Livros

Boucherie Mendes e os anos 90: “O espírito da década acaba quando perdemos o Euro 2004”

O novo livro do jornalista, lançado esta terça-feira, revisita o bom e o mau que se vivia em Portugal na época, da Expo’98 à Geração Rasca.

Houve uma altura em que os portugueses acreditavam que o emprego seguinte seria melhor do que o anterior, comprar casa parecia estar ao alcance de uma família de classe média e emigrar não fazia parte dos planos de muitos jovens. Para Pedro Boucherie Mendes, essa confiança ajuda a explicar por que razão os anos 90 continuam a ocupar um lugar tão particular na memória coletiva portuguesa.

É essa época que o jornalista revisita em “A Década Fabulosa — Fazer pela Vida em Portugal nos Anos 90”, editado pela Dom Quixote, lançado esta terça-feira, 29 de setembro. Ao longo de 736 páginas, o livro passa pela televisão privada, pelos centros comerciais, pelos primeiros telemóveis, pela TV Cabo, pelas novas autoestradas, pelas manifestações estudantis, por Timor, pela Expo’98 e pela consolidação de uma classe média com acesso ao crédito. 

A viagem é também pessoal. Boucherie Mendes nasceu em 1970 e entrou na universidade precisamente em 1990, numa altura em que frequentar o ensino superior começava a tornar-se uma possibilidade muito mais comum entre os jovens portugueses. Depois vieram a rádio, os jornais e as revistas, num setor que, recorda, parecia estar a entrar numa fase de expansão quase permanente.

À NiT, Pedro Boucherie Mendes falou sobre aquilo que tornou a década “fabulosa”, o nascimento de uma classe média com projetos para o futuro, a chamada “Geração Rasca”, a transformação provocada pela Expo’98, o jornalismo antes da Internet e a nostalgia de um tempo em que, garante, a vida parecia avançar a uma velocidade muito diferente.

Porque é que os anos 90 foram, para si, uma “década fabulosa”?
É uma década que começa de uma maneira e acaba muito melhor do que começou. É quase como uma festa para a qual vais sem grandes expectativas e que, de repente, se torna incrível. Ao longo daqueles anos havia constantemente alguma coisa nova: uma estrada, mais um troço de autoestrada, uma ponte, uma discoteca, uma mudança qualquer que melhorava a vida. E as taxas de juro foram baixando, o que também permitiu às pessoas fazer planos. No fim, ficou essa sensação de que tudo estava a melhorar. 

O livro também acompanha a sua própria entrada na vida adulta. Quem era o Pedro Boucherie Mendes dos anos 90?
Entrei na universidade precisamente em 1990. E os anos 90 marcam também a normalização da entrada dos jovens portugueses no ensino superior. Hoje parece completamente normal acabar o 12.º ano e pensar num curso, mas isso só começa verdadeiramente a generalizar-se naquela altura. Fui para uma área que também estava na moda, ligada à comunicação. Era a década das televisões privadas, das rádios, dos jornais, das revistas, do marketing. Parecia um setor muito estimulante para começar uma carreira. 

Entre todas as mudanças daquela época, qual teve maior impacto na vida dos portugueses?
Não é a resposta mais sexy, mas foi o acesso ao crédito. Um motorista da Carris e alguém que trabalhasse numa loja de um centro comercial passaram a poder ir ao banco e pedir dinheiro para comprar uma casa. Para mim, os anos 90 assinalam o nascimento e a consolidação de uma classe média forte. Antes havia muitas pessoas pobres e uma pequena parte da população com dinheiro. De repente, apareceu uma classe média que conseguia ter um projeto de vida. 

Quando fala em “projeto de vida”, o que é que isso significava na prática?
Comprar uma casa, ter um carro, viajar, casar, fazer uma lua de mel nas Caraíbas. Coisas que até então estavam reservadas a uma minoria passaram a tornar-se relativamente normais. O acesso ao dinheiro permitiu às pessoas imaginar uma determinada vida e fazer planos para a concretizar. 

Havia também uma sensação de que profissionalmente tudo iria continuar a melhorar?
Sim. A meio da década, tínhamos praticamente a certeza de que iríamos arranjar um emprego melhor. Podias estar num sítio e pensar: “Um dia vou para aquele projeto novo e vou ganhar mais.” Isso perdeu-se bastante. Na altura também não imaginávamos que teríamos de emigrar. Achávamos que a nossa vida ia ser feita em Portugal. Essa é uma diferença muito grande em relação às gerações mais novas. 

A capa do livro de Pedro Boucherie Mendes.

Os anos 90 também ficaram marcados por muitas manifestações. A sociedade portuguesa estava mais mobilizada?
Talvez estivesse. Não havia redes sociais e, ainda assim, as pessoas apareciam nas manifestações. Primeiro houve uma grande mobilização dos estudantes em torno do acesso ao ensino superior, depois Timor, o bloqueio da ponte, Foz Côa e várias outras causas. A sensação era de que havia constantemente gente na rua. Curiosamente, não houve uma greve geral durante a década. 

