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Filha de Alice Munro acusa padrasto de abuso sexual. A mãe “escolheu ficar com ele”

Andrea Skinnner detalhou as agressões sofridas durante a infância. O caso foi abafado pela vencedora do Nobel.
A escritora morreu aos 93 anos.

“O meu padrasto abusou de mim sexualmente quando era miúda. A minha mãe, Alice Munro, escolheu ficar com ele.” O título de um artigo publicado por Andrea Skinner, no jornal “Toronto Star” conta quase toda a verdade da filha da escritora canadiana, após vários anos em silêncio.

O primeiro casamento de Munro, com Jim Muro, o pai de Skinner, terminou em 1972. Deste relacionamento, houve mais três filhas — Sheila, Jenny e Catherine, das quais Andrea era a mais nova. Mais tarde, em 1976, casou com Fremlin, com quem viveu em Clinton, Ontario (no Canadá). A jovem vivia com o pai durante o ano letivo e passava os verões com a mãe e o padrasto.

No texto publicado este domingo, 7 de julho, a filha da vencedora do Prémio Nobel, que faleceu a 13 de maio, revelou que foi agredida por Gerald Fremlin quando tinha apenas 9 anos. Segundo o relato, a autora sabia o que passava, mas manteve o segredo durante quase 50 anos.

Os abusos começaram em 1976, quando o padrasto se deitou com Andrea na cama, numa noite em que Alice não estava em Casa. Após esse episódio, Fremlin, que morreu em 2013, “expunha o órgão sexual durante passeios de carro, falava sobre as raparigas da vizinhança de que gostava”, e descrevia, detalhadamente, as necessidades sexuais da escritora.

Segundo o relato, a jovem tinha 25 anos quando contou tudo o que tinha acontecido à mãe. “Reagiu exatamente como temia que fizesse, como se tivesse sabido de uma infidelidade”, escreveu. “Todos voltámos a agir como se nada tivesse acontecido. Foi o que fizémos.”

Skinner disse que contou ao seu meio-irmão, Andrew, sobre os avanços sexuais e os comentários inapropriados, na “tentativa de fazer uma piada sobre o assunto”. “Ele não se riu”, acrescentou. “Disse que devia contar à mãe dele imediatamente. Contei, e ela contou ao meu pai.” Contudo, o progenitor acabou por não dizer nada a Munro e nunca falou diretamente com a filha. Além disso, pediu às duas irmãs mais velhas de Skinner para também não comentarem nada com a escritora.

Ao longo dos anos, Skinner sofreu enxaquecas debilitantes, que começaram na manhã seguinte à primeira agressão sexual, assim como bulimia. Antes de confessar tudo à mãe, relatou-lhe os seus problemas de saúde mental, durante uma passagem pela Universidade de Toronto. A escritora disse-lhe apenas que “estava a desperdiçar a vida”.

Em 2005, Andrea relatou os episódios à polícia recorrendo a cartas ameaçadoras de Fremlin. Na altura, o homem, então com 80 anos, declarou-se culpado por “agressão indecente”, sem julgamento, mas acabou condenado a dois anos de liberdade condicional.

“Queria era algum registo da verdade, alguma prova pública de que eu não merecia o que me tinha acontecido”, pode ler-se no texto. “E também queria que essa história, a minha história, fizesse parte das histórias que se contam sobre a minha mãe.”

A instituição Munro’s Books, fundada pela autora, já se pronunciou sobre o assunto. “Juntamente com tantos leitores e escritores, precisaremos de tempo para absorver esta notícia e o impacto que pode ter no legado de Alice Munro, cujo trabalho e vínculos com a loja já celebramos anteriormente”, anunciaram.

 

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