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Da violência doméstica às drogas: as revelações chocantes da biografia de Will Smith

Viveu num ambiente de terror na infância e chegou a ponderar matar o pai. Revela tudo em "Will", o seu livro de memórias.
O ator de 53 anos conta tudo

Tinha apenas nove anos mas a imagem permanece bem viva na mente de Will Smith. No meio de uma habitual discussão, o pai deu um soco na cabeça da mãe. “Vi-a cuspir sangue. Esse momento naquele quarto, provavelmente mais do que qualquer outro momento da minha vida, foi o momento que definiu quem eu realmente sou”, recorda o ator.

Ter sido um mero espectador de um ato de tanta violência sobre a mãe acabaria por lhe ficar bem gravado na memória. “Em tudo o que fiz desde então — os prémios e conquistas, a atenção mediática, as personagens, as gargalhadas — está implícito um subtil pedido de desculpas à minha mãe pelo facto de não ter feito nada nesse dia. Por lhe ter falhado. Por não ter confrontado o meu pai. Por ter sido cobarde.”

Esta e muitas outras revelações são feitas em “Will”, o livro de memórias que o ator acaba de lançar em parceria com Mark Manson (autor do best-seller “A Arte Subtil de Saber Dizer Que-se Foda”). A biografia foi oficialmente lançada a 9 de novembro.

Nela, o ator de 53 anos revisita toda a sua vida, da atribulada relação com os pais ao êxito como Príncipe de Bel-air, da carreira musical aos momentos mais simbólicos como artista, pai e marido. “A história de como uma pessoa conseguiu dominar as suas emoções, escrita de uma forma que pode ajudar todos os outros a fazerem o mesmo”, descreve o livro.

Uma das mais penosas viagens das relembradas nas mais de 400 páginas leva-nos à infância de Smith: durante vários anos assistiu aos maus-tratos a que o pai, Willard Carroll Smith, sujeitava a mãe, Caroline Bright. A violência levou a que Bright acabasse por sair de casa.

“Estava farta”, escreve. “Saiu para trabalhar e nunca mais voltou a casa. Não foi para longe, apenas para uns quarteirões de distância, em casa da minha avó Gigi, mas a mensagem era clara: não ia aturar mais aquilo.”

Smith acompanhou o pai, Willard Carroll Smith, até à sua morte em 2016.

O abandono da mãe foi duro para Smith que, aos 13 anos, considerou o suicídio pela primeira vez. “Pensei em usar comprimidos; sabia de um miúdo que tinha perdido as pernas nas linhas do comboio; via pessoas cortarem os pulsos em banheiras na televisão. Mas o que continuava presente na minha cabeça era a memória de ouvir a minha avó dizer que o suicídio era um pecado.”

A mente de Smith viajou por outros corredores negros, como o que atravessou quando o pai já era mais velho e lutava contra um cancro. O ator cuidou dele, mas nunca esqueceu a violência vivida na casa de infância em Filadélfia.

“Uma noite, enquanto o empurrava delicadamente na cadeira de rodas, rumo à casa de banho, fui tomado pela escuridão. O caminho entre as duas divisões passava pelo topo das escadas”, recorda. “Ainda em criança, sempre disse para mim próprio que um dia me vingaria do que fez à minha mãe. Quando fosse suficientemente grande, suficientemente forte, quando não fosse um cobarde, daria cabo dele.”

Foi nessa ocasião que todos estes pensamentos se concentraram num momento negro — ponderou efetivamente matar o pai. “Parei no topo das escadas. Podia atirá-lo escadas abaixo e facilmente me safaria. Mas no momento em que décadas de dor, raiva e ressentimento acalmaram, abanei a cabeça. Continuei a encaminhá-lo até à casa de banho.”

O pai de Will Smith, veterano da Força Aérea e engenheiro, haveria de morrer em 2016, vítima de cancro. O ator recorda-o com um sentimento agridoce. “O meu pai atormentava-me e, ao mesmo tempo, foi um dos melhores homens que conheci”, conta. Apesar do alcoolismo e da violência, estava sempre presente quando era necessário.

“Estava em todas as minhas partidas, nas peças, nos recitais. E estava sempre sóbrio nas estreias de todos os meus filmes”, escreve Smith. “Foi uma das grandes bênçãos da minha vida, mas também uma das maiores fontes de dor.”

Além da violência propriamente dita e das cicatrizes psicológicas que o pai lhe inflingiu, Smith teve que puxar da carteira quando, em 1997, ao fim de 20 anos de separação, a mãe meteu finalmente os papéis para o divórcio. Por pagar estavam mais de 130 mil euros de pensão de alimentos, um valor que o pai não tinha.

O livro de memórias que Will Smith escreveu com a colaboração de Mark Manson foi lançado a 9 de novembro.

