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“José Rodrigues dos Santos sugerir que os judeus se adaptaram a Auschwitz é obsceno”

O escritor João Pinto Coelho aponta vários erros e imprecisões históricas ao autor de "O Mágico de Auschwitz".
João Pinto Coelho escreve recorrentemente sobre o tema

O pivot da RTP e autor de “O Mágico de Auschwitz” e “O Manuscrito de Birkenau” passou pelo programa Grande Entrevista a 18 de novembro para falar sobre o seu mais recente livro. Quase um mês depois, a polémica chegou às redes sociais.

Numa longa publicação, João Pinto Coelho acusou José Rodrigues dos Santos de cometer diversos erros históricos entre os vários comentários sobre o Holocausto. Entre eles, o de que a Solução Final de usar gás para exterminar milhões de judeus surgiu como forma “mais humana” de resolver o problema da fome nos guetos.

“A certa altura, há alguém que diz: Eh, pá, estão nos guetos, estão a morrer de fome, não podemos alimentá-los. Se é para morrer, mais vale morrer de uma forma mais humana. E porque não com gás?”, disse Rodrigues dos Santos na entrevista, aludindo de forma figurada ao raciocínio das cúpulas nacional-socialistas.

O romancista cujo tema do Holocausto cruza as suas obras foi um dos maiores críticos, ele que por várias vezes visitou o campo a poucos quilómetros de Cracóvia e que trabalhou lado a lado com investigadores e sobreviventes.

É também presença recorrente nas escolas portuguesas, onde debate o tema com os alunos. O vencedor do prémio LeYa em 2017 não foi a única voz. A historiadora Irene Pimentel também acusou José Rodrigues dos Santos de “ignorância e desfaçatez”.

O autor de “O Mágico de Auschwitz” não passou ao lado das críticas e, numa longa carta publicada na “Sábado”, rebate cada um dos pontos principais da longa lista de alegados erros, num discurso que também teve direito a acusações de “sonsice”. 

No rescaldo da polémica, a NiT falou com João Pinto Coelho, que se mostrou pouco convencido com os argumentos do jornalista da RTP. E deixou um aviso: não deixará passar em branco quaisquer “revisionismos históricos”.

Sente que a polémica tomou proporções extremadas?
Não tenho a mais pequena dúvida. A partir de certa altura deixou de ser uma discussão em torno de um assunto que tem que ser discutido e passou a ser uma luta entre admiradores de José Rodrigues dos Santos e pessoas que não simpatizam com ele. Era esperado, embora nunca pensasse que as coisas escalassem desta maneira. É o lado escuro das redes sociais. Temos que fazer tudo para dirigir a atenção das pessoas para o que verdadeiramente interessa.

Levantou uma série de dúvidas sobre a veracidade de afirmações feitas por JRS sobre o Holocausto. Sente que a resposta encerrou o tema ou nem por isso?