Livros

Gustavo Carona: “Passei a ser um alvo a abater para muita gente”

A NiT entrevistou o médico intensivista sobre o novo livro, os maiores desafios da pandemia e o momento atual que se vive em Portugal.
O médico tem 40 anos.

Chama-se “Diário de um Médico no Combate à Pandemia” e é o novo livro do médico intensivista Gustavo Carona, que trabalha no hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, e que tem sido uma das vozes e rostos mais visíveis da linha da frente na luta contra a pandemia.

A edição da Oficina do Livro tem 256 páginas e pode ser encomendada por 16,90€. As receitas correspondentes aos direitos de autor revertem para os Médicos sem Fronteiras e a Saber Compreender, instituição que dá apoio a sem-abrigo. Gustavo Carona, que já tinha praticado medicina em vários cenários de guerra, tem experiência na área da escrita. Foi o autor de dois livros: “O Mundo Precisa de Saber” e “1001 Cartas para Mosul”.

Depois de a NiT ter publicado alguns textos do livro referentes ao vídeo que no final do ano passado se tornou imensamente popular — que era um apelo sentido de Gustavo Carona para que a população mudasse os seus comportamentos — a NiT entrevistou o profissional de saúde sobre o novo livro, os maiores desafios ao longo dos últimos meses e o momento atual da pandemia.

O Gustavo diz no livro que a exposição mediática que começou a ter ao longo destes últimos meses não é propriamente algo que o agrade, mas, ao mesmo tempo, não a recusou por a querer usar de forma útil e benéfica pela medicina e pelas mensagens que podem ser úteis para a saúde pública. Foi também nesse sentido que aceitou escrever este livro?
Sim, acho que é uma continuidade de tentar ser pedagógico e informativo e trazer as pessoas para dentro daquilo que foi uma realidade muito intensa, que obviamente não se compreende sem se ter os relatos da vida real de pessoas que estão lá dentro. É um desafio da natureza muito complexo, o vírus em si não se vê e por isso acho que é muito importante haver testemunhos reais para as pessoas perceberem a dimensão daquilo que aconteceu — e que de alguma forma possam também crescer com as aprendizagens de que aí vieram. Acho que este livro nasce da continuidade de querer informar as pessoas e também da vontade de fazer uma homenagem a muita gente, essencialmente aos profissionais de saúde.

Sentia que havia falta de testemunhos da linha da frente, das pessoas que estavam a trabalhar todos os dias nos hospitais nesta fase mais difícil?
Sem dúvida, até porque muitas vezes ouvimos diferentes pareceres técnicos — todos eles são complementares, de pessoas ligadas à ciência, à investigação, à epidemiologia, pessoas com poder de decisão na área do governo e nos organismos de saúde, que são obviamente importantíssimos de ouvir, mas acho que os relatos de quem está efetivamente ao lado dos doentes… Acho que houve alguns, mas ainda assim pareceu-me que foram bastante insuficientes em relação àquilo que me parecia ser o mais importante de comunicar: os médicos, os enfermeiros, os auxiliares, aquelas pessoas que transpiram a experiência que vem dos doentes e dos familiares. Esta visão um bocadinho mais intimista. Nós somos feitos de afetos e de sentimentos e é importante que isto não se reduza a números, daqueles que morrem, dos cuidados intensivos, dos que recuperam. As histórias de vida são aquilo que nos constrói como seres humanos e são as pessoas que estão ao lado dos doentes que têm essa possibilidade de transmitir lá para fora aquilo que se foi passando lá dentro.

