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Fátima Lopes: “Vou voltar à televisão quando fizer sentido. Não sei a fazer o quê”

A NiT entrevistou a apresentadora, que tem um novo livro e está a apostar nos projetos digitais, depois de ter deixado a TVI.
Fátima Lopes quer concretizar os sonhos para os quais nunca teve tempo.

Fátima Lopes lançou em maio um novo romance, “Encontrei o Amor Onde Menos Esperava”, que fala sobre uma mulher de meia-idade que decide mudar de vida de forma repentina. Trata-se de uma história relativamente inspirada pela pandemia e que coincidiu com a saída da apresentadora de 52 anos da TVI.

A ideia para a narrativa era anterior, mas Fátima Lopes só mergulhou realmente no processo de escrita após sair da rotina absorvente da televisão. O enredo acompanha Sofia, uma mulher de 49 anos sem filhos, que perdeu a mãe e a avó, com uma vida marcada por uma série de relações falhadas e muito centrada na sua carreira.

A edição da Planeta tem 256 páginas e está disponível desde 18 de maio. Pode ser encomendada por 13,95€. Leia a entrevista da NiT com Fátima Lopes sobre o romance, a saída da televisão e a aposta em novos projetos.

Quando é que teve a ideia para escrever este livro, quando é que pensou nesta história?
A ideia surgiu mais ou menos em outubro do ano passado. Nessa altura já tínhamos uns bons meses de experiência de pandemia e, na altura, achávamos nós, do pós-pandemia — afinal não foi nada disso. E portanto comecei a pensar nas pessoas que se tinham cruzado comigo, pessoas que deram uma grande reviravolta e deixaram as cidades onde viviam e foram viver para as aldeias da família, onde tinham casa. Tive vários exemplos de pessoas próximas de mim que fizeram isso, muitas por terem filhos e por poderem andar mais na rua. Esta ideia de vidas que se reconstroem e que renascem, de pessoas que têm coragem de dar uma grande volta, foi-me ficando. Primeiro, escolhi escrever sobre uma mulher porque gosto de escrever sobre mulheres. Mas achei que tinha de ir buscar uma mulher que não tivesse muitas daquelas coisas que a sociedade espera que uma mulher tenha numa certa idade. Ou seja, ela tem 49 anos, supostamente deveria ter uma relação estável, supostamente já deveria ser mãe, supostamente uma série de coisas — e ela não era nada disso. E portanto foi com esta mulher, com uma vida que tinha coisas boas — ela já trabalhava a partir de casa e neste livro nunca se fala de pandemia — e era designer. Mas tinha falhas que têm a ver com amor próprio que são muito importantes e ela vai à procura de preencher esses vazios e tem a coragem de mudar. E as pessoas que têm a coragem de mudar para mim merecem sempre que se lhes tire o chapéu. 

Inspirou-se nalguma coisa em particular para criar esta personagem?
Não, acho que foi um bocadinho ir à procura de coisas contrárias a mim. Não nos valores, porque os valores da Sofia são os meus — assumidamente — mas foi ir à procura de experiências de uma pessoa que tivesse vivências que eu não tinha tido. Por exemplo, ela não tem filhos — eu tenho dois. Ela infelizmente já perdeu um dos pais. Eu graças a Deus tenho cá os meus. Ela não tem irmãos, eu tenho uma irmã. Ela nunca teve uma relação que fosse longa e satisfatória, eu tive dois casamentos e guardo muito boas recordações deles. Portanto, eu quis um pouco construir “como é que seria se” e “como é que seria se”. E é um exercício giro de se fazer.

