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Do dildo ao aspirador: os 101 objetos que contam a história das mulheres

"As mulheres continuam a ser vistas como objetos ou apenas como detalhes nas vidas dos homens", afirma Annabelle Hirsch.
Uma viagem pelo feminismo (e não só).

“Hoje, os objetos de tortura já não são usados, mas as mulheres continuam a passar por várias situações que são bem piores do que isso”, começa por sublinhar Annabelle Hirsch à NiT. A escritora aponta como exemplo os julgamentos por violação. “São muito difíceis para as potenciais vítimas, e isso prova o quão pouco avançámos. Os dedos das mulheres já não esmagados, como acontecia no século XVII, mas a dor pode ser ainda mais excruciante.”

O livro “Uma História das Mulheres em 101 Objetos” da autora de 38 anos, com raízes alemãs e francesas, chegou a Portugal esta terça-feira, 20 de fevereiro. Tal como o nome dá a entender, aborda instrumentos, aparelhos, utensílios criados por elas, ou que eram usados para as controlar ou que tiveram um grande impacto na sua vida.

Quando apresentou a ideia inicial aos editores explicou, “de forma algo ingénua”, que queria contar toda a história das pessoas do género feminino. Quando começou a investigar percebeu que tinha embarcado numa missão impossível. “Percebi que é algo muito pessoal. Como eu sou Ocidental, não ia conseguir contar de forma justa a história das mulheres asiáticas ou africanas. Precisaria de anos para o conseguir fazer e, mesmo assim, poderia acabar por escrever coisas incorretas”, aponta.

Optou, então, por se restringir ao passado recente da região do globo que conhece melhor. Para se preparar, começou por “ler muito”. Comprou publicações como “History of Women in the West, Volume I: From Ancient Goddesses to Christian Saints” de Michelle Perrot, e trabalhos que falavam do período da antiguidade aos anos 70 e 80.

Além de apostar nos clássicos, também mergulhou em livros lançados na última década e meia. Afinal, “fizemos muitas novas descobertas nos últimos 10 ou 15 anos”, comenta a autora de 38 anos.

Durante o processo de escrita, decidiu seguir uma ordem cronológica, visto que também foi assim que estudou. É, portanto, uma viagem pela história, onde se vê a evolução da humanidade e, tal como é habitual, “os avanços e retrocessos no que diz respeito aos direitos femininos”.

Escolher apenas 101 objetos para compor a obra editada em Portugal através da Planeta não foi uma tarefa fácil. “Era muito importante não abordar apenas o poder, a sexualidade ou a arte, mas sim mostrar um cenário o mais abrangente possível. Mas é claro que estes também estão presentes”, destaca. Incluiu objetos que suscitam curiosidade e outros mais familiares.

Uma obra muito diferente.

Algo que sempre esteve presente na sua mente desde que começou a idealizar este trabalho foi o facto de querer contar este percurso recorrendo, lá está, a objetos. E o porquê é bastante simples: “São uma ponte entre o presente e o passado. Foram testemunhas de tudo o que já aconteceu, e agora ouvem o que passa hoje em dia. Através deles conseguimos perceber muito da sociedade”, sublinha. “As mulheres continuam a ser vistas como objetos ou apenas como detalhes nas vidas dos homens”, reforça Hirsch.

Entre os artigos que selecionou, facilmente destaca um: o batedor utilizado nos tanques onde as mulheres francesas de localidades rurais lavavam a roupa no século XIX. Tem um grande significado para si. “A minha avó é francesa e usava-o diariamente. Lavavam e batiam nas peças com isto”, começa por explicar.

Naqueles lugares apenas entravam mulheres, e “era o único espaço feminino nas aldeias”. Era ali que todas se juntavam, falavam sobre a sua vida, choravam e riam em irmandade. “Elas não podiam ir para um bar como os homens”, lamenta. Era uma tarefa fisicamente árdua, mas que elas agradeciam. Com o aparecimento da máquina de lavar, os tanques públicos tornaram-se obsoletos. “Deixaram de ter um motivo válido para saírem de casa e estarem com as amigas”.

Uma boneca amazona, um dildo de vidro, espartilho de metal, esmagador de polegares, o biquíni, aspirador, tesoura, minivestido, o perfume Chanel N.º 5, a máquina de costura e o copo menstrual são apenas outros dos exemplos de artigos cujas histórias são contadas neste trabalho.

Com este livro, o principal objetivo de Annabelle é “retratar a herança feminina e manter o passado vivo durante muito tempo”. Também quer que todas as leitoras se sintam menos sozinhas. Os homens, claro, não ficam esquecidos: “gostava que os ensinasse a serem mais compreensivos e meigos”. Para ela, toda a ajuda na causa feminista é importante, “e até os passos mais pequenos são passos”.

A obra já foi elogiada por muitas celebridades. A atriz Olivia Colman, por exemplo, considera que “os dons de observação íntima de Hirsch transformam este mundo num registo vivo e estimulante de tudo aquilo com que nos debatemos”.

“Este livro é um lembrete para que não nos esqueçamos de que as mulheres são e sempre foram, seja em silêncio ou em voz alta, na periferia ou no centro do palco, o motor, a cola, a inspiração por detrás de tudo”, considera a também atriz Gillian Anderson afirma: 

“Uma História das Mulheres em 101 Objetos” tem 429 páginas e está à venda nas livrarias e online por 21,90€. No entanto, está atualmente com um desconto de 10 por cento, baixando o preço para 19,71€.

Carregue na galeria e conheça algumas das obras mais aguardadas de 2024.

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