Porque, como está a dizer, há uma dimensão muito racional, do que está a acontecer em larga escala, dos números, da evolução da pandemia, mas depois há o lado mais emocional, a que a maioria das pessoas não teve tanto acesso e com que vocês lidam todos os dias. E as pessoas até podem ficar um pouco anestesiadas com tantos números, não é?
Completamente. A partir de certa altura, ter mil casos por dia, ou cinco ou dez mil; mais 500 ou 700 nos cuidados intensivos… Primeiro, é normal que as pessoas se refugiem, numa certa proteção das notícias tristes, quando repetidas no tempo. E eu acho que é preciso humanizar um bocadinho as notícias. Não usar esse poder de uma forma maléfica, contar uma história é importante, mas que seja representativa de muitas histórias. E eu acho que é indubitável dizer que estávamos perante milhares e milhares de pessoas internadas no hospital com esta doença — e que por sinal nos impedia de tratar, muitas vezes corretamente, muitas outras doenças e pessoas. E era importante que as pessoas percebessem que nós podíamos passar de carro ao lado de um hospital sem perceber o que se estava a passar lá dentro. É o quão irónico é o desafio. Por isso, acho que era importante que as pessoas humanizassem os números e acho que o consegui, bem ou mal, não sei. A ideia era que compreendessem o turbilhão de emoções que invadiam os serviços dos hospitais. Obviamente não somos especiais enquanto profissionais de saúde, mas estávamos perante uma pressão de tal ordem que, se fôssemos abaixo, não havia mais ninguém para dar continuidade àquilo que no fundo pretende ser de todos para todos. 

Há uma frase conhecida que diz que se os matadouros fossem de vidro, éramos todos vegetarianos. Isso também se pode aplicar aos hospitais? Se fossem transparentes, muitas pessoas teriam tido comportamentos diferentes?
Sem dúvida, mas a medicina — e em particular as áreas mais críticas — sempre teve uma forma programada, refletida, de contenção, em relação àquilo que se passa para o público. Nós não achamos que o público tenha de ter a mesma capacidade que nós de ver pessoas a sangrar, pessoas a morrer… As pessoas não têm que ter essa preparação emocional que nós fomos construindo ao longo dos tempos. Por isso é normal que exista uma certa contenção face a algumas realidades intensas, mas a partir do momento em que o desafio da sociedade anda à volta desta compreensão, passou a ser extremamente importante que as pessoas percebessem que cada jantarzinho ou festinha se traduzia, inevitavelmente, no aumento deste tipo de histórias de vida, que são as nossas — dos nossos pais, dos nossos amigos. E que, se não compreendessem esta relação de causa-efeito muito direta, obviamente iam perpetuar os seus comportamentos menos coletivistas. Poderíamos ter feito melhor, poderíamos ter feito pior, também não sou um julgador da sociedade, mas sem dúvida de que só com a compreensão de tudo aquilo que está em jogo é que podemos agir o melhor possível. 

No livro, e no excerto que citámos no artigo que já publicámos — que tem a ver com aquele vídeo publicado no final de outubro, que se tornou muito popular —, diz que o vídeo deve ter mudado o comportamento de algumas pessoas, que mudou a visão sobre aquilo que já estava a ser a segunda vaga, mas que também tornou pior a vida pessoal do Gustavo. Em que sentido? Por causa da exposição mediática?
Sim, a exposição mediática não é uma coisa que me agrade propriamente… E em relação a este assunto é muito perversa. Porque muita gente sofreu com a pandemia, de diversas formas, muita gente teve uma atitude absolutamente do contra, combativa, revoltada, em relação àquilo que foi a gestão da pandemia em todas as suas frentes. E obviamente que quando há aquele quase ódio para com a pandemia e as atitudes que tiveram de ser tomadas, é preciso encontrar bodes expiatórios de pessoas a atacar. E acho que é fácil de compreender que as pessoas a atacar são o governo — que está habituado a ser atacado por tudo e por nada; os meios de comunicação social; e, neste caso, as pessoas ligadas à medicina e à ciência, que comunicaram, na tentativa de informar o melhor possível em relação à pandemia. Portanto, eu passei a ser um alvo a abater para muita gente. E se calhar há pessoas que têm esta carapaça, que estão habituadas. Para mim foi uma novidade sentir a maldade em estado puro de tantas pessoas que me queriam — e querem — atacar. Só porque exerci a minha profissão e decidi comunicar, da melhor forma possível, a minha visão do desafio hospitalar, da ciência e até da sociedade. É nesse sentido que a exposição, a responsabilidade e muitas emoções à flor da pele… Às vezes até de proximidade, se calhar no hospital nem todas as pessoas concordam com as palavras que eu escolho, com a forma que eu uso na comunicação — que acho que é muito sentida, honesta, transparente —, mas nem toda a gente se revê. A partir do momento em que existimos com uma certa frequência nos meios de comunicação sabemos que vamos ter sempre muitas pessoas contra nós — e isso é um bocadinho estranho de se aprender.

Mas continua a fazê-lo, e foi-o fazendo, pelo efeito positivo que essa exposição traz.
Sim, eu olho-me ao espelho e certamente posso ter errado algumas vezes, mas com a convicção de estar com muita vontade de transmitir a visão da ciência e a bondade do coração, de ser construtivo, e nunca ser demasiado repressor ou julgador. Fiz as coisas por paixão e nunca por interesse próprio, nunca para me defender, foi sempre para defender os doentes e o Serviço Nacional de Saúde. Nesse sentido, voltaria a fazer tudo outra vez, se possível melhor ainda.

O Gustavo já exerceu medicina em vários cenários de guerra, em situações muito complicadas. Mas no livro diz que esta foi a missão mais difícil da sua vida. Porque é que foi a mais difícil?
Primeiro, porque foi mais continuada no tempo. Depois, é injusto comparar cenários. Não vou comparar uma guerra com o combate à pandemia. Uma guerra é infinitamente pior. Aliás, até tenho alguns textos que fazem essa reflexão no meu livro. Mas, para mim, enquanto pessoa e médico, o desafio agora foi muito maior. Eu estava envolvido nele a 360 graus. Com uma intensidade de trabalho muito grande, com uma necessidade de aprender, de ensinar, de tratar, de comunicar. Depois, eu também sou filho, sou irmão, amigo, e muitas coisas aconteceram à minha volta. Quando estou em missão, normalmente estou numa realidade que não é a minha. Tenho aquela sensação de que posso carregar num botão vermelho e vir-me embora quando eu quiser. Aqui não. Havia uma projeção de “eu tenho estar a defender os meus concidadãos”, fazer o meu papel no Serviço Nacional de Saúde, e tive vários dissabores a nível pessoal e familiar que fizeram com que fosse um ano muito duro para mim. É nessa amálgama de desafios, e também com a exposição pública — com os motivos de que já falámos — que fez com que houvesse dias e dias de luta interior, de muito combate, muitas lágrimas, muito desespero, muita vontade de superação. Foi muito tempo e foi muito intenso, foi nessa medida que para mim foi um desafio incomparavelmente mais complexo do que todos os outros.

E, claro, é algo inesperado para um médico — mesmo um médico que teve interesse e vontade em exercer em cenários de guerra no estrangeiro — deparar-se com um problemas destes, a esta escala, e estar no meio do furacão.
Sem dúvida, e a razão pela qual eu vou em missão é porque acredito que as pessoas que lá estão têm o mesmo valor do que aquelas que estão à minha volta. E o meu empenho enquanto médico é exatamente igual, ou às vezes até superior, na medida em que a minha motivação perante o desafio pode até ser maior. Mas o que acontece é que somos feitos de afetos, de emoções, e os meus estão aqui. E na minha equipa que sofreu pelo medo, pela dúvida, pelo facto de em algumas circunstâncias até ter familiares doentes. E acho que esta doença, principalmente no início, tinha esse caráter muito especial. Era impossível nós não imaginarmos que podia ser um de nós deitado numa cama dos cuidados intensivos, que podia ser um dos nossos pais ou irmãos ou primos ou amigos. Porque tenho 40 anos e tratei muitas pessoas da minha idade e mais novas nos cuidados intensivos. Esta coletividade de “podia acontecer a qualquer um dos meus” não a sinto numa missão. A minha vida pode estar mais ou menos em risco, mas as pessoas que estão a sofrer são-me totalmente desconhecidas, a maior parte das vezes eu nem compreendo a língua que falam. Portanto, a minha ligação afetiva não é a mesma, por mais que eu queira humanizar a minha visão do mundo. Não consigo ser hipócrita ao ponto de me despir daquilo que são as minhas raízes e as minhas ligações emotivas para com os meus. E é nessa medida que aqui à porta de casa as coisas foram mais difíceis.

Gustavo Carona escreveu o seu terceiro livro.