“Estava de mãos atadas. O pai não tinha esse dinheiro e a mãe não abdicava de o receber Em nenhum cenários deixaria o meu pai ir para a cadeia”, relata. Acabaria por transferir a quantia para a conta do progenitor que, por sua vez, trataria de encerrar o assunto. Assume-se então como “a primeira pessoa na história da Pensilvânia a pagar a sua própria pensão de alimentos”.

A mãe acabou por descobrir o esquema e apesar de ter ficado irritada, devolveu todo o dinheiro que recebeu.

Amores atribulados

Uma das primeiras namoradas de um já famoso Will Smith foi Melanie Parker — que rapidamente se tornou rapidamente no foco principal da sua via. Pelo menos, até se perder entre outras pessoas do sexo oposto. “Fazia sexo com tantas mulheres, e isso ia tanto contra o meu ser, que desenvolvi uma espécie de reação psicossomática aos orgasmos. Ficava literalmente louco e por vezes chegava a vomitar.” A relação, claro, acabaria por terminar, num momento a que Smith chama de “um dos mais negros” da sua vida.

Sheree Zampino foi a sua primeira mulher. Casaram em 1992 e ,ao fim de três anos, a relação entrou num beco sem saída. Entre as ruínas deste primeiro casamento conheceu Jada, por quem admite ter sentido uma atração imediata, sem nunca ter traído a esposa.

Zampino acabaria por apresentar os papéis do divórcio a Will Smith, que revela ter recebido um conselho valioso do produtor de “O Príncipe de Bel-Air”, Quincy Jones, enquanto se debatia com a divisão dos bens e do dinheiro. “Dá lá metade as coisas à tua mulher, diz-lhe que a vês no Natal, e avança com a tua vida. Dentro de um ano já ganhaste outro tanto. Passa o cheque e segue em frente.” Cinco dias depois da oficialização do divórcio, Smith ligou a Jada: “Agora andas comigo.”

A relação entre os dois atores fluía, apesar de alguns problemas, sobretudo do lado de Smith, que sofria de “ciúmes raivosos” da relação de Jada com o famoso rapper Tupac Shakur. “No início da relação, a ligação entre os dois torturava-me. Ele era o Pac. Eu era eu”, conta. “Ele fazia com que eu me considerasse um cobarde. Odiava não ser como ele era. Queria que a Jada olhasse para mim como olhava para ele.”

O casamento que dura até hoje — são já 24 longos anos (apesar de estarem separados desde 2015) — teve os seus altos e baixos. Uma das crises aconteceu em 2011, por altura do 40.º aniversário de Jada.

Will Smith era então uma das estrelas mais requisitadas do mundo e o casamento começava a dar os primeiros sinais de fragilidade. “Algo estava a mudar”, conta Smith, que reparava nos “choros diários de Jada”.

Obcecado com o sucesso, Smith projetou a sua mentalidade ganhadora em todos os membros da família. Ninguém gostou e gerou-se “uma insurreição familiar”. “O papá criou a imagem de uma família na sua cabeça, mas nós não correspondemos a essa imagem ”, ter-lhe-á dito a filha Willow.

Organizar uma mega festa de aniversário era a sua forma de tentar apagar todos os problemas. Ocorreu durante três dias num hotel no Novo México, entre família e amigos, artistas convidados, documentários sobre Jada, tudo do melhor e do mais extravagante possível. Quando a festa terminou e o casal se encontrou a sós no quarto, Jada explodiu.

Will Smith e Jada têm dois filhos, Jaden e Willow.

“Esta foi a mais nojenta exibição de um ego que vi na minha vida”, terá dito Jada. “Respondi-lhe que era uma ingrata e que nunca mais faria nada por ela”, nota o ator. “Desisto de tentar fazer-te feliz. Estás livre. Livre de ir buscar a felicidade e provar-me que isso é possível. Desisto. Vai à tua vida e eu vou à minha.”

Smith percebera que “o casamento não estava a funcionar”. “Não valia a pena fingir mais. Estávamos os dois absolutamente miseráveis.” A separação oficial aconteceu em 2015.

O episódio atirou o ator para uma profunda crise existencial. Decidiu então viajar para o Peru, onde passaria 14 dias num retiro silencioso de auto-descoberta. Acompanhado por um xamã, participou em pelo menos 12 rituais nos quais se consome ayahuasca, um poderoso chá psicoativo.

A experiência, diz o ator, ajudou-o a atingir várias epifanias. Sentiu-se “a flutuar no espaço” onde conheceu uma “mulher que não podia ser vista”. Chamou-lhe mãe. Foi nessas alucinações que percebeu “a zona de guerra” que era a sua mente. E que finalmente compreendeu: “Se sou assim tão belo, não preciso de filmes recordes de bilheteiras para me sentir bem comigo próprio. Se sou assim tão belo, não preciso de vender discos para me sentir merecedor de amor. Se sou assim tão belo, não preciso da Jada ou de mais ninguém para me sentir validado.”

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