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Como uma avó da Nova Zelândia se tornou numa escritora mundialmente famosa

Heather Morris, a autora de “O Tatuador de Auschwitz”, deu uma entrevista à NiT onde explica o seu percurso até ao estrelato.
Já escreveu três livros.

Quando Heather Morris estava prestes a reformar-se, após 20 anos a trabalhar num hospital, começou uma nova vida. Esta avó neozelandesa a viver na Austrália tornou-se, quase do dia para a noite, numa autora bestseller mundial. E tudo porque, certo dia, lhe foi contada a história de Ludwig “Lale” Sokolov.

Judeu eslovaco, chegou ao campo de concentração de Auschwitz-Birkenau em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial. Logo no início destacou-se — era um homem charmoso, mulherengo, que tinha chegado bem-vestido. Foi-lhe atribuída a prestigiada função (naquele contexto) de tatuar os números dos seus colegas prisioneiros. 

Durante essa tarefa conheceu uma jovem mulher, Gita, por quem se apaixonou imediatamente. Com os seus pequenos privilégios dentro do campo, entre todo aquele sofrimento, tentou usá-los para fazer o bem. Quando, 60 anos depois, em 2003, contou a história a Heather Morris — desejava que ela a imortalizasse.

Morris, que sempre gostara de contar histórias, de ler livros e ver filmes — embora não tivesse qualquer experiência profissional na área — escreveu um guião baseado nas memórias de Lale Sokolov. Durante vários anos o projeto não avançou. Até que decidiu contar a história num livro. Aquilo que seria uma pequena edição de autor tornou-se num monstro editorial.

“O Tatuador de Auschwitz”, publicado em 2018, tornou-se um bestseller internacional. Em Portugal, já vendeu mais de 100 mil cópias — daí que agora tenha sido publicada uma edição especial comemorativa, através da Presença, que está disponível por 19,90€. Em todo o mundo já foram vendidos mais de seis milhões de exemplares.

O livro foi criticado por especialistas no Holocausto por conter imprecisões históricas, mas Heather Morris defende-se alegando que apenas procurou contar a versão de Lale, baseada nas suas memórias pessoais. O seu sucesso terá levado a que inúmeros outros livros relacionados com profissões nos campos de concentração nazis tenham sido publicados nos últimos anos.

Depois de “O Tatuador de Auschwitz”, Heather Morris escreveu ainda “A Coragem de Cilka” e “Três Irmãs”, outros livros baseados em histórias reais relacionadas com o Holocausto. A NiT falou com a autora do fenómeno, que tem estado a promover a sua nova edição especial em Portugal. Leia a entrevista.

Está em Portugal porque acaba de ser lançada uma edição especial de “O Tatuador de Auschwitz”, uma vez que foram vendidas mais de 100 mil cópias por cá, e muitas mais por todo o mundo. Isto é surpreendente para si?
Sim [risos]. Quando, inicialmente, decidi tentar contar esta história num livro, ia publicar por mim mesma e fazer 100 cópias. Depois, uma editora australiana juntou-se e disse que faziam uma pequena edição nacional. Mas algo aconteceu. E os leitores, em todo o lado, começaram a envolver-se com a história. E adoro o facto de que tenham sido mesmo os leitores a causar as vendas, porque foi através do boca a boca… Sim, as editoras em todos os países fizeram um trabalho maravilhoso, mas foram os leitores.

O sucesso foi muito orgânico.
Sim! Na altura não sabia disso. Contei uma história muito simples, mas pelos vistos leitores de todas as idades, etnias e géneros identificaram-se. Foi algo incrível. Disseram-me que esta seria uma história mais atraente para mulheres, porque é uma história de amor. Mas o número de homens que a leram e me escreveram… são dezenas de milhares.

Quando percebeu de que se estava a tornar algo muito maior do que esperava?
Estava na Austrália, a pensar o que se passava no hemisfério norte — não estou atenta diariamente — e tinha os editores a dizer-me: “Sim, foi muito bom esta semana”. Mas quando, de repente, recebes um email a dizer “és a número 1 da lista de bestsellers desta semana do ‘The New York Times'”, é assim um choque. Tive de o processar. E continuaram a vir os números de outros países, como Portugal. Estou muito grata que a história do Lale esteja a ser ouvida.

A capa da edição especial.

Este livro mudou a sua vida?
Bem, foi lançado no ano em que me iria reformar. Por isso, tem sido uma reforma bem boa [risos], sinto que estou a viver o sonho. Mudou a minha vida, para o bem e para o mal. A melhor coisa tem sido a quantidade incrível de viagens que tenho feito. porque adoro viajar e conhecer pessoas. Porém, viver na Austrália significa que, quando viajo, estou fora durante muito tempo. Tenho cinco netos amorosos que cresceram muito rápido e sinto falta de passar tempo com eles. 

