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A filha do diretor da PIDE que deixou tudo por Cuba e se apaixonou por Che Guevara

A história de Annie Silva Pais é contada num novo livro, “À Procura da Manhã Clara”, de Ana Cristina Silva. A NiT entrevistou a autora.
Também vai haver uma série na RTP.

A história de Annie Silva Pais é realmente extraordinária. Afinal, ela foi a filha do Major Fernando Silva Pais, o último diretor da PIDE, que deixou uma vida de conforto em Lisboa para se dedicar à revolução cubana de Fidel Castro e Che Guevara. Nesta quinta-feira, 12 de maio, é publicado um novo romance biográfico que relata a vida de Annie Silva Pais. A autora Ana Cristina Silva baseou-se nos factos reais e acrescentou elementos fictícios. “À Procura da Manhã Clara”, que é uma edição da Bertrand, está à venda por 17,70€.

“É uma história demasiado boa para uma pessoa não a querer agarrar”, argumenta a escritora em conversa com a NiT. “Se fosse pura ficção, se calhar algum editor ainda a consideraria inverossímil. Afinal, era uma menina burguesa que se casou com um diplomata suíço, que foi colocado em Cuba na altura da crise dos mísseis. Ela foi no último avião da América, de Miami, antes da crise. Apaixonou-se por Che Guevara, provavelmente teve um caso amoroso com ele, e pela própria revolução.”

Ana Cristina Silva acrescenta: “Ela foi tradutora, fez parte do aparelho, envolveu-se efetivamente na revolução. Fazia jornadas de trabalho, todas essas coisas, e envolveu-se com outros homens que estavam próximos de Fidel Castro, nomeadamente o seu médico pessoal e um ministro do interior. Apesar desse cariz revolucionário, esteve cá durante o Verão Quente de 1975 e fez o possível e o impossível para conseguir a liberdade condicional do pai antes de morrer, por ele estar doente. O Major Silva Pais acabou por não ser condenado em relação ao assassinato do Humberto Delgado porque morreu antes de o julgamento terminar. Nunca pôs sequer os pés no tribunal”.

A escritora tomou conhecimento da história por volta de 2010. O livro “A Filha Rebelde”, dos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, já contava a história de Annie Silva Pais em 2005. Era o seguimento de algumas reportagens publicadas no “Expresso”. Dois anos depois houve uma adaptação do livro para uma peça de teatro do D. Maria II. Mas a administração do teatro foi processada pelos sobrinhos do Major Silva Pais, que acusavam a peça de difamação por associar o antigo diretor da PIDE ao assassinato de Humberto Delgado — sendo que nunca foi julgado porque morreu antes de isso ser possível. Esse caso polémico, que resultou numa absolvição, tornou o tema mediático e foi assim que ele chegou à escritora deste novo livro.

“Voltei a ler ‘A Filha Rebelde’ antes do confinamento e na primeira reunião que tive com a Bertrand disse: vou escrever sobre esta mulher. Não sei, há determinada altura em que decido: vou escrever sobre isto. A história interessou-me logo em 2010, mas entretanto meteram-se outros livros, muitos outros.”

Para preparar “À Procura da Manhã Clara”, Ana Cristina Silva leu tudo aquilo que conseguiu encontrar — e conversou várias vezes com o jornalista Valdemar Cruz. “Ajudou-me a tomar decisões que eu provavelmente não tomaria. Nomeadamente, o caráter fantasioso da Annie. Ele provou-me isso mostrando-me alguns emails que ela trocou com uma amiga. A Annie foi educada no Colégio Sagrado Coração de Maria, em Lisboa. Mas dizia que tinha sido educada num colégio em França — o que é absolutamente mentira. E falei com três amigas dela, que trabalharam juntas quando eram muito novas, na 5ª Divisão. Algumas disseram que ela tinha vivido com o Che Guevara. Ora, ela não viveu com o Che Guevara. Teve, provavelmente, um caso. E a paixão é conhecida porque houve algumas manifestações dessa paixão. E o Che também não era propriamente um monge, poderão ter tido um caso, mas isso é muito diferente de ter vivido com ele.”

O livro já está à venda.

Porém, a autora pôde usar toda a sua liberdade narrativa para acrescentar partes fictícias e “recriar as emoções e conflitos” das personagens. “Além do contexto sociopolítico, há as dimensões mais psicológicas, nomeadamente a relação com a mãe, que era muito conflituosa, e o amor que ela tinha ao pai. Mas a descrição que havia dela era relativamente opaca. Por isso tornou-se para mim, além dos factos, uma personagem fascinante.” O que também ajuda é o facto de Ana Cristina Silva ser psicóloga de formação — o que contribuiu para que consiga construir personalidades fictícias ricas.

Além disso, a autora estruturou o livro com base em cartas fictícias da protagonista que supostamente nunca foram enviadas aos destinatários. “Pressupõe-se que ela escreveu cartas que não chegou a enviar em que escreve às várias pessoas da sua vida: à mãe, ao pai, ao Che, ao Pepe — que era o ministro Abrantes —, a amigas. Essas cartas depois são descobertas pela mãe.” Na verdade, as únicas cartas reais a que teve acesso, graças ao arquivo de José Pacheco Pereira, foram as que Annie Silva Pais enviou para tentar colocar o pai em liberdade condicional.

A escritora fala em “À Procura da Manhã Clara” como o último capítulo de uma trilogia não oficial na sua obra relacionada com o Estado Novo. O primeiro livro foi “As Cartas Vermelhas”, “sobre uma comunista que se apaixonou por um PIDE”; o outro é “As Longas Noites de Caxias”, centrado na agente feminina que subiu mais alto na hierarquia da PIDE e numa prisioneira política.

“Acho que as pessoas abaixo dos 45 anos têm uma visão muito pouco profunda… não é por acaso que o Salazar há uns anos foi considerado o maior português de sempre. É verdadeiramente assustador. Permite que discursos e valores fascistas estejam a emergir de novo”, justifica Ana Cristina Silva, sobre a importância de escrever sobre o Estado Novo.

“É importante que as pessoas, nomeadamente os jovens, tenham acesso de uma forma mais profunda àquilo que aconteceu no fascismo, para não se ouvirem coisas como ‘antes é que era bom’ ou ‘era preciso um homem às direitas para endireitar o País’. São coisas horríveis de quem não sabe o que é viver em completa repressão e pouco sabe dos horrores que se passaram, quer em Peniche, quer em Caxias.”

Coincidentemente, a RTP1 irá estrear em breve a série de televisão “Cubra Libre”, precisamente baseada na história real de Annie Silva Pais. 

Ana Cristina Silva é a autora do livro.

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