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Autor de “Pai Rico, Pai Pobre” deve mil milhões e diz que isso é uma coisa boa

Robert Kiyosaki, de 79 anos, recorre a empréstimos para comprar ativos e defende que poupar dinheiro nem sempre é a melhor estratégia.

Robert Kiyosaki passou quase três décadas a ensinar milhões de leitores a lidar com dinheiro. Agora, o autor de “Pai Rico, Pai Pobre”, um dos livros de finanças pessoais mais populares do mundo, voltou a chamar a atenção pela sua própria situação financeira: está associado a uma dívida que ronda os 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros).

O número seria suficiente para provocar suores frios à maioria das pessoas. Kiyosaki, porém, olha para isso de forma bastante diferente. O norte-americano, de 79 anos, não só assume o recurso intensivo ao crédito como defende que a dívida é uma das ferramentas que usa para aumentar o património.

“Uso a dívida como dinheiro e não poupo dinheiro porque, em 1971, o dólar se tornou dívida”, explicou numa declaração citada pela revista norte-americana “Fortune”. E foi ainda mais longe quando questionado sobre o risco da estratégia: “Se eu falir, o banco vai à falência. Não é problema meu.”

A afirmação parece contradizer tudo aquilo que se espera de um autor conhecido por ensinar finanças pessoais. Na realidade, encaixa numa das ideias que Kiyosaki defende há vários anos: para ele, existem dívidas boas e más — e a diferença está naquilo que se faz com o dinheiro emprestado.

Kiyosaki não está a falar de milhares de milhões gastos em carros, viagens ou outros luxos. A sua estratégia passa por recorrer ao financiamento bancário para adquirir ativos que, pelo menos em teoria, conseguem gerar rendimento ou valorizar.

O escritor tem apostado sobretudo no imobiliário e também diz investir em poços de petróleo, ouro e prata. Em vez de acumular dinheiro numa conta bancária, prefere utilizar capital emprestado para aumentar a carteira de ativos e aproveitar os rendimentos gerados por esses investimentos.

Há, porém, uma nuance importante no valor que tem circulado nos últimos dias. Uma investigação publicada pela “Vanity Fair”, a 26 de agosto, voltou a colocar a situação financeira do escritor sob os holofotes e refere os 1,2 mil milhões de dólares de dívida. Segundo a revista, as obrigações estão associadas aos investimentos imobiliários e são partilhadas com parceiros — portanto, não se trata simplesmente de 1,2 mil milhões de dólares em créditos pessoais contraídos por Kiyosaki.

É a utilização de imóveis e outros ativos que permite ao autor distinguir este endividamento daquilo a que chama “má dívida”. A lógica é relativamente simples: pedir dinheiro emprestado para comprar algo capaz de produzir rendimento pode ajudar a pagar o próprio financiamento. Pedir crédito para comprar algo que apenas perde valor e gera despesas coloca o devedor numa posição muito diferente.

“Há muitas pessoas que usam dívida para comprar passivos”, explicou à “Fortune”. E deu dois exemplos da sua própria garagem: tanto o Ferrari como o Rolls-Royce que conduz estão totalmente pagos porque, segundo a sua definição, são passivos e não investimentos.

A filosofia do escritor não se fica pela aceitação do crédito. Kiyosaki considera mesmo que recomendar às pessoas que poupem dinheiro e evitem as dívidas é um mau conselho no atual contexto económico.

O argumento está relacionado com a inflação e com a perda de poder de compra da moeda. É também por isso que afirma preferir ativos como ouro, prata, imobiliário ou poços de petróleo ao dinheiro parado no banco.

A estratégia está longe de ser isenta de riscos. O recurso à alavancagem permite controlar investimentos de valor muito superior ao capital próprio disponível, mas significa igualmente que continuam a existir empréstimos, juros e obrigações financeiras. Se os ativos perderem valor ou deixarem de gerar dinheiro suficiente, a mesma alavancagem que multiplica os ganhos também pode ampliar as perdas.

O próprio conceito de “boa dívida”, aliás, não significa que um empréstimo seja seguro. Em termos financeiros, a expressão costuma ser aplicada a crédito usado para financiar algo com potencial para aumentar o património ou a capacidade de gerar rendimento.

No caso de Kiyosaki, a dimensão dos números contrasta sobretudo com a imagem construída ao longo de quase 30 anos. “Pai Rico, Pai Pobre” foi publicado de forma independente em abril de 1997, depois de ter sido rejeitado por várias editoras. Acabou por chegar às listas de bestsellers nos Estados Unidos, em 2000, e transformar o autor num dos nomes mais reconhecidos da literatura de finanças pessoais. Em Portugal, é o livro de finanças pessoais mais vendido e está disponível para compar por 21,95€. 

A premissa do livro parte das diferentes formas de encarar o dinheiro que Kiyosaki atribui a duas figuras paternas e desafia ideias tradicionais sobre salários, poupança, investimento e património. Quase três décadas depois, o norte-americano continua a seguir a parte mais controversa da própria receita. Só que agora fá-lo numa escala de mil milhões.

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