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José Rodrigues dos Santos: “A China é um país muito mais perigoso do que a Rússia”

O novo livro do escritor e jornalista, “A Mulher do Dragão Vermelho”, é muito focado no regime comunista chinês. “Ninguém está a salvo".
É o novo livro do autor.

Foi a 20 de outubro que chegou às livrarias aquele que promete ser mais um bestseller de José Rodrigues dos Santos. O novo livro do escritor e jornalista português, “A Mulher do Dragão Vermelho”, leva a personagem de Tomás Noronha até à China.

É um pretexto, como o próprio autor assume, para escrever sobre o “perigoso” regime comunista chinês. José Rodrigues dos Santos acredita que é preciso alertar para a “realidade totalitária” do sistema político do país asiático, que “tem planos de dominação mundial”.

A narrativa arranca quando uma mulher misteriosa é perseguida na Índia. Maria Flor tenta ajudá-la, mas ambas acabam raptadas. É Tomás Noronha que as tenta resgatar — e vai contar com a ajuda inesperada de um agente secreto americano.

Prisioneira, Maria Flor consegue esconder uma mensagem críptica: o invulgar símbolo de uma velha profecia bíblica. Entre esta profecia e o rapto de Maria Flor, o interesse da CIA no caso e o terrível segredo que aquela mulher misteriosa tem para revelar, esta promete ser uma história envolvente e cativante — com o ritmo a que José Rodrigues dos Santos já habituou os leitores.

A edição da Planeta está à venda por 22,50€ e conta com 576 páginas. Leia a entrevista da NiT com o escritor.

O que o levou a querer contar esta história específica, neste contexto?
A guerra entre a Ucrânia e a Rússia integra um conflito global entre as democracias liberais e as ditaduras. Atrás da Ucrânia está o Ocidente, atrás da Rússia está a China. Acontece que a China, embora se finja pacífica e paladina da harmonia e da amizade, é um país muito mais perigoso do que a Rússia. Trata-se de uma ditadura de vigilância policial que reprime a livre opinião e a oposição e que tem mais de uma centena de campos de concentração com até três milhões de prisioneiros por razões de etnia. Pratica tortura, esterilizações forçadas das minorias étnicas e escravatura. Além disso, tem planos de dominação mundial que passam por exportar o seu modelo de regime para o mundo inteiro. Escrevi “A Mulher do Dragão Vermelho” para mostrar toda esta realidade escondida que ameaça a nossa liberdade.

Já há muito que queria levar as aventuras de Tomás Noronha até à China?
Não. É a realidade totalitária do regime nacional-socialista chinês que me impôs o tema. Estamos distraídos a olhar para a Rússia, mas atrás dela encontra-se um regime muito mais perigoso.

É, portanto, uma forma de alertar para os perigos do regime chinês?
A boa ficção é sempre sobre a verdade. Os escritores interessam-se pelos grandes temas do seu tempo e procuram lançar alertas antes de os problemas se tornarem visíveis. O regime chinês é um problema prestes a explodir nas nossas caras e, como romancista, tenho a responsabilidade de o expor. 

Acredita que o regime político chinês é subvalorizado no ocidente e, em particular, em Portugal, pelas pessoas comuns?
Não só pelas pessoas comuns, mas pelas próprias lideranças. Por exemplo, o governo português afirmou recentemente que pretende aderir ao projeto neocolonialista da ditadura chinesa, as Novas Rotas da Seda, ao convidar Pequim a comprar Sines. Isto mostra o nível de ignorância que existe sobre o tema. Acusamos Salazar, e bem, de não ter denunciado a ditadura nazi, mas nós próprios estamos em silêncio diante de uma ditadura nacional-socialista como a chinesa. E até lhe sorrimos, fazemos promessas de amizade e pedimos o seu dinheiro.

Tem mais de 500 páginas.

Qual foi o grande desafio de escrever este livro?
Escrever de uma forma que se entenda exatamente o que é o regime comunista chinês. A sua realidade interna e o seu projeto para o mundo. Essa realidade é tão incrível que ultrapassa a imaginação.

De que forma é que se procurou informar sobre o regime chinês para escrever sobre ele?
Li estudos académicos e relatórios da ONU, da Amnistia Internacional e do Human Rights Watch.

Nessa pesquisa, houve algo que o tenha surpreendido e impactado particularmente? Ou já estava bastante informado e familiarizado com o assunto?
Já tinha abordado o estado de vigilância policial da China, com recurso amplo e ilimitado à inteligência artificial, num romance anterior, “Imortal”. Porém, o assunto tem tal gravidade que me pareceu ser importante regressar a ele com maior profundidade. Muitas coisas me surpreenderam. Por exemplo, o romance conta a história de uma pessoa a quem a polícia chinesa instalou uma câmara de vigilância na sala de estar, com microfone, para a ver e escutar em permanência, apenas porque ela não tinha feito o seu habitual passeio das nove da manhã. Acontece que este episódio não saiu da minha imaginação. Aconteceu mesmo. Tudo o que está no romance, mesmo as coisas que nos podem parecer mais incríveis, é baseado em coisas que aconteceram a pessoas reais.

Foi fácil, a partir deste tema de contexto real, desenvolver a narrativa de ficção?
Fácil, fácil… não direi. Mas, de certo modo, este romance só é de ficção no nome. Como disse, tudo o que está nele escrito é baseado em coisas verdadeiras.

Teme algum tipo de represálias por parte do regime chinês?
A China raptou um cidadão sueco por ter publicado livros a criticar o regime. Portanto, ninguém está a salvo. Mas não podemos ceder ao medo. As coisas têm de ser ditas. 

Qual será o destino de Tomás Noronha numa próxima aventura? Já está a escrever esse livro?
O próximo romance já está na fase de revisão, mas a seu tempo falarei dele.

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