Começou a escrever este livro há muitos anos, durante as conversas com o Lale que se prolongaram no tempo, a partir de 2003. A ideia inicial seria escrever um guião, mas depois tornou-se um livro. Como desenvolveu a história?
Quando estava com o Lale e ele queria alguém que contasse a sua história, não sabia que história é que ele tinha. Não sabia para onde iria. Porque demorou algum tempo para ele confiar em mim e me contar as partes mais profundas e emocionais da história. Sempre admirei os escritores e nunca pensei que fosse algo que eu pudesse fazer, escrever um livro. Não tinha habilidades nessa área. Gostava de filmes, por isso pensei que talvez conseguisse aprender a escrever um guião. E consegues aprender isso online, e a fazer alguns cursos. Aquilo de que gostei mais em escrever, seja que história for, é que os guiões vêm com um conjunto de regras. É seguir as regras, a fórmula e acabas com um filme de duas horas no fim. Foi o que fiz. E agarrei-me a ele durante muitos anos, a querer que fosse visto num ecrã. Grande ou pequeno, não queria saber. 

Apresentou-o a produtoras ou a televisões?
Sim! E durante seis anos uma produtora da Austrália esteve com o projeto. Nesse período, não podia fazer nada com ele. Como não conseguiram que ele fosse feito, recebi os direitos do guião de volta. Estava a visitar a minha irmã e o meu irmão em San Diego, na Califórnia, e num dia a minha irmã só me disse: “Por amor de Deus, escreve lá isso como um livro e despacha isso!”. Foi um pouco um momento de epifania. OK, vou fazer uma tentativa. E foi o que fiz. 

Não tinha qualquer experiência de escrita.
Nenhuma. Ainda não tenho [risos]. Não fiz qualquer curso de escrita, nada. Dizem-me que também é por isso que tive sucesso. Porque não sabia o que estava a fazer e tive uma editora a tentar que o escrevesse como um livro de memórias, depois fiz na terceira pessoa mas era para retirar a terceira pessoa, não estava a resultar bem até que me disseram: “porque não escreve a história que quer que as pessoas leiam?” Foi o que fiz. Mas tenho sempre de dizer que tive editores incríveis, foram uma parte importante da estrutura e na forma como a história acabou por sair. 

O que fazia, antes de escrever?
Durante 20 anos estive a trabalhar no departamento de trabalho social do maior hospital de Melbourne. Acho que me ajudou com o Lale, com os sobreviventes e outras pessoas que conheço. Porque todos os dias lidava com pessoas que tinham passado por algo trágico ou traumático. E o meu treino tinha a ver com reconhecer isso, ajudar no que for possível, recuar quando não havia nada a fazer.

E foi assim que também descobriu a história do Lale.
Sim, absolutamente. Sabia quando o deixar falar, e quando ia muito longe e ficava chateado, sabia quando terminar e tirá-lo daquele sítio para onde ele tinha ido. Ele ia lá atrás, até 1942 ou 1943. E com as habilidades que tinha consegui ajudá-lo a contar a história.

Antes de ouvir esta história, interessava-se pelo Holocausto?
Não… Estava envergonhada, tive de lhe dizer o quão pouco a minha educação neozelandesa me tinha ensinado sobre o Holocausto. E ainda tenho vergonha. Era nada, aquilo não existia… Tinha ouvido falar, mas não sabia nada. Agora sei muito mais.

Representou uma descoberta para si.
Absolutamente. Mas isto também me tornou a pessoa ideal, aos olhos do Lale, porque ele queria falar com alguém que não fosse judeu. No primeiro dia, passado um bocado, disse-lhe: pode dizer-me, por favor, porque é que não quer falar com alguém judeu? E ele disse muito claramente: “Não pode haver uma pessoa judia viva que não tenha sido tocada pelo Holocausto. Como é que posso esperar que conte a minha história, quando têm a sua própria?” Ele queria alguém sem essa bagagem.

À medida que sabendo mais sobre o Holocausto e o que se passou na Alemanha nazi, refletiu sobre a sua importância histórica ou estava mais focada nas memórias específicas do Lale?
Isso foi um desafio, e foi algo sobre o qual falei bastante com os meus editores. Porque havia coisas que ele me dizia que eu não conseguia verificar. Fiquei bastante envolvida nisso durante algum tempo: o que faço aqui agora? Vou ler todos os livros de história? Oiço os académicos? E numa manhã acordei e pensei “eu não estou a contar a história do Holocausto, estou só a contar uma história do Holocausto”. Deu-me a liberdade para escrever o que escrevi e, subsequentemente, envolvi-me em problemas com alguns académicos e historiadores, porque não era a história deles do Holocausto. E disse: é a memória dele. Não lhe podem tirar isso. Conheci muitos amigos dele, outros sobreviventes, e muitos conheceram-no em Auschwitz e disseram: “Todos experienciámos e vimos isto de maneiras diferentes”. É o que acontece com as memórias. A minha filha foi polícia. E ela disse-me muitas vezes: “Gostamos daqueles incidentes, como um acidente de carro ou uma cena de crime, em que só há uma testemunha. Porque só há uma versão do que aconteceu para tentarmos compreender. Se houver mais, é demasiada papelada” [risos].