Uma parte desses estudantes ficou conhecida como “Geração Rasca”. Foi um rótulo injusto?
As manifestações que deram origem a esse texto também tiveram alguns excessos. Houve carros virados e outras situações desse género. Mas era uma geração que já tinha crescido num Portugal europeu, depois da entrada na CEE, e que queria coisas. Não queria baixar a cabeça. Queria ir para a universidade, queria exigir mudanças. Nesse sentido, ainda bem que se manifestou. Podem ter existido exageros, mas eram manifestações muito fortes. 

A Expo’98 tornou-se talvez a maior imagem desse otimismo. O que representou para quem viveu aqueles meses?
Durante anos ouvimos falar da Expo sem perceber muito bem o que aquilo ia ser. A zona onde foi construída era praticamente uma lixeira. Depois aquilo abre e, sobretudo durante o verão, transforma-se numa espécie de pequena cidade. Hoje é quase impossível estar no Parque das Nações e imaginar que aquela zona não existia daquela maneira há 30 anos. O impacto foi um pouco: “Porra, afinal somos capazes de fazer coisas em grande.” Claro que também houve críticas aos custos, como há sempre em Portugal, mas aquela sensação existiu. 

Hoje existe uma enorme nostalgia dos anos 90. Como tentou evitar que o livro fosse apenas um “antigamente é que era bom”?
Tentei sempre contextualizar as coisas. A vida hoje é melhor em muitos aspetos. O mundo é muito mais global e tens possibilidades que naquela altura seriam impensáveis. Hoje podes estar sentado em casa e fazer um curso de uma universidade no Canadá ou nos Estados Unidos. Antigamente qualquer coisa dessas exigia uma enorme burocracia. Portanto, eu trocava. Preferia ser jovem hoje. 

Então de onde vem essa nostalgia?
Acho que vem também de o nosso mundo ser mais pequeno. Quando o mundo é mais pequeno, tudo parece fazer mais sentido. Havia ainda uma determinada liberdade. Eu nasci em 1970 e podia sair de manhã e voltar ao jantar sem os meus pais saberem onde estava. Isso hoje seria muito mais difícil. Mas não significa que a vida fosse melhor. É apenas uma coisa que desapareceu. 

Ao escrever mais de 700 páginas sobre a década, descobriu coisas de que já não se lembrava?
Sim. Por exemplo, eu tinha a ideia de que a discoteca Kapital tinha aberto mais cedo, mas abriu em 1993. Foi uma parte importante da vida noturna de Lisboa. Também percebi que algumas memórias coletivas ficaram um pouco baralhadas. Sempre achei, por exemplo, que a famosa feijoada tinha acontecido no dia da inauguração da Ponte Vasco da Gama, mas foi uma semana antes. São pequenos detalhes engraçados que aparecem quando começas a reconstruir uma década inteira. 

Os anos 90 também foram uma época muito particular para começar no jornalismo?
Sim, porque não havia Internet e, portanto, não existia aquela concorrência. Podias realmente achar que a tua vida profissional seria passada a escrever em jornais e revistas. Não havia Netflix, não havia sites, não havia nada disso. Trabalhar num jornal como “O Independente”, o “Expresso” ou o “Público” era uma coisa incrível. Podias imaginar ir a Los Angeles escrever sobre os Óscares. Parecia mesmo uma profissão para a vida. Depois a Internet começou a mudar tudo. 

No livro, a década não termina exatamente em 2000. Qual é, para si, o momento em que aquele espírito acaba?
Há uma sequência de acontecimentos que vai mudando o ambiente: Entre-os-Rios, o 11 de Setembro, a demissão de António Guterres. Antes disso, parecia que estávamos imparáveis. Tínhamos o Nobel de Saramago, João Garcia tinha chegado ao Evereste, tínhamos conquistado a organização do Euro. E depois vem o Euro 2004, aquela loucura das bandeiras nas janelas e aquela enorme mobilização coletiva. Perdemos a final contra a Grécia. Para mim, simbolicamente, a década acaba aí. 

Se pudesse recuperar alguma coisa dos anos 90 para Portugal de hoje, o que seria?
Talvez uma certa normalidade. Ias comer umas febras com batatas fritas com um amigo e pronto. Querias ir a um concerto e não precisavas de estar na Internet a fazer “refresh, refresh, refresh” para conseguires um bilhete. Ias ao cinema, ias jantar fora. Tudo parecia menos acelerado. Hoje há uma intensidade muito maior em tudo. Não estou a dizer que antigamente era melhor. É apenas uma normalidade que acho que se perdeu. 

“A Década Fabulosa — Fazer pela Vida em Portugal nos Anos 90”, de Pedro Boucherie Mendes, tem 736 páginas. O preço é de 29,90€ e já está disponível para venda online. 

ARTIGOS RECOMENDADOS