O novo romance de Nicholas Sparks explora a busca por um lugar no mundo, a reconciliação com o passado e a conquista da felicidade. “À Espera de um Milagre” chega às livrarias esta terça-feira, 24 de setembro, editado pela ASA, uma chancela do grupo LEYA.
A narrativa gira em torno de um encontro ao acaso de três personagens. O enredo acompanha Tanner Hughes, que foi criado pelos avós e seguiu a carreira militar do avô. O protagonista passou grande parte da sua vida no estrangeiro e sem intenção de retornar a uma rotina convencional.
Contudo, Tanner muda de ideias após a morte da avó, que lhe deixou um último conselho: encontrar o seu lugar no mundo. Decide, então, mudar-se para a Carolina do Norte à procura do pai que nunca conheceu.
Durante essa fase de autodescoberta, Tanner cruza-se com Kaitlyn Cooper. A médica e mãe solteira está a atravessar um divórcio e estabeleceu-se na Carolina do Norte, acreditando ter encontrado o local ideal para reconstruir a sua família. Do outro lado, encontra-se Jasper, um idoso que reside numa cabana à beira da floresta. Apenas tem a companhia do cão e vive “assombrado por um trágico acidente do passado”, lê-se na sinopse.
O livro está disponível para compra online, com um custo de 17,91€, graças a um desconto de 10 por cento. O preço original é de 19,99€.
Leia o primeiro capítulo do romance
“Tanner Hughes saiu para o alpendre da pequena casa que tinha pertencido aos avós e trancou a porta. Levava numa mão um saco de ginástica; na outra, um porta-fatos a proteger o fato que usara no funeral da avó, cinco semanas antes.
Olhou para o céu e reparou numa única nuvem branca a refletir o reluzente sol matinal. Previa-se mais um dia perfeito, daqueles que pareciam ser um postal da Florida, o que o levou a pensar de novo que os avós tinham escolhido um belo sítio para assentarem de vez. Pensacola sempre tinha sido uma cidade militar e muitos veteranos mudavam-se para aquela área aquando da reforma; ele calculava que os avós — especialmente o avô, um antigo mecânico do exército — se teriam integrado na perfeição.
Deixou a chave debaixo de um vaso, conforme combinado com o agente imobiliário, o qual planeava ir lá mais tarde. Já tinham levado os móveis e contratado pintores, e o agente dera a entender que a propriedade se venderia rapidamente. Tanner tinha passado grande parte do mês anterior a passar em revista as coisas dos avós, enquanto processava os últimos meses com a avó.
Olhou para trás uma última vez, sentindo a falta da avó, bem como do avô. Eram os únicos pais que alguma vez conhecera, já que a mãe, solteira, morrera poucos minutos depois de o dar à luz. Era uma sensação estranha saber que eles já não existiam — a palavra órfão parecia-lhe adequada. Afinal, a mãe nunca fora mais do que fotografias e, até pouco tempo antes, não sabia o que quer que fosse a respeito do pai biológico. Taciturnos, como era seu apanágio, os avós tinham dado a entender que não conheciam a identidade do pai, e Tanner convencera-se havia muito de que isso não tinha grande importância. Claro que por vezes desejava ter conhecido os pais, mas fora criado num lar afetuoso, e isso era o que realmente importava.
Pôs de parte esses pensamentos e começou a dirigir-se para o carro, ocorrendo-lhe que o automóvel parecia veloz mesmo quando estava estacionado no acesso da casa. Uma reprodução do Shelby GT500KR de 1968, da Revology Cars, era de um vermelho de maçã caramelizada com faixas brancas de corrida; era novo em folha, mas parecia idêntico aos que disparavam da linha de partida mais de meio século antes. Tratava-se da coisa mais extravagante que alguma vez comprara para si, e, quando o automóvel chegara, Tanner tinha desejado que o avô ainda fosse vivo para poder vê-lo. Ambos adoravam os muscle cars norte-americanos da década de 1960 e, embora aquele não fosse um modelo original, fora feito para ser conduzido e não para ficar guardado na garagem de um colecionador, o que era o ideal para si.
Não obstante, assim que chegasse o verão, acabaria numa garagem. Tanner enfiou os sacos na bagageira ao lado de uma caixa de recordações da casa. Já tinha a mochila no banco da frente no lugar do passageiro. O motor ganhou vida com um rugido gutural e ele avançou pela cidade, em direção à autoestrada, passando por filiais de lojas e restaurantes de fast food, e a pensar que, para além da praia, Pensacola não lhe parecia tão diferente de outros lugares dos Estados Unidos que tinha visitado recentemente. Ainda estava a habituar-se à homogenia de grande parte dos EUA e perguntava-se se alguma vez deixaria de se sentir como um estranho naquele país.