Apesar de todas estas diferenças, a personagem da Sofia tem mais ou menos a idade da Fátima. Também é importante para poder usar a sua bagagem de vida ou imaginar que vida poderia ter alguém com a mesma idade, noutras circunstâncias? Ajuda a construir a personagem?
Sim, obviamente que ajuda. Se eu ponho esta mulher a chegar aos 50 anos, e eu já os passei, tenho aqui a experiência de vida. Mas a opção da idade teve a ver com eu querer passar esta mensagem de que nunca é tarde para nós mudarmos ou recomeçarmos. E portanto ela tinha de ter uma idade que justificasse este tipo de avaliação. Dizer isto a uma pessoa de 20 anos… é normal que nessa idade se faça 80 mil mudanças. Já aos 50 muita gente torce o nariz e diz “se calhar é um bocadinho tarde para te aventurares numa mudança tão grande”. E ela na verdade o que quer provar é que nunca é tarde demais para fazer uma mudança. Eu aprendi num retiro que fiz com o padre Vasco Pinto Magalhães, que se chama Retiro do Meio da Vida, que aos 50 nós estamos mesmo no meio da vida. Logo, temos tanto para viver como já vivemos até aí. Então não é tarde para nada. É só mais uma altura da nossa vida. E eu quis passar esta mensagem.

O livro coincidiu com uma altura também de mudança na vida da Fátima, quando deixou a TVI. Obviamente foi uma coincidência, mas sente que se pode fazer aqui um paralelismo, com a questão das mudanças de vida e de nunca ser tarde para mudar?
É normal que as pessoas façam esse paralelismo. Mas quando eu comecei a escrever a história eu não imaginava que a minha própria vida ia dar esta volta. Mas são as tais coincidências que eu acredito que nunca são por acaso. Há sempre um propósito, mas certo é que a minha própria vida levou uma grande volta. O que é interessante. Acaba por ser, também para mim, uma oportunidade de repensar a minha vida à medida que escrevo. Porque eu mergulhei a fundo no livro quando saí da televisão, porque tinha mais tempo. E aí, se esta personagem já era de mudança, eu estava a viver na pele o que era mudar, e achei que isso ainda me dava mais energia para escrever. Talvez por isso eu tenha escrito este livro em tempo recorde.

Quanto tempo foi?
O primeiro draft do livro fi-lo em outubro, na altura já tinha um esquema do que é que queria que fosse este livro. Já tinha as mensagens principais definidas e a minha editora já tinha aprovado, gostavam desta ideia de romance. Escrevi alguma coisa em outubro e novembro, mas pouco, depois mete-se dezembro que em televisão não deixa margem para nada. E em janeiro saio da televisão e a partir do momento em que saio, no final do mês, quando já tinha a minha vida resolvida, eu mergulho e num mês e meio ou dois meses estava tudo escrito.

O livro está disponível online e nas livrarias.

Como tinha mais tempo, dedicou-se realmente ao livro.
O meu escritório foi o espaço onde estive alguns dias sentada oito horas a escrever. Saía só para as refeições. Como tinha a ideia e a história toda na minha cabeça, foi fácil.

A Fátima já escreveu outros livros enquanto fazia televisão, já tinha essa experiência. Foi mais fácil agora? Gostou mais do processo de escrever o livro por ter coincidido com esta mudança?
Foi mais fácil, porque tinha mais disponibilidade mental e de tempo. Todos os outros livros foram escritos com muito esforço. Porque, como eu tinha programas diários, restava-me pouco tempo. Normalmente eu roubava às horas de cama tempo para escrever. E isso não é saudável para ninguém. Mas não tinha muitas alternativas, só se roubasse à família — e não queria. Por isso, sacrificava-me eu. Agora, no horário normal de trabalho, enquanto os meus filhos estavam nas aulas por Zoom, sentava-me ao computador e a trabalhar como eles. Fazíamos as refeições juntos e eu voltava para o computador. E esta rotina fez com que fosse possível… até porque eu sou bastante rápida a escrever, tenho excesso de ideias e não falta delas, por isso é fácil.

Tem alguma coisa que sirva de estímulo para a escrita ou que a deixe mais produtiva ou confortável nesse processo?
Não preciso [risos], tenho um problema que é parar o meu fluxo mental. Normalmente tenho logo ali três ideias para cada situação. O problema não é “ai, não tive ideias”. O problema é “quais das três ideias é que vou escolher?”. Estou numa encruzilhada, por qual dos caminhos é que a vou fazer seguir? Quando é assim, quando não sei muito bem o que decidir, normalmente dou uma voltinha. Vou à rua, levo o cão, vou ao jardim, respiro um bocadinho e organizo as ideias. E depois volto, sento-me e continuo a trabalhar.