Heather Morris nasceu na Nova Zelândia.

Quando percebeu que poderia fazer uma trilogia relacionada com o Holocausto?
Bem, não me apercebi, nunca houve indícios de que existiriam outros livros. Só consegui contrato para um livro. Mas, muitas, muitas vezes, quando estava com o Lale, ele dizia-me: “sabes, quando acabares de contar a minha história” — e levantava o dedo e dizia “mas só mesmo quando contares a minha” — “tens de falar ao mundo da Cilka”. Ela foi a pessoa mais corajosa que ele alguma vez conheceu. “O mundo precisa de saber dela.” Então incluí a história dela na dele. Apresentei um aperitivo desta rapariga e do que ela passou. E o que esperava que acontecesse aconteceu. Os leitores começaram a escrever-me e à editora, a dizer que queriam saber mais sobre a Cilka. “Estou a googlar a Cilka e não consigo encontrar nada.” Então consegui o contrato para mais um livro. Em 2019, estava na África do Sul a promover esse livro, quando recebi um email. Li-o à uma da manhã e era de um homem que vivia no Canadá. Ele escreveu-me a dizer que tinha comprado uma cópia de “O Tatuador de Auschwitz” no aeroporto de Toronto, para ler enquanto voava para Tel Aviv, onde foi visitar a mãe. Deixou o livro na mesa da mãe e uns dias depois ela tinha reparado nele, olhado para a capa e disse-lhe: “Aquilo tem de ser sobre o Lale e a Gita”. E ele escreveu-me: “Perguntei-lhe como poderia ela saber”. Ele não tinha dito nada. E ela: “olha para o número no braço da rapariga, agora olha para o número no meu braço. São só três de diferença, é a Gita!” Escrevi-lhe de volta, e uns dias depois pediram-me para falar com ela ao telefone. E esta linda mulher de 94 anos disse-me: “Há tanto que te quero contar sobre o Lale e a Gita”. E eu disse: “Tenho tempo”, pensando que ela iria falar ao telefone. Depois ela disse: “Não gosto de falar ao telefone, tens de me vir visitar”. Dois dias depois, voei de Joanesburgo para Tel Aviv, e mergulhei nas vidas de Cibi, Magda e Livia. Elas não me pediram para escrever a história, simplesmente aconteceu enquanto me iam contando. Depois as famílias juntaram-se e aí é que me pediram, quando já não estava lá. Nunca ia dizer que não.

Pondera escrever mais livros deste género?
Estou a trabalhar num agora. Não é sobre o Holocausto, afastei-me disso por várias razões. Gosto de escrever ficção histórica e que seja recente, nomeadamente a Segunda Guerra Mundial, por causa dos ecos que ainda existem, das pessoas que permanecem vivas. E há histórias incríveis. Mas afastei-me da Europa, porque havia outra guerra a acontecer ao mesmo tempo. Era uma guerra em que os australianos e os neozelandeses estavam mais envolvidos. Foi na região da Ásia-Pacífico. 

Também se baseia numa história real?
Sim, é sobre um grupo de mulheres, umas enfermeiras australianas e umas mulheres britânicas que faziam parte da aristocracia e viviam nas colónias. Estavam juntas num barco a tentar fugir de Singapura e depois foram, durante três anos, prisioneiras de guerra dos japoneses na selva. Ninguém no mundo sabia que elas existiam. 

Como é que a sua família tem reagido a esta sua reforma excecional?
Para eles sou apenas a mãe e a avó. Acredito que estejam orgulhosos e penso que se gabam um pouco. Um dos meus netos tinha uns quatro ou cinco anos quando “O Tatuador de Auschwitz” saiu, estava com ele num centro comercial e ele costumava correr para as livrarias, ia ao balcão e dizia “tu tens o livro da minha avó!”. Eles mostravam-lhe o livro e tal. Mas… Estive em Nova Iorque e fiz uma palestra sobre o Holocausto, havia lá quase mil pessoas. Algumas horas depois, apanhei um avião e voltei para a Austrália. A minha filha tinha tido um bebé, que tinha seis semanas quando eu tinha saído, e tinha estado fora quase dois meses. Então fui imediatamente vê-la e à sua família. Abri a porta, entrei e o meu genro a dirigir-se a mim com o bebé nas mãos e a dizer “A avó está em casa! Toma, o bebé precisa que lhe mudem a fraldinha”. Então fui destes momentos incríveis em Nova Iorque para mudar a fralda de um bebé.

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