Considera que os profissionais de saúde saem desta situação mais valorizados pela sociedade?
Bom [risos], eu não sou a sociedade, mas acho que sim. Se há coisa que tive foi muito atento à opinião pública ao longo deste ano. E eu acho que as pessoas passaram a valorizar principalmente algumas áreas da medicina que normalmente são invisíveis. Ninguém vangloria os serviços de urgência, as enfermarias gerais, os cuidados intensivos eram um submundo completamente desconhecido para as pessoas, que acham que fazer medicina a sério é ter um consultório bonito e fazer cirurgias complicadas, e esquecem-se que o grande grosso da medicina e sobretudo das pessoas apaixonadas pelos doentes e pela arte de cuidar está nestes heróis desconhecidos que eu fui nomeando aqui nestas palavras — e no livro faço questão de os enaltecer. Acho que as pessoas perceberam que estas pessoas são muito fortes, têm muita fibra e muito coração. Agora, essa pergunta-me leva-me sempre para se este reconhecimento vai ser traduzido de outras formas ou não. Há muitas pessoas que se sentem injustiçadas na forma como são tratadas, nomeadamente a nível dos salários, e eu compreendo as suas lutas. Porque, realmente, para aquilo que fazem, para a importância que têm na sociedade… Não sei se o reconhecimento será traduzido ou não numa apreciação dos cuidados de saúde que eu acho que deveria ser um bocadinho maior.

Já agora, Gustavo, como é que descreveria este preciso momento da pandemia em que estamos?
Bom, estamos num momento hiper calmo e controlado já há alguns meses. Acho que se me perguntar hoje, 8 de junho [quando realizámos a entrevista], o que se passa na minha cabeça, há sempre um ponto de interrogação — no sentido em que temos uma janela temporal, que eu diria que são dois ou três meses, para vacinar o que falta da população para termos os tais 70 ou 80 por cento vacinados. E tudo indica que isso irá conduzir a sociedade a um regresso à normalidade, portanto acho que estamos muito perto de conseguir lá chegar. A ver se nós aguentamos este entusiasmo de estarmos quase na linha da meta sem perdermos o controlo ao número de casos, e acho que é um ponto de interrogação. Percebemos que cada vez mais as pessoas estão displicentes, vai havendo eventos de festejos de futebol disto e daquilo, mais umas coisas e tal, que fazem com que as pessoas obviamente relativizem a sua responsabilidade nos jantares, nas festinhas, o que se compreende. Volto a dizer: todos nós somos pessoas e compreendemos a natureza humana. Mas não sei se não vai haver aqui um aumento, e no fundo já está a haver, que seria obviamente a evitar. Mas descrevo o momento como tendo uma acalmia excelente. Os hospitais continuam há dois ou três meses a funcionar quase normalmente. E a nossa vontade de controlar a pandemia é para que os hospitais funcionem normalmente. Mas há um ponto de interrogação de como é que vamos aguentar estes dois ou três mesitos até termos a vacinação mais transversal — que acho que está quase. Vejo esta transição com otimismo, estamos melhores do que há um mês.

No seu caso específico, não sente no hospital o aumento de casos que tem havido?
Houve um ligeiríssimo aumento, mas tendo em conta aquilo por que já passámos, não é ainda minimamente preocupante. E todos nós estamos com ânsia de estarmos aliviados e com alguma hesitação em relação à celebração que nos é devida e merecida depois de ultrapassarmos isto. Todos já sabíamos que nunca iria ser de um dia para outro, mas ao mesmo tempo todos temos um acumular de vontade de festejar a liberdade que este vírus nos foi tirando.

É um processo gradual, mas quando der a pandemia por praticamente terminada, qual é a coisa que o Gustavo mais quer fazer?
Eu gostava muito de voltar a viajar, de voltar a abraçar os meus — a minha mãe já está meia vacinada mas eu ainda tenho algumas dúvidas se a devo abraçar e dar beijinhos à vontade [risos]. Entre os abraços e o contacto físico com os mais próximos, amigos e família, e a vontade de viajar, acho que são as coisas que mais me fizeram falta nestes últimos tempos e gostava de as retomar rapidamente.

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