Há alguém com quem partilhe as ideias quando está muito indecisa?
Quando estou a escrever, a única pessoa com quem partilho ideias é mesmo com a minha editora, a Sofia Monteiro. Com ela partilho e digo-lhe e peço-lhe a opinião. Por norma, é a única pessoa com quem partilho ideias neste processo criativo. Porque cada cabeça, sua sentença. E se a pessoa se põe a pedir opiniões a três ou quatro amigos, vai ter três ou quatro opiniões e vai ficar ainda mais baralhada. Não vale a pena, não vai ajudar. E escrever, pelo menos para mim, é um processo muito solitário. Mas eu gosto disso, sou eu e as minhas palavras. Sou eu e os meus sentimentos, que aplico numa personagem, ou que imagino que alguém pudesse sentir. E é um laboratório em que tenho de ser eu a pôr os pózinhos de perlimpimpim, se não não faz sentido.

Obviamente há um grande contraste entre esse processo solitário e o processo de fazer televisão. Também foi por isso que sempre gostou de escrever, para haver um equilíbrio?
Não sei se o gosto da escrita vem por contraponto à televisão. A televisão vai ser sempre apaixonante para mim, eu não deixei de gostar de fazer televisão. 

Claro, mas são dois métodos de trabalho muito diferentes.
São duas formas de comunicar muito diferentes. Em televisão, nós trabalhamos com uma equipa e o nosso trabalho é resultado do trabalho de uma equipa e se não for visto assim, é alguém que está só focado em si e não vê a realidade. Nós não fazemos nada em televisão sem uma equipa. Escrever livros é mesmo solitário. Mas eu gosto disso, sou uma pessoa que gosta de momentos de silêncio, gosto de estar sozinha. Por exemplo, gosto de passar um fim de semana sozinha, não me importo nada. Gosto de ir ao cinema sozinha, gosto de dar um passeio sozinha. Isso não me assusta, é só natural em mim.

Qual foi o maior desafio em escrever este livro? Foi realmente perceber o caminho certo entre tantas ideias?
Na verdade, o maior desafio foi deixar bem vincadas as mensagens que eu queria deixar ao longo do livro. O livro tem pequenas reflexões, de x em x páginas, tem a ver com as vivências que acontecem com as personagens. Não queria que fosse nada de muito complexo, mas queria que as pessoas parassem e pensassem. 

Há algum tipo de livro, ou de história — no caso da ficção — que ainda não tenha feito mas que tenha já em mente que um dia gostaria de fazer?
Há imensas coisas que ainda não escrevi. Eu acabei de lançar este livro e neste momento, na minha cabeça, já tenho dois projetos. E são completamente diferentes um do outro. Um tem a ver com romance, o outro não. Portanto, eu tenho muitas coisas que eu espero que os anos me dêem oportunidade de escrever [risos].

Ideias nunca faltam, como estava a dizer.
Não, ideias nunca faltam, até as podia vender [risos].

A apresentadora tem 52 anos.

Desde que saiu da televisão fez mais coisas no digital. Há algum tipo de área que gostava de explorar nesta fase, que não tenha a ver com a televisão e a escrita?
Há muitas coisas que eu ainda tenho por fazer. Mas tenho o hábito de dizer sempre: os meus sonhos não os partilho. Portanto, há áreas que ainda não abordei e que fazem parte dos meus sonhos, mas um dia irei abordar. Tal como a área das masterclasses e dos webinars, que no passado raramente podia fazer, porque não tinha tempo, mas que desejava fazer mais. E a vida permitiu-me que eu passasse a fazer mais. Eu tenho muitas coisas ainda por fazer e áreas por explorar. Sou uma eterna criança, tenho sempre sonhos que estão ali à espera de condições para se concretizarem. Mas não gosto de os partilhar. Faço para que eles aconteçam, mas não os divulgo, porque são meus.

E são esses sonhos que vai querer explorar agora? Ou poderá regressar à televisão de forma regular num futuro próximo?
Eu sei que vou voltar à televisão, obviamente que vou voltar. É evidente que não acabei a minha carreira televisiva, não perdi competências, não deixei de ser a comunicadora que fui sempre. Hei-de voltar quando me fizer sentido. Portanto, não estou neste momento com datas em cima da mesa, nem com local. Não sei onde, não sei a fazer o quê, não sei nada disso, mas depois logo se vê, não estou preocupada. Neste momento estou mais concentrada em conseguir concretizar tudo aquilo que estava na minha vontade mas que durante quase 30 anos não tive tempo. Não estamos a falar de três anos nem de três meses, estamos a falar de um trabalho diário em televisão de 27 anos. É muito tempo. Portanto, refrear este ritmo, poder mergulhar noutras áreas de uma forma mais inteira, é legítimo. E só é sinal de que não morri em termos de criatividade e de capacidade de sonhar — pelo contrário. A televisão é muito desafiante, mas também é muito absorvente, quando é num registo diário. E nós temos de carregar as nossas baterias, porque se não não temos para dar. E quem faz televisão regularmente reconhece isso. No outro dia, em conversa com a Júlia [Pinheiro], ela reconheceu isso. Que realmente é muito desgastante e às vezes temos de ir encher as nossas baterias. Porque se não tivermos para nós, também não temos para os outros.

E as pausas podem ser positivas.
São fundamentais para qualquer ser humano. 

Num exercício hipotético, há algum tipo de programa de televisão que pensa que gostaria de fazer numa próxima vez?
Não me pus ainda a pensar nesse tema. A única coisa que eu sei é que quero fazer qualquer coisa que seja positiva. Que traga esperança às pessoas. Que as faça acreditar, que lhes dê coragem para mudar — vamos ao encontro do livro. Isso é o que eu quero. As pessoas estão cansadas de ouvir desgraças. Estão fartas, precisam de esperança, de voltar a sonhar, de acreditar que vão conseguir voltar a página, e eu quero estar aí. Porque sou uma otimista incorrigível. E sou uma pessoa extremamente resiliente. Portanto, gostaria que estes meus lados pudessem estimular outros a acreditar. É aí que eu me vejo. Se isso é possível ou não, não faço ideia. Mas se estamos a falar de hipóteses, esta é uma delas.

E gostaria de apostar cada vez mais no digital? É uma área que já tem vindo a explorar e agora tem mais disponibilidade, como disse.
Eu tenho uma plataforma digital há quatro anos, a Simply Flow. Se há pessoa que muito antes da pandemia já tinha uma aposta clara no digital era eu. A primeira plataforma de uma figura pública em Portugal, há 13 anos, chamava-se Fátima.TV e era minha. Portanto, eu diria que sou uma pessoa que despertei para o digital ainda o digital não tinha a dimensão que tem hoje. E exatamente por não a ter, é que na altura o projeto não vingou. As pessoas ainda não estavam voltadas para o digital. Aquela plataforma nasceu antes do tempo. Mas o Simply Flow nasceu no tempo certo, é uma plataforma totalmente dedicada à saúde e bem-estar, que é uma coisa que as pessoas cada vez mais querem saber. Querem ter uma atitude de prevenção e de responsabilidade. Com a pandemia, o Simply Flow cresceu muito, porque aborda muitos temas que interessam às pessoas numa linguagem clara e simples que toda a gente entende, mas com todo o rigor. E, portanto, a aposta no Simply Flow é clara e está no meu topo de prioridades. Eu e a minha equipa temos mais de 100 especialistas a escrever para o Simply Flow e isso é notável em Portugal. Entretanto, desenvolvi outros projetos digitais, como o “Ó Chef!”, com o chef Vítor Sobral, um canal de YouTube dedicado às questões da cozinha. Gravámos 12 programas e vamos gravar mais 12. É um projeto estabelecido e criado com muita seriedade. Tudo isto é muito sério.

E agora tem mais disponibilidade para apostar em mais projetos nesta área que já explorava.
Nem os podia fazer se estivesse a fazer televisão. Não o Simply Flow, que faço há quatro anos, mas agora tenho mais tempo para pensar em coisas diferentes, para fazer apostas diferentes, por isso está tudo certo. Sem dúvida, o digital já é o presente — e em parte será o futuro. 

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