A porta preta discreta na Calçada de Sant’Ana quase passa despercebida no meio da rua inclinada. Lá dentro, porém, há um universo cultural para descobrir: livros eróticos, publicações punk, fotografia underground, poesia queer, primeiras edições raras e obras assinadas por artistas como John Waters ou Marina Abramović.
Falamos da Rest in Peace — ou simplesmente RIP — que é uma das livrarias mais invulgares da cidade. O espaço abriu oficialmente a 27 de abril, mas a história começou muito antes disso, entre Londres, Paris e longas conversas sobre livros. A editora nasceu primeiro de forma itinerante, em 2023, quando os portugueses Alexis Augusto, de 27 anos, e Carlota Lopez, de 26, começaram a participar em feiras internacionais e a construir um catálogo muito próprio, focado em publicações independentes e autores fora do circuito mais convencional.
Hoje, a RIP funciona ao mesmo tempo como editora, livraria e ponto de encontro para uma comunidade artística mais alternativa. A curadoria mistura fotografia, arte, erotismo, cinema, ficção e cultura queer sem grandes regras ou divisões rígidas. “Queríamos criar um espaço onde os livros parecessem conversar uns com os outros”, explica Alexis. “A maioria das livrarias tem secções. Nós gostamos de misturá-los, como se os livros estivessem todos a conversar uns com os outros”.
Os dois fundadores conheceram-se ainda adolescentes, em 2015, apesar de terem personalidades completamente opostas. “Somos as pessoas mais diferentes uma da outra”, admitem. A amizade cresceu entre referências culturais partilhadas, livros, música e cinema.
Mais tarde, Alexis mudou-se para Londres, em Inglaterra, para estudar direção criativa, moda e artes, enquanto Carlota aprofundava o interesse por publicações de artistas e fotografia contemporânea. Atualmente, Carlota continua a viver em Londres, onde trabalha como diretora criativa numa rádio. “Portugal é um País lindo, mas sentíamos falta de uma certa abertura para descobrir outras coisas”, diz.

Durante vários anos, Alexis viveu entre Londres e Paris, em França, trabalhando em revistas, rádio e projetos ligados à arte contemporânea. Foi precisamente numa madrugada na capital francesa que surgiu o impulso para regressar a Lisboa. Em vez de procurar casa, começou imediatamente à procura de lojas. Acabou por encontrar um pequeno espaço na Calçada de Sant’Ana e decidiu avançar quase por instinto. “Queria criar uma livraria diferente, porque é o tipo de sítios em que vivemos lá fora”, explica Alexis.
A RIP nasceu dessa lógica impulsiva e muito pessoal. O catálogo começou a ganhar forma através de encontros, amizades e artistas que iam descobrindo pelo caminho. Um dos primeiros projetos editados pela dupla foi “Age of Doom: Selected Stories”, um arquivo das histórias de Instagram da artista Lara Oliveira. “Os livros acabam por nos encontrar a nós”, resume Carlota.
O espaço é pequeno, quase intimista, e foge completamente ao conceito tradicional de livraria. Não existem secções organizadas nem grandes etiquetas explicativas. Os livros aparecem misturados de propósito, lado a lado, como peças de um mesmo universo visual e emocional. “Gostamos de pessoas que quase parecem estar a pisar a linha”, explicam os fundadores sobre a curadoria. “Há um certo charme em podermos apresentar às pessoas artistas e editoras que normalmente não encontrariam em Lisboa”, acrescenta Alexis.
Entre os títulos favoritos da dupla estão “Women”, da fotógrafa Nadia Lee Cohen, obras de Larry Clark, conhecido por retratar subculturas jovens durante a crise da sida nos Estados Unidos, e um raro “Director’s Cut”, de John Waters, assinado pelo próprio realizador. Os preços começam nos 15€, mas algumas edições raras ultrapassam os mil euros. “Nunca escolhemos um livro a pensar ‘isto vai vender bem’”, admite Carlota.
Apesar das rendas elevadas e das dificuldades em criar projetos independentes em Lisboa, Alexis e Carlota acreditam que ainda existe espaço para conceitos mais alternativos na cidade. Além da livraria, já estão a preparar uma programação cultural própria, com eventos, colaborações e um clube de cinema. “Projetos independentes merecem existir e precisam de força para continuar”, defende Alexis.
Para conhecer melhor o projeto pode visitar a página de Instagram da RIP.
Carregue na galeria para poder conhecer melhor o espaço e a capa da primeira edição desta livraria.