À medida que ia conduzindo, deu pela mente a vaguear pelos destaques da sua vida: uma juventude passada numa dúzia de bases militares na Alemanha e em Itália, a recruta em Fort Benning, na Georgia, quase uma década e meia no exército. As várias comissões no Médio Oriente e, depois de ter deixado a vida militar, o trabalho de segurança que realizara para a USAID — a sigla inglesa da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional — sempre no estrangeiro.
E desde então?
Basicamente, tinha-se mantido em movimento, mais que não fosse porque não sabia fazer outra coisa. Grande parte dos últimos dois anos fora passada na estrada, em viagens que o tinham levado de um lado do país ao outro. Enchera o telemóvel com fotografias de parques nacionais e vários monumentos à medida que tornava a estabelecer o contacto com amigos e, o que era mais importante, visitava as famílias de outros amigos que conhecera ao serviço do exército e que tinham falecido. No total, conseguia indicar vinte e três amigos que tinham sido abatidos ou que se haviam suicidado depois de passarem à reserva. Falar com as viúvas ou com os pais deles parecia-lhe a coisa correta a fazer, como se isso pudesse fazê-lo
aproximar-se de uma resposta de que precisava, mesmo que não soubesse ainda qual seria a pergunta.
Apesar de ainda ter mais umas quantas famílias na sua lista de visitas a fazer, a viagem fora interrompida em outubro, quando ficara a saber que o tempo da avó estava a acabar-se. Fosse porque fosse, apesar de se telefonarem e enviarem mensagens com frequência, ela nunca mencionara que, uns meses antes, lhe tinha sido diagnosticada uma doença pulmonar terminal. Tanner correra a Pensacola, onde se deparara com a avó acamada e a receber os cuidados de uma enfermeira. A primeira coisa que lhe ocorreu foi que parecia mais pequena do que se lembrava e que tinha dificuldades respiratórias mesmo com a máscara de oxigénio que lhe tornava o discurso lento e abreviado. A realidade visível da condição da avó provocou-lhe um aperto no estômago e, nos meses seguintes, praticamente não saiu do lado dela. Encarregou-se de grande parte da alimentação e dos cuidados da avó e era frequente dormir num catre que tinha instalado no quarto dela. Preparava-lhe batidos calóricos e triturava-lhe a comida até ficar tão passada quanto a que um bebé comeria; escovava-lhe o cabelo ralo com ternura e aplicava-lhe bálsamo nos lábios gretados. À tarde, quando ela não estava a dormir, era habitual ler-lhe algo de uma coletânea de poesia de Emily Dickinson enquanto ela se concentrava na vista da janela.
Dado que falar se ia tornando cada vez mais difícil para ela à medida que as semanas passavam, era ele quem fazia a maior parte da conversa. Falou-lhe do Grand Canyon, de Graceland, de um hotel de gelo no Norte do Wisconsin, bem como de uma dúzia de outros lugares, esperando que se entusiasmasse consigo; em vez disso, a preocupação estampada no rosto da avó era palpável. Estou preocupada por ir deixar‑te, parecia dizer, tens uma vida instável. Quando ele tentou explicar-lhe que as viagens recentes tinham sido uma forma de prestar homenagem aos amigos que perdera, a avó abanou a cabeça.
— Precisas de um… lar — rouquejou, antes de sucumbir a um ataque de tosse prolongado. Quando recuperou, fez-lhe sinal para que lhe desse o bloco de notas e a caneta que tinha na mesa de cabeceira. Encontra o lugar a que pertences e torna‑o teu, rabiscou.
Ciente de que ela ficaria desapontada por ele não parecer estar a caminho de assentar, Tanner não lhe contou que, em janeiro, Vince Thomas, um antigo amigo seu da USAID, o tinha contactado. Vince estava a preparar-se para um novo trabalho em África. Já tinham trabalhado juntos nos Camarões e ele dissera-lhe que precisava de um vice-diretor de segurança que conhecesse o país e os seus meandros políticos. Tanner lembrava-se de ter aceitado a proposta, considerando, na altura, que lhe parecia um passo seguinte tão bom como qualquer outro.
Agora, de volta à autoestrada interestadual pela primeira vez em meses, a paisagem campestre e plana do norte da Florida ia passando num borrão ocioso. Depois de uma visita rápida ao melhor amigo, Glen Edwards, e à família deste, Tanner tencionava viajar até Asheboro, na Carolina do Norte, sem saber o que encontraria por lá.
Asheboro.
