Livros

Esta livraria de Braga tem um jardim secreto num palacete do século XVIII

Na Centésima Página não faltam obras para os miúdos, muita poesia e não só. É o sítio ideal para "cuscar" com os amigos.
É um refúgio no coração da cidade.

Valter Hugo Mãe, Lídia Jorge, António Lobo Antunes, Hugo van der Ding e Raquel Varela são alguns dos nomes que vai poder encontrar em cima das mesas da livraria Centésima Página, em Braga. Todos estes autores já passaram por lá para participarem em eventos especiais, como apresentações das suas obras ou conversas com o público.

O espaço foi inaugurado a 26 de novembro de 1999, por Helena Veloso, de 58 anos, Maria João Lobato, também de 58, e Sofia Afonso, de 57. As três mulheres têm backgrounds profissionais diferentes, vindo de áreas como a consultoria e da chefia de gabinetes de informação. Mas também tinham uma paixão em comum: a literatura.

“Na altura queríamos apresentar um projeto um bocadinho diferente daquilo que nós, enquanto leitoras, encontrávamos ver em Braga. Não havia nada assim no País”, conta Sofia Afonso à NiT.

O negócio abriu originalmente ao pé da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa. Seis anos após a inauguração, surgiu a oportunidade de irem para um lugar ainda melhor. A Centésima Página passou, então, a ocupar o rés do chão de um palacete do século XVIII. O objetivo manteve-se: oferecer uma experiência única.

A livraria tem, segundo a fundadora, uma oferta mais especializada e que responde a diferentes nichos. Há, mesmo assim, um grande foco: a secção infantojuvenil. “Desde a primeira hora que apostamos nela e investimos nesse segmento. Temos também uma pequena área de banda-desenhada e uma importante secção de filosofia, poesia e literatura traduzida.”

Ali tentam não obedecer àquela ordem imposta das novidades cuja rotatividade é “ultrarrápida”. “Tentamos fazer com que o livro fique na livraria para que seja descoberto ou redescoberto pelas novas gerações. “Queremos surpreender todos os leitores que lá vão — o que exige, claro, um trabalho contínuo”.

Acima de tudo, a Centésima Página pretende ser um local de encontro numa cidade que parece ser cada vez menos para as pessoas, segundo as fundadoras. Convida os clientes a relaxarem, a “cuscarem e falarem”. “Não é um espaço em que entramos e saímos de seguida”, realça.

Isto só é possível graças ao jardim que se esconde na livraria que tem, no total, cerca de 300 metros quadrados. Estes espaços verdes têm agora uma importância ainda maior, sobretudo após a pandemia. Infelizmente, estão a desaparecer das grandes metrópoles.

“As pessoas procuram isto, mas os fazedores de cidades ignoram-nas. Nos dias de hoje, a tranquilidade e o silêncio valem ouro”, confessa Sofia. Também é ali que pode provar alguns dos pratos disponíveis no café do empreendimento, onde não falta comida portuguesa e propostas saudáveis.

Dentro daquelas paredes respira-se arte e cultura, algo que sempre fez parte da filosofia do negócio. Logo à entrada encontra, por exemplo, caixas de música de algumas das sagas mais conhecidas do cinema, como “Star Wars” ou “Harry Potter”. “A coluna vertebral são os livros, mas apelamos a muitas outras linguagem e criamos uma constelação que une o som ao visual.”

A Centésima Página também conta com várias exposições temporárias ao longo dos meses, cujas obras são muitas vezes criadas por artistas locais. No 25 de abril, vão ter uma mostra especial à volta deste tema.

Claro que nem tudo foi fácil ao longo destes 25 anos de história do projeto. Muito pelo contrário. Tal como Sofia diz, “obstáculos e crises são o chão de uma livraria”, especialmente quando é independente.

Neste mercado, a rentabilidade é “praticamente inexistente”. A especulação imobiliária que tem levado ao encerramento de várias livrarias históricas é outro dos grandes problemas.

“Esta tem uma lógica fundamental de destruição de património, e é algo apoiado apenas pelos defensores do dinheiro. O valor dado ao dinheiro continua a eliminar tudo aquilo que é bom na sociedade”, lamenta. “São as livrarias, e não só, que fazem as cidades.”

Carregue na galeria para conhecer melhor a livraria mais bonita de Braga.

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