Livros

A história trágica do irmão de José Saramago — que marcou para sempre a vida do escritor

Luís Osório explora este assunto no novo livro “Ficheiros Secretos”, que foi publicado no início do mês.
José Saramago é o único autor português que ganhou o Prémio Nobel.

Chama-se “Ficheiros Secretos — Histórias Nunca Contadas da Política e da Sociedade Portuguesas” e é o novo livro do jornalista Luís Osório. Chegou às livrarias a 6 de maio e recupera histórias pouco conhecidas sobre grandes figuras nacionais que se cruzaram com o autor ao longo da sua carreira.

“Não houve nenhuma razão objetiva para que tenha sido agora. Há alguns anos que desejava escrever este livro, um desejo que é também a obrigação de registar estórias que me foram contadas por protagonistas da história. Tive o privilégio de conhecer quase todos os protagonistas destes últimos 50 anos da sociedade portuguesa, é minha obrigação devolver ao país o que me ficou desses encontros”, explica Luís Osório à NiT.

O livro, que é uma edição da Contraponto, tem 216 páginas e está à venda por 16,60€. A NiT publica agora uma das histórias de “Ficheiros Secretos”, que mostra como a morte trágica do irmão de José Saramago, Francisco, com apenas quatro anos, foi determinante para a vida do escritor.

“Cheguei a ela pelo próprio José numa longa conversa em Lanzarote. Aliás, a larga maioria das 50 histórias que conto em ‘Ficheiros Secretos’ foram-me contadas pelos próprios, é uma particularidade do livro e julgo que uma garantia para quem lê”, acrescenta Luís Osório.

“Mais do que a morte do irmão mais velho de José, foi a marca que esse acontecimento teve na mãe dos dois. Francisco era o preferido da mãe e José cresce isolado, sozinho e falho de afetos. O acontecimento determinará o seu caminho e muito provavelmente a sua libertação pela escrita.”

Luís Osório é o autor do livro. Foto de José Lorvão

A morte do irmão de José Saramago

“Não lhe vou contar nenhuma história desconhecida de Saramago — gostaria de o fazer se a tivesse, mas dos encontros com ele nada lhe direi que porventura não saiba. Estar com José era estar com Pilar, todas as vezes em que me aproximei, talvez ilusoriamente, da sua verdade ela estava por perto. Quando ficávamos os dois, aí encontrava a cabeça do criador num corpo desasado, um desamparo que só se resolvia quando ela a si regressava. Com eles, estive em Lanzarote uma única vez. Estive também em alguns colóquios, num jantar ou noutro, ao telefone, em entrevistas.

Conversava com Frei Bento Domingues quando alguém me enviou por mensagem a notícia, só a li depois de terminado o encontro. Descia as escadarias do convento dominicano com pensamentos acerca da falta de entendimento da vida quando dei com a notícia de que Saramago tinha morrido. Pensei ir ao velório e pensei ir ao funeral. Substituí tudo isso pela ideia de escrever uma carta a Pilar e outra ao Zeferino Coelho, seu editor de sempre. Não fui, não escrevi. Porquê? Pouco sei de uma resposta que fosse a certa.

Em Lanzarote, havia um jardim. Um jardim rodeado de montanhas e vulcões. Passeámos um pouco, sentimos a aragem fresca enquanto a Pilar preparava o jantar. Perguntara-lhe porque me parecia tão pouco alegre quando tudo conquistara. José ficou em silêncio e assim ficámos uns minutos, depois murmurou algumas palavras e não me atrevi a cruzar os meus olhos com os dele.

Estava ao lado e observei-o como se ali pouco estivesse. Os murmúrios confundiam-se com o vento e o restolhar das folhas; ao jardim respondeu ser justo o paradoxo: «Tenho tudo. Uma casa a que chamo A Casa, um lugar magnífico, uma pessoa que amo e com a qual estou casado, uma quantidade de livros que vão durar o que tiverem de durar, até um Prémio Nobel me deram. Então porque não sou mais o que os outros desejassem que fosse? Talvez porque a felicidade nunca é alegre. Pessoalmente, não quero mais nada, desejava apenas que o mundo não fosse aquilo que é.»

O sorriso de José nunca era forçado, limitava-se a não sorrir. Um dia, contou-me, quase como se não tivesse importância, da morte do único irmão. A difteria levara-o aos quatro anos, era dois mais velho do que José.

Lembrava-se de uma imagem. O pequeno Chico abria as gavetas da cómoda para delas se servir como escadas, sempre a mesma imagem quando vinha à baila a sua primeira perda. José nunca fez ideia se aquilo que viu era real ou imaginado, sabia apenas que a cómoda tinha várias gavetas e que o Chico trepou até onde pôde.

Do que se lembrava bem era da mãe a recordá-lo. Que era coradinho, divertido e muito dado — de cada vez que a mãe aos outros contava do Chico, mais José triste ficava por ser pálido, pouco divertido e nada dado. Habituou-se a murmurar e a sentir-se a mais nas festas.

Com nitidez, lembrava-se da ausência da mãe. Nunca a culpou, simplesmente sentia que de alguma maneira a perda do filho mais velho lhe roubara a possibilidade de poder abraçar com amor de mãe o que ficava.

Quando soube deste episódio da infância, liguei-o à ausência de Deus. Não creio que tenha sido justo, José Saramago negou a ligação e as coisas raramente são tão simples. Os pais não acreditavam que o mundo se regia por ordem celestial. Não o faziam, ao que José julgava, por deferência ideológica ou libertária, simplesmente das suas vidas não constava tal sorte.

José e os pais moravam numas águas furtadas. E foi essa a primeira vez, e uma das últimas, que ouviu de fio a pavio uma celebração católica. Acompanhou os vizinhos do primeiro andar, casal com um par de filhos, e com eles ajoelhou-se e juntou as mãos como lhe ensinaram a fazer. No momento em que todos baixaram as cabeças, José levantou a sua. Concluiu que nada havia de especial. Pediu à mãe para não mais voltar.

Na cerimónia em que recebeu o Nobel, falou do avô Jerónimo e da avó Josefa. Mas se apenas tivesse podido levar duas pessoas não teria hesitado em levar a mãe e o pai. É provável que faça a pergunta (e a Pilar?), é provável porque também eu a fiz quando isto me disse. «A Pilar é outra coisa, a Pilar é um prolongamento de mim e eu dela, ela não ir era o mesmo que dizer que eu não estaria», respondeu.

O pai, polícia da PSP, tropa rasa durante os dois últimos anos da I Guerra, morreu antes de o filho começar a escrever. A mãe viveu mais anos, mas era analfabeta. Nunca pôde ler nada do que ele escreveu. José pensou neles quando foi aplaudido em Estocolmo, pensou no orgulho que teriam sentido ao ver um filho abrir as gavetas de todas as cómodas e empoleirar-se no cimo do mundo.

Fez-lhe falta nessa noite ouvir isso das suas bocas, ouvir do orgulho e do amor quando tanto duvidou de que o afeto neles se esgotara após a partida do pequeno Chico.”

Está disponível há duas semanas.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT