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Gustavo Carona sobre o seu apelo viral: “Este vídeo mudou a minha vida para pior”

O médico escreveu “Diário de um Médico no Combate à Pandemia”, onde aborda os pormenores da missão mais difícil da sua carreira.
Gustavo Carona é médico em Matosinhos.

A 28 de outubro de 2020, um vídeo — entre tantos outros — era carregado no YouTube. Não era um novo conteúdo de um youtuber, o videoclip de uma banda ou uma compilação de vídeos engraçados. Era o apelo de um médico para que a população começasse a levar a sério a segunda vaga da pandemia da Covid-19 — que nesta fase estava longe do auge, mas já se podia adivinhar o impacto que poderia ter (e teve).

O nome do médico é Gustavo Carona e, desde o carregamento do vídeo, tornou-se um dos rostos mais mediáticos da linha da frente em Portugal. O vídeo tornou-se viral. O intensivista do Hospital Pedro Hispano, em Matosinhos, começou a ser seguido nas redes sociais e a receber vários convites para falar sobre o tema, para relatar o que estava a ser vivido na hora mais negra dos hospitais nacionais.

Como explica no seu novo livro, “Diário de um Médico no Combate à Pandemia”, não recusou a exposição — porque poderia ser benéfica para conseguir passar mensagens úteis —, mas fê-lo com sacrifício.

A edição da Oficina do Livro tem 256 páginas e pode ser encomendada por 16,90€. As receitas correspondentes aos direitos de autor revertem para os Médicos sem Fronteiras e a Saber Compreender, instituição que dá apoio a sem-abrigo. Gustavo Carona, que já tinha praticado medicina em vários cenários de guerra, tem experiência na área da escrita. Já tinha sido o autor de dois livros: “O Mundo Precisa de Saber” e “1001 Cartas para Mosul”.

“É bom que fique desde já claro que não sou o melhor médico nem a melhor pessoa que conheço, nem um sociólogo, e muito menos um escritor que mereça esse rótulo. Mas é dessa mistura que este livro é feito: de medicina, de humanismo, com um olhar atento a 360º da nossa sociedade e do mundo transformado em palavras”, escreve Gustavo Carona na introdução.

A NiT publica agora os capítulos que dizem respeito aos dias em que o médico intensivista gravou e partilhou o apelo que foi imensamente partilhado entre os portugueses.

Vai doer, se não levarmos a sério — 28/10/2020

“Saí do trabalho revoltado com a disparidade do que se estava a passar nos hospitais (em particular no norte do país) e a falta de consciência da opinião pública, mesmo daqueles que deviam servir para informar. Saí angustiado do hospital, espelho também da angústia da minha equipa ao ver que os doentes covid extremamente graves não paravam de chegar à nossa UCI. Caminhei durante 20 minutos a pensar no que poderia eu fazer para que as pessoas acordassem e resolvi gravar este vídeo depois de ter organizado duas ou três ideias na minha cabeça.

Quando parei de me filmar, fiquei a olhar para o telemóvel, hesitante. ‘Será sensato? Será que isto ajuda?’ Eu não fazia ideia do impacto que ia ter uma vez lançado o vídeo na Internet, mas depois de uma meia hora a refletir, pensei nos doentes, pensei nos meus companheiros de trabalho e senti do fundo do coração que publicá-lo era a coisa certa a fazer. O vídeo, em dois ou três dias, ultrapassou um milhão de visualizações [no YouTube tem cerca de 395 mil].

Entre mensagens, comentários e notícias de sites de intriga, fiquei assustado com o impacto que teve. A minha convicção é a de que o vídeo fez muito por aquele momento e pôs muitas pessoas em sentido, no que diz respeito à gravidade da pandemia. Fui acarinhado por muitos dos colegas dos hospitais que mais estavam a sofrer com esta segunda vaga de covid, com palavras muito generosas de agradecimento.

Fiquei espantado com tantos órgãos de comunicação social a destacarem a frase ‘médico dá nega a Cristina Ferreira’, como se isso fosse minimamente importante para a mensagem que queria passar. E depois claro, em vez de se salientar apenas a mensagem de gravidade da pandemia, ganhou força a vontade de fazer uma novela da batalha contra o negacionismo. O meu intuito sempre foi informar, mas o que as pessoas querem é ver confrontos e sangue.

Não me arrependo do que fiz, mas este vídeo mudou a minha vida para pior. Passei a ter muito mais atenção mediática. Não quis fugir à responsabilidade de a usar pela medicina, pelos profissionais de saúde e pelos doentes, mas esta exposição fez-me muito mal.”

Discutir com negacionistas? — 30/10/2020

“Entre as muitas reações que o vídeo teve, perguntaram-me se eu quereria discutir online com um negacionista. A génese do convite fazia todo o sentido, porque há que combater a desinformação onde ela mais acontece, como no Facebook, YouTube, etc… Mas, para além de não ter tempo nem energia para explicar porque é que os elefantes não voam a não ser nos filmes, recuso-me a discutir com alguém que não seja da minha área de perícias. Há no mundo algum especialista em Medicina Intensiva que ache que esta doença não existe? Ou que não é assim tão grave? Estou disponível para essa conversa.

Há algum infecciologista que acredite que esta doença não existe? Ou que não é assim tão grave? Que discuta com os seus pares especialistas em doenças infecciosas? Há por aí algum especialista em organização do Serviço de Urgência e organização dos hospitais que acredite que isto não é assim tão difícil? Que não é disruptivo em termos de organização hospitalar? Que discuta com os seus pares em sede própria? Há por aí algum especialista em Biologia Molecular que não reconheça a importância dos testes PCR? Que se inscreva nas sociedades de peritos em Biologia Molecular e debata a questão? 

Quem é que eu seria se fosse discutir com o CR7 como se batem livres? Quem é que eu seria se fosse discutir com um engenheiro civil por achar que a ponte da Arrábida devia ter sido feita com canas de bambu? Um imbecil. Os factos não se discutem. As opiniões são baseadas nos factos. Cada um tem o direito à sua opinião, mas deve reservá-la à sua área de conhecimento. 

Os peritos nas respetivas áreas são as pessoas que devemos ouvir. Uma mentira por nós desejada não deixa de ser uma mentira. É legítimo (e fulcral!) discutir o impacto na economia, na educação e até na felicidade das pessoas. Mas não discutam saúde se não são da área e, se são, discutam com os vossos pares.”

Já está disponível.

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