A estátua de Natália Correia, na Graça, em Lisboa, foi vandalizada e parcialmente danificada na noite de quinta-feira, 16 de abril. Foram desenhadas por cima da instalação várias suásticas, símbolo nazi, num episódio que volta a levantar preocupações sobre o aumento deste tipo de ataques na cidade.
A obra, instalada num parque infantil na rua com o nome da escritora, em frente da Junta de Freguesia de São Vicente, já tinha sido alvo de vandalismo há cerca de oito meses.
Segundo o presidente daquela junta lisboeta, André Biveti, os danos foram “identificados na manhã de sexta-feira e rapidamente removidos”, aqui citado pelo “Observador”. Nos últimos meses, têm sido registados vários casos semelhantes na zona, com inscrições e símbolos de ódio em espaços públicos e privados.
Como é que a própria Natália Correia olharia para este episódio? Para saber a resposta, a NiT falou com Filipa Martins, autora da mais recente biografia da escritora “O Dever de Deslumbrar”, lançada pela Contraponto em 2023. “A suástica não profana a pedra, profana quem a desenha”.
Para a escritora, de 43 anos, Natália veria este ato não como uma ofensa pessoal, mas como um sinal mais profundo. “Seria menos um ataque a ela e mais um sintoma: o regresso da ignorância mascarado de provocação.”
Filipa Martins recorda que Natália Correia sempre foi uma figura profundamente ligada à liberdade e à crítica do autoritarismo. “Ela tinha horror ao fanatismo e à mediocridade travestida de poder. Era uma mulher livre, sem espartilhos, e tudo o que representava chocava com esse tipo de símbolos.”
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A reação, acredita, seria tão mordaz quanto lúcida. “Consigo imaginá-la a dizer: ‘Os bárbaros rabiscam monumentos porque não sabem erguer nenhum’.” Para a autora, este tipo de vandalismo revela precisamente isso: “Quando não se conseguem criar valores, tenta-se destruir os que já existem.”
Mais do que indignação, haveria análise. “Ela colocaria estes atos no banco dos réus da estupidez, mas também faria uma reflexão mais profunda. Sabia que os símbolos totalitários aparecem sempre quando a memória adormece.”
A biógrafa sublinha ainda que este tipo de episódios não surgem isolados. “Quando há uma normalização do discurso de ódio, estas situações tornam-se inevitáveis. Não basta limpar a tinta: é preciso limpar a complacência com o ódio”.
Filipa Martins acredita que Natália Correia antecipou, de certa forma, este tipo de cenário. “Ela criticava uma sociedade sem imaginação moral e sem sentido de comunidade. Quando tudo se reduz a números e interesses económicos, abre-se espaço para o ressentimento e é aí que o extremismo cresce.”
No fundo, conclui, o ataque à estátua é também um ataque ao que a escritora representava. “É um sintoma dos tempos e um ataque à ideia de liberdade que ela sempre defendeu”.
Natália Correia foi uma das figuras mais marcantes da literatura portuguesa do século XX — morreu em março de 1993, aos 69 anos — e fundadora do icónico bar Botequim, na Graça, e uma voz ativa contra o conservadorismo e a censura. O busto vandalizado foi inaugurado em 2023, no âmbito das comemorações do centenário do seu nascimento.
A escritora Filipa Martins está a preparar o lançamento do seu novo livro, “No Fim Está o Começo”, um diálogo biográfico sobre três mulheres da sua família. A apresentação do romance está marcada para 23 de abril, às 18h30, no piso 6 do El Corte Inglés, em Lisboa, com a participação do escritor Gonçalo M. Tavares e uma sessão de leitura realizada pela radialista Inês Meneses.