Não muito antes de ter entrado em coma, a avó escrevera o nome da pequena cidade num bloco de notas.
Tal como Pensacola, o lado oriental da Carolina do Norte era um destino favorito para a reforma de veteranos militares e, depois de deixar a unidade especial Delta Force, Glen tinha aterrado bem ali. Geria um espaço tático que treinava equipas da polícia e de forças especiais de todo o país, tinha uma casa em Pine Knoll Shores com vista para a lagoa Bogue Sound, onde vivia com a mulher, Molly, e criava dois filhos já quase adolescentes. Tanner não ficou surpreendido quando Glen surgiu no alpendre da casa com uma garrafa de cerveja na mão assim que ele saiu do carro; tinham passado por tanto no serviço militar que era quase como se conseguissem adivinhar os pensamentos um do outro.
A casa tinha tetos altos e vistas lindíssimas, com o ar desarrumado e vivido que indicava a presença de uma família — mochilas amontoadas aos cantos e equipamento desportivo junto à porta. Quando os miúdos não exigiam a atenção de Glen, queriam a de Tanner, mostrando-lhe videojogos ou perguntando-lhe se assistia a um filme com eles. Ele adorava — sempre quisera ter filhos — e Molly, com o seu sorriso fácil e ar paciente, era do género de mulher que trazia ao de cima o melhor de Glen.
Ficou três dias com eles, partilhando refeições e passando tempo com a família. Foram à praia e ao Aquário da Carolina do Norte; à noite, conversavam no alpendre das traseiras, sob um teto de estrelas. Molly costumava ser a primeira a ir deitar-se, após o que Tanner e Glen tinham longas conversas.
Na primeira noite, Tanner pôs o amigo a par das suas viagens e das paisagens que tinha visto antes de descrever as visitas às famílias de amigos que perdera. Glen manteve-se em silêncio durante essa parte — também conhecera muitos deles — até admitir que não teria sido capaz de fazer aquilo.
— Não sei ao certo o que haveria sequer de lhes dizer.
Tanner percebia-o bem — nem sempre fora fácil para si, sobretudo quando a morte se devia a suicídio — e a conversa acabou por passar para temas mais fáceis. Contou-lhe do trabalho que o esperava nos Camarões e, no final, falou-lhe dos últimos meses em Pensacola, incluindo a revelação surpreendente que a avó fizera no final, a qual explicava a viagem que ia fazer até Asheboro.
— Espera — disse Glen, depois de parecer ter processado a informação por completo. — Ela só partilhou essa informação contigo agora?
— Ao início, achei que estaria confusa, mas quando o escreveu percebi que estava a falar a sério.
— E como é que isso te fez sentir?
— Chocado, acho. Talvez até um pouco zangado. Por outro lado, percebi que ela achava que tinha feito a coisa certa por mim ao guardar segredo. Tipo, talvez achasse que, de alguma maneira, estava a proteger-me. E… continuo a amá-la. Eles foram uns pais para mim.
Glen cerrou os lábios e nada disse; porém, na última noite que passaram juntos, retomou o tema.
— Tenho andado a pensar no que me disseste na outra noite e tenho de reconhecer que estou um bocado preocupado contigo, Tan.
— Achas que é errado ir a Asheboro?
— Não — respondeu Glen. — Que tenhas curiosidade em relação ao teu passado faz todo o sentido. Raios, se alguém me largasse uma bomba dessas em cima, eu provavelmente faria o mesmo. Mas preocupa-me a forma como tens vivido desde que deixaste o último emprego. Quero dizer, compreendo que tires algum tempo para viajar, visitar amigos ou o que seja, e também entendo que tivesses de cuidar da tua avó enquanto ela estava doente. Mas voltares para os Camarões? Essa parte não percebo. Parece-me que estás a adiar a tua vida, em vez de a viveres realmente. Ou de sequer dares um passo atrás. Quero dizer, nunca tiveste uma casa, pois não? Não te fartas de viver em constante movimento?
Pareces a minha avó, pensou Tanner, mas guardou o comentário só para si. Em vez disso, encolheu os ombros.
— Gostei de estar lá.
— Entendo — suspirou Glen. — Só não te esqueças de que, se alguma vez decidires assentar, tens um emprego à tua espera na
minha empresa. Podes viver onde quiseres, fazer os teus próprios horários e ter a oportunidade de voltar a trabalhar com alguma da malta da Delta. A Molly até tem uma irmã solteira. — E moveu as sobrancelhas, o que provocou uma risada a Tanner.
— Obrigado — disse ele, dando um trago na cerveja.
