar valor a todos os que vêm de fora para o nosso país”, recorda em 2018 ao “The Crimson”

A certa altura, sentiu que essa confusão das pessoas poderia tornar-se em algo interessante. “Tornou-se numa mini experiência. [Percebi que] se julgassem que eu vinha da Europa, tratavam-me muito bem, como se fosse uma intelectual sofisticada; se eu lhes desse a entender que vinha da Nigéria, faziam comentários como ‘Oh, é assim que funcionam os cartões de crédito’ ou ‘talvez não soubessem disto na aldeia de onde vens’”, conta.

Tal como Biden, o impedimento da fala nunca a impediu de seguir em frente com o seu talento. Hoje, que se tornou numa oradora para grandes eventos — um nicho que, confessa, nunca ter imaginado que pudesse ser o seu —, explica que é comum receber mensagens de fãs inspiradas. “De vez em quando, há uma menina que surge nos eventos que me diz que tem o mesmo distúrbio que eu e que fala exatamente como eu”, confessa com orgulho.

Maya Angelou, sua heroína, também sofreu com mudez enquanto criança. “E ela cresceu e acabou por recitar o poema inaugural para o presidente Bill Clinton. Por isso acho que existe aqui uma história real de oradores que tiveram que lutar com um certo tipo de mudez imposta”, explicou à “NPR”.

Da infância, recorda-se do vício da leitura e da forma como a mãe lhe ralhava sempre que a apanhava a caminhar enquanto lia. Da saga de Potter, saltou para Percy Jackson, até chegar à sua favorita Jane Eyre.

“Lia tudo o que conseguia apanhar e depois relia os meus favoritos até que se desfizessem nas minhas mãos”, conta ao “Bucknellian”

“Sei Porque Canta o Pássaro na Gaiola” de Maya Angelou ajudou-a a criar uma ligação à autora, ativista e símbolo da comunidade negra. “Sentia-me como ela enquanto crescia. Conseguiu ultrapassar anos a fio a não conseguir falar por si própria, tinha tanto amor pela poesia”, conta.

Começou por escrever as suas próprias histórias e assim que aprendeu a arte da metáfora e da poesia, escrever tornou-se mais fácil. Das histórias de “raparigas brancas com cabelo ruivo e olhos azuis”, passou para algo mais próximo da sua vida real, sobretudo com ajuda dos livros de Toni Morrison.

“Percebi que as histórias podiam ser sobre pessoas que se pareciam comigo”, diz. Acabou por descobrir e ficar fascinada pelos trabalhos de outras mulheres negras como Audre Lorde e Phillis Wheatley, também elas com um foco especial nos temas da justiça social, feminismo e raça.

Maya Angelou é uma das suas heroínas

Aos 16 anos, com o apoio de uma organização não-governamental ligada às artes e a juventude, submeteu alguns dos seus poemas sobre temas de injustiça social.

Foram esses trabalhos que a levaram a conquistar o prémio de Jovem Poeta Laureada de Los Angeles, em 2014. Um ano depois, publicava o seu primeiro livro: “The One for Whom Food is Not Enough”.

Confessa-se uma autodidata da escrita, apesar de ter frequentado o ocasional curso de escrita criativa. Nunca a poesia entrou nestas contas. Confessa, aliás, que só aceito verdadeiramente o título depois de ser eleita como a Jovem Poeta Laureada de Los Angeles.

Escolheu formar-se em sociologia porque se queria desafiar a si própria para aprender algo de novo. “Até porque a minha vida, por sua própria vontade, puxar-me-ia sempre para a escrita”, esclarece. Em Harvard licenciou-se e tornou-se numa ativista, à medida que os conhecimentos sobre “movimentos e instituições” a ajudaram a “aprofundar” o seu trabalho como poeta.

Apareceu na MTV, escreveu poemas para a Nike e em setembro lançou o seu primeiro livro para crianças, “Change Sings”. Acabaria por ser a recitar em público que haveria de se tornar conhecida. Fê-lo em celebrações do Dia da Independência, no palanque da sua Universidade de Harvard, na Livraria do Congresso e agora no Capitólio, numa tomada de posse.

“Acho que tropecei neste nicho. É algo em que encontro uma enorme recompensa emocional, escrever algo que possa tocar as pessoas, mesmo que seja apenas por uma noite.”

Isso não significava que não houvesse, da parte desta aparente confiante jovem de 22 anos, muito medo. “Ficava nas casas de banho, durante os cinco minutos antes, a escrevinhar e a tentar perceber se conseguia dizer ‘terra’ ou ‘rapariga’”, confessa à “NPR”.

Após superar todas as dificuldades, Gorman acredita que o que não a matou tornou-a mais forte. “Não olho para os meus problemas como uma fraqueza. Foram eles que me tornaram na performer que sou e na contadora de histórias que ambiciono ser”, conta, enquanto explica que as atuações a fazem sentir-se “aterrorizada, mas embriagada de poder”.

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