— E quanto à tua busca…
— Então não acabaste de dizer que compreendes a minha curiosidade?
— Compreendo. Só estava aqui a pensar se tentaste usar o 23andMe ou outro daqueles websites que testam o ADN.
— Tentei todos, mas, para além de uns quantos parentes muito distantes no Ohio e na Califórnia (tipo primos em terceiro ou quarto grau), não apareceu ninguém. Devia ser uma família pequena. Mas, se tiveres ideias que possam poupar-me a viagem, estou aberto a sugestões.
— Não tenho — admitiu Glen. — E não há dúvida que o teu plano é à moda antiga, mas sabe-se lá! Era assim que as pessoas
costumavam procurar, não era? Pode ser que tenhas sorte.
Tanner assentiu com a cabeça, mas tornou a perguntar-se qual seria a probabilidade de localizar alguém quarenta anos depois da última informação que se tinha sobre ela, sobretudo tratando -se de uma pessoa com um nome e um apelido tão comuns que se tornavam quase irrelevantes. Só nos Estados Unidos, havia quase dois milhões de pessoas com aquele apelido — ele tinha feito uma busca no Google — e mais de cem viviam em Asheboro.
Isso, claro, partindo do princípio de que ainda se pudesse confiar na memória da avó. Na sua letra trémula e quase ilegível, tudo o que conseguira fora O teu pai, Dave Johson, Ashboro NC, Lamento.
De Pine Knoll Shores, a viagem de carro até Asheboro demorou quatro horas. Ao chegar à cidade, Tanner passou por um Walmart para comprar um mapa, um caderno e canetas, antes de se dirigir à biblioteca. Com a ajuda da senhora simpática que se encontrava no balcão dos empréstimos, ficou a saber que a biblioteca não guardava listas telefónicas que remontassem às décadas de 1970 e 1980; ainda assim, ela arranjou-lhe uma de 1992. Teria de servir. O passo seguinte era encontrar o pai, um homem que nunca vira.
Sentou-se a uma das mesas da biblioteca e desdobrou o mapa para dividir a cidade em quatro quadrantes. Depois, usando a velha lista telefónica, tomou nota do nome e da morada de todos os que se apelidassem Johnson e apontou aproximadamente os locais no mapa; serviu-se do iPhone para fazer uma lista de correspondências com os Johnson que encontrou nas páginas brancas em linha com os mais antigos das páginas amarelas e assinalou no mapa os que coincidiam. Parecia-lhe que, para começar a bater a portas, mais valia tentar fazê-lo da forma mais eficiente possível.
Não tinha conseguido terminar antes da hora de fecho da biblioteca, o que queria dizer que precisaria de regressar na segunda-feira. Ocorreu-lhe visitar também os cartórios municipais; registos de propriedade talvez ajudassem a sua busca, mas isso teria de ser igualmente depois do fim de semana.
Deixou as suas coisas num Hampton Inn e, como estava a precisar de esticar as pernas, foi explorar a baixa. Passou por uma loja de antiguidades, uma florista e uma mancheia de butiques que ocupavam os pisos térreos de edifícios construídos no início do século anterior. Havia um belo parque no centro da cidade e, apesar das nuvens que se adensavam no céu, os passeios estavam cheios de gente a passear os cães e a empurrar carrinhos de bebé. A cena pareceu-lhe saída de outra era e levou-o a tentar imaginar como teria sido crescer ali. Teria o pai conhecido a sua mãe ali? Tanto quanto sabia, os avós nunca tinham vivido naquele lugar, portanto, como poderiam os seus pais ter -se cruzado? Mais perguntas a que a avó nunca poderia responder, sabia ele, desejando ter tido um pouco mais de tempo com ela.
Voltou para o hotel não muito antes de os primeiros pingos de chuva começarem a cair. Leu até à hora de jantar, concentrando-se num livro sobre a zona de operações do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial e pensando nas formas como a guerra moderna tinha evoluído desde então, ainda que alguns dos efeitos devastadores continuassem a ser os mesmos para os combatentes.
Quando o seu estômago começou a dar horas, procurou no telemóvel um bar desportivo onde lhe pareceu que poderia jantar. Quando chegou ao Coach’s, ficou surpreendido ao ver que o parque de estacionamento estava cheio. Teve de dar duas voltas pela área para encontrar um lugar. Caminhou para a entrada e, depois de empurrar a porta, foi inundado pelo som de vários televisores a transmitir um jogo de basquetebol universitário em alto som e de uma casa cheia de adeptos ruidosos. Tinha uma vaga memória de Glen mencionar algo acerca da Loucura de Março, o torneio de basquetebol masculino da AAUN, Associação Atlética Universitária Nacional.
Tanner abriu caminho por entre a multidão, a perscrutar automaticamente os rostos e a linguagem corporal à sua volta, atento a quem estivesse bêbedo ou pudesse estar à procura de uma briga. Não muito longe do bar, à volta de uma mesa alta, reparou em três homens que provavelmente estariam armados. Todos tinham um volume revelador ao fundo das costas, mas, pelos cortes de cabelo e pela postura, calculou que fossem polícias ou delegados do xerife fora de serviço, a descomprimir depois de um dia de trabalho. Não obstante, escolheu um lugar ao balcão a partir do qual poderia mantê-los debaixo de olho, bem como à maioria dos outros clientes. Era difícil desfazer-se dos velhos hábitos.
Quando o empregado do bar finalmente reparou na sua presença, Tanner pediu-lhe um hambúrguer e uma cerveja artesanal, da produção local, e desfrutou das duas coisas. Depois de o empregado ter levantado o seu prato vazio, observou distraidamente o jogo enquanto acabava a cerveja. Estava a beb -la quando a multidão à sua volta bradou subitamente, o que o fez estacar instintivamente. Os televisores repetiram a jogada em que um base marcava um cesto triplo. Expirou, mas ao mesmo tempo ouviu outro som que não parecia enquadrar-se nos restantes. Uma voz. Uma voz feminina.
— Já disse para me soltares!
Virou-se e viu uma jovem de cabelo castanho-escuro. Estava ao lado de uma mesa, a esforçar-se por libertar o braço de um rapaz com o boné virado para trás. Tanner contou o que lhe pareceram ser cinco adolescentes — três rapazes e duas raparigas, incluindo a morena — e viu-a a conseguir finalmente soltar o braço. Embora não tivesse vontade de se meter, não lhe agradava ver homens a usar força física para intimidar mulheres. Decidiu que, se o tipo voltasse a agarrá-la, teria de fazer algo.
Por sorte, a rapariga saiu disparada pela porta do bar. A amiga loura apressou-se a deslizar do banco para a seguir, enquanto os rapazes à mesa começavam a rir e a gritar-lhes coisas. Idiotas.
Tanner devolveu a atenção à televisão e, quando já só lhe restavam um ou dois tragos de cerveja, pô-la de parte, pronto para ir embora. Ao deitar a mão ao casaco, lançou um olhar na direção da mesa que tinha estado a observar e apercebeu-se de que o tipo de boné virado ao contrário — o que tinha agarrado a miúda — já não estava ali sentado, embora os dois amigos tivessem ficado. Raios.
Apressou-se a passar pela multidão para chegar à porta. Ao sair, passou o parque de estacionamento em revista e distinguiu o «Boné» e as duas raparigas perto de um todo-o-terreno preto. Mesmo ao longe, era evidente que estavam a discutir de novo. O Boné tinha voltado a agarrar a rapariga pelo braço, mas, desta feita, os esforços que ela fazia para se soltar eram em vão. Tanner começou a avançar na direção deles.
— Passa-se algum coisa? — gritou.
Todos voltaram o olhar na direção dele.
— E você quem é, porra? — resmungou o Boné, sem soltar a rapariga.
Tanner encurtou a distância que o separava do grupo até se encontrar a poucos metros deles.
— Solta-a.
Quando o Boné não reagiu, Tanner aproximou-se ainda mais. Sentia o treino da Delta Force a entrar em ação, todas as terminações nervosas em alerta.
— Não estou a pedir — afirmou, mantendo a voz baixa e calma.
O jovem hesitou por um segundo antes de finalmente soltar o braço da rapariga.
— Estava só a tentar conversar com a minha namorada.
— Eu não sou tua namorada! — guinchou a morena de repente. — Saímos uma vez! Nem sequer sei porque estás aqui!
Tanner virou-se para ela, reparando que estava a esfregar o braço como se ainda lhe doesse.
— Queres falar com ele?
Ela soltou o braço.
— Não — respondeu em voz baixa. — Só quero ir para casa.
Tanner voltou a fitar o jovem.
— Parece-me bastante claro — disse. — E se voltasses lá para dentro antes que te metas em sarilhos?
O Boné abriu a boca para dizer algo antes de pensar que talvez fosse melhor calar-se. Deu um passo atrás e depois, finalmente, virou-se para se ir embora. Tanner ficou a vê-lo afastar-se. Depois de ele ter entrado no bar, Tanner devolveu a atenção à jovem.
— Estás bem?
— Acho que sim — murmurou ela, sem o olhar nos olhos.
— Ela vai ficar bem — disse a amiga. — Mas não precisava de o assustar.
Talvez precisasse, pensou Tanner, talvez não. Tinha aprendido que magoar um ego muitas vezes era preferível à alternativa. Mas não valia a pena ficar a pensar no assunto.
— Tenham uma boa noite, então. — Assentiu com a cabeça. — Conduzam com cuidado.
Encaminhando-se para o outro lado do parque de estacionamento, encontrou o seu carro. Sentou-se ao volante e avançou por um corredor do parque de estacionamento para chegar à saída. Quando passou por onde se tinha deparado com os adolescentes, já não estava ali ninguém.
Lembrou-se de que precisava do telemóvel para ver o caminho, pelo que parou o automóvel para se inclinar para o lado e tirá-lo do bolso de trás das calças. Nesse momento, o grande todo-o-terreno preto que estava do lado do passageiro do seu carro galgou o corredor em marcha-atrás, a toda a velocidade. Antes de ter oportunidade de reagir, Tanner sentiu a traseira do carro a guinar de lado; virou a cabeça de supetão e deu pelo som de metal a ranger. E depois, de repente, acabou.
Recuperando toda a sua formação, fez uma vistoria automática em busca de lesões; mexia os braços e as pernas, não estava a sangrar e, ainda que de manhã talvez sentisse o pescoço e as costas doridas, não se magoara muito. Já o carro…
Inspirou profundamente enquanto abria a porta, a esperar que não fosse tão grave quanto parecera ou soara, mas já a suspeitar do pior. Primeiro deu a volta pela frente e depois foi até à parte de trás, vendo que o painel traseiro do Shelby tinha sido danificado a ponto de se cravar no pneu. O farolim estava estilhaçado e o impacto também abrira a bagageira. Quando tentou fechá-la, o trinco não prendia. O meu carro, lamentou-se. O meu carro novo…
Apanhado numa nuvem de fúria crescente, Tanner demorou um pouco a perceber que o outro condutor ainda não tinha saído do todo-o-terreno. Era um dos maiores — um Suburban — e ele tentou recuperar a calma com umas quantas respirações prolongadas. Quando finalmente se sentiu confiante quanto a ser capaz de lidar com o tipo sem perder a cabeça, começou a avançar na direção do lado do condutor, que não parecia ter sofrido danos. Preparava-se para levar a mão à porta, quando esta se abriu e um par de pernas finas e trémulas surgiu. Tanner estacou, dando conta de que estava a deparar-se de novo com a morena. Esta estava pálida, de olhos arregalados, e soltou um som engasgado antes de levar as mãos à cara e desatar a chorar.
Valha‑me Deus, resmungou Tanner entre dentes. É o que recebo por tentar ser prestável.
Deu-lhe um minuto e outro em seguida. A idade dela, e a reação que estava a ter, levavam-no a desconfiar que seria o seu primeiro acidente, o que é sempre uma experiência traumática. Por fim, quando as lágrimas começaram a acalmar, ela limpou o nariz à manga. Tanner comprimiu os lábios. Calculava que erguer a voz pudesse desencadear nova crise de choro, e isso era a última coisa que ele queria.
— Olha, presta atenção — disse-lhe, no mesmo tom pragmático que tinha usado com o Boné. — Antes de mais, podes dizer-me como te chamas?
As suas palavras pareceram demorar um pouco a ser entendidas. Ela olhou para cima, como se tentasse concentrar-se.
— A minha mãe vai matar-me — confessou ela. Deus me ajude, pensou Tanner. Embora não tivesse respondido à sua pergunta, ele interpretou a frase dela como sinal de que estava a pensar bem.
— Preciso de me assegurar de que não te magoaste. Podes virar a cabeça de um lado para o outro, assim? E depois vê se consegues assentir com a cabeça, OK?
Tanner demonstrou-lhe o que fazer e, depois de uma breve demora, a rapariga imitou-o lentamente.
— Dói-te a cabeça ou o pescoço? — perguntou Tanner. — Nem que seja só um pouco?
— Não – respondeu ela, a fungar.
— E os braços e as pernas, ou as costas? Sentes algum formigueiro, picadas, dores ou dormência de algum género? Consegues virar-te?
Ela franziu ligeiramente o cenho antes de rolar os ombros e girar a cintura.
— Tudo parece estar bem.
— Tenho alguma experiência de primeiros socorros, mas não sou médico. Pareces-me ilesa, mas talvez seja melhor que alguém te veja, só para termos a certeza.
— A minha mãe é médica – disse ela, parecendo distraída.
Reparando que as mãos dela ainda estavam a tremer, ele esforçou-se por manter um tom razoável.
— O parque de estacionamento é propriedade privada, por isso duvido que precisemos de chamar a polícia, mas será que podes mostrar-me a tua carta de condução, o livrete do carro e o cartão do seguro?
— A polícia? — perguntou ela, com a voz mais aguda a denotar o pânico.
— Eu acabei de dizer que não temos de chamar a…
— Agora, a minha mãe nunca me vai deixar ter um carro — interrompeu ela.
Tanner dirigiu o olhar ao céu antes de tornar a tentar.
— Será que podes encontrar as coisas de que precisamos, por favor? Livrete, carta de condução, informação sobre o seguro. Ela piscou os olhos.
— O carro é da minha mãe — disse ela, quase num sussurro. — Não sei onde está o livrete. Nem as coisas do seguro.
— Podes ver se estão no porta-luvas. Ou na consola entre os bancos da frente.
A rapariga virou-se, com um ar desequilibrado, e voltou a entrar lentamente para o todo-o-terreno. Entretanto, Tanner usou o telemóvel para tirar fotografias do acidente a partir de vários ângulos. Quando ela finalmente tornou a sair, passou lhe o livrete e a sua carta de condução.
— Não encontro o cartão do seguro, mas a minha mãe deve saber onde está.
Tanner virou o livrete; no verso tinha o nome da companhia de seguros e o número da apólice.
— Está aqui mesmo. Tirou fotografias antes de lhe devolver a carta de condução e o livrete do automóvel. Como ela obviamente não fazia ideia do que fazer, Tanner sacou dos seus próprios documentos.
— Tens um telemóvel?
Ela estava a fitar os danos dos veículos.
— O quê?
— Com o teu telemóvel, tira fotografias da minha carta de condução, do meu livrete e do meu cartão do seguro.
— Fiquei sem bateria no telemóvel.
Claro que ficaste. Servindo-se do seu próprio telemóvel, tirou fotografias aos documentos.
— Disseste que o todo-o-terreno é da tua mãe, não foi? Posso enviar as fotografias com a minha informação para ela e para ti. — Selecionou o teclado numérico do seu telemóvel. — Dás-me os vossos números?
— Não pode mandar só para mim? Para eu poder explicar-lhe o que aconteceu antes de ela começar a receber fotografias de um número que não reconhece?
Ele considerou o pedido.
— Está bem — concordou. — Envio para ti, mas dás-me o número dela também? Só pelo seguro?
Ela deu-lhe o seu número primeiro e depois o da mãe. Ele guardou os dois e enviou-lhe as fotografias; quando tornou a lançar-lhe um olhar de relance, viu que estava a morder o lábio.
— O melhor era ligares à tua mãe para que ela te venha buscar — sugeriu, oferecendo-lhe o seu telemóvel. — Tens as mãos a tremer, estás em choque, não te encontras em condições de conduzir.
Ela fitou o telemóvel, mas não o aceitou.
— Só temos este carro.
— E a tua amiga? Ela ainda está cá?
— Já se foi embora.
— Então e mais alguém? Há outro amigo a quem possas ligar?
— Não sei o número de ninguém.
— Como é possível que não saibas o número de ninguém?
Ela fitou-o como se ele fosse imbecil.
— Os números estão todos no meu telemóvel e acabei de lhe dizer que fiquei sem bateria.
Tanner fechou os olhos e tentou visualizar-se como um Buda.
— Está bem… Moras muito longe? Talvez eu pudesse levar-te a casa no teu todo-o-terreno?
Ela mirou-o, desta feita como se tentasse avaliar se ele seria de confiança.
— Acho que podia ser — acabou por concordar. — Não é assim tão longe.
— Consegues voltar a pôr o carro no lugar onde estava? Para separarmos os automóveis?
— Eu?
— Melhor ainda, eu trato disso — disse ele. — As chaves continuam lá dentro?
A fungar, ela acenou com uma mão na direção do veículo, o que Tanner interpretou como sendo um sim. Por sorte, o motor pegou logo e ele avançou lentamente para o espaço livre. Em seguida, verificou o para-choques do Suburban, o qual, para além de uns arranhões, parecia estar bem.
— A boa notícia é que o teu praticamente não tem estragos — comentou ele, a apontar. — Espera aqui, OK? Vou estacionar o meu e volto já.
Tanner meteu-se no carro e encontrou um lugar livre no corredor seguinte, conduzindo devagar e fazendo caretas ao ouvir o som do metal a raspar no pneu. Pelo espelho retrovisor, a bagageira empenada bloqueava-lhe parcialmente a visão.
Ia a perguntar-se se teria de enviar o carro de volta para a Florida ou se as reparações poderiam ser feitas por ali, mas concluiu que em breve o descobriria. Por ora, levaria a miúda a casa e esperava arranjar uma forma de a irritação não o impedir de dormir nessa noite.
Quando voltou ao todo-o-terreno, a rapariga estava encostada ao veículo, com um ar triste, mas já de olhos secos. Ela deu a volta para entrar pelo lado do passageiro, deixando que Tanner fosse ao volante. Depois, ele espreitou a fotografia da carta de condução dela que tinha guardado no telemóvel.
— Ainda moras em Dogwood Lane?
Ela assentiu com a cabeça.
— Com os teus pais?
— É só a minha mãe — balbuciou ela. — Eles divorciaram-se.
Tanner inseriu a morada no telemóvel, que lhe indicou que a casa ficava a apenas oito minutos dali.
— Não te esqueças de pôr o cinto — disse-lhe antes de virar o Suburban para a saída. Quando chegaram à estrada principal, lançou-lhe um olhar de relance. Tinha a postura de uma prisioneira a ser levada para a sua execução.
— Chamas-te Casey, certo? Casey Cooper? — perguntou-lhe ele. — Vi na tua carta de condução. — Quando ela assentiu com a cabeça, Tanner continuou. — Eu chamo-me Tanner Hughes.
— Olá — conseguiu ela responder, voltando os olhos por um instante na direção dos dele. — Lamento que tenha de me levar a casa.
— Não faz mal.
— E lamento mesmo, mesmo, mesmo muito ter batido no seu carro.
Já somos dois. Tentou usar o tom de voz da avó.
— Foi um acidente.
— Porque está a ser tão bonzinho em relação a isto tudo?
Ele pensou antes de responder.
— Acho só que me lembro de que também já fui jovem.
Ela ficou em silêncio durante algum tempo, antes de tornar a olhar para ele.
— A minha amiga disse que você tem uns olhos fixes. A Camille, quero dizer. A rapariga que estava comigo.
Já lhe tinham dito que tinham uma cor invulgar — castanho-claro que parecia verde ou dourado, dependendo da luz.
— Obrigado.
— Também disse que as suas tatuagens eram fixes.
Isso provocou-lhe apenas um sorriso.
Ela calou-se, a fitar a noite. Depois, abanando a cabeça, falou em voz baixa.
— A minha mãe vai ficar tão zangada. Tipo, possessa.
— Pode demorar algum tempo, mas há de passar-lhe — disse Tanner. — Vai ficar contente por não te teres magoado.
Ela pareceu ficar a pensar nisso enquanto viravam para um bairro com mais vegetação, por onde ela lhe foi indicando onde devia virar. A maioria das casas tinha dois pisos, com fachadas de tijolo, laterais de vinil e sebes cuidadas à frente.
— É aquela — disse Casey por fim, a apontar para uma das casas muito iluminadas. Tinha um pequeno alpendre à frente a que não faltava um par de cadeiras de baloiço e, ao avançar pelo acesso, Tanner viu movimento pela janela da cozinha. Ele desligou o motor, mas Casey não parecia ter pressa de sair.
— Queres que eu espere aqui? Enquanto contas à tua mãe o que aconteceu?
— Fazia isso? — perguntou ela. — Para o caso de ela precisar de falar consigo?
— Claro.
Isso pareceu ajudá-la a ganhar coragem. Enquanto Casey entrava na casa, Tanner saiu do todo-o-terreno e encostou-se à porta para ficar à espera.
Cinco minutos depois, uma mulher saiu da casa, com Casey atrás. A mãe, pensou Tanner; contudo, quando ela hesitou por um instante sob o brilho do candeeiro do alpendre, ele deu por si a observá-la com mais atenção.
Estava a usar umas calças de ganga desbotadas e uma blusa branca e simples à camponesa, com o cabelo castanho comprido apanhado num rabo de cavalo descuidado; à primeira vista, parecia demasiado jovem para ser mãe de Casey. As roupas largas não lhe disfarçavam as curvas generosas do corpo, mas, quando levantou uma mão para prender uma madeixa solta do cabelo escuro, ele teve a impressão de ver ali uma certa incerteza, uma hesitação que indicava uma desilusão passada, ou talvez arrependimento. Arrependida do quê, perguntou-se ele.
Era apenas uma impressão, um vislumbre instintivo. Contudo, enquanto a observava a recompor-se e descer do alpendre, com os pés descalços a mostrarem umas unhas pintadas de vermelho sob as dobras das calças, Tanner deu por si a pensar: Esta mulher tem uma história e eu quero conhecê‑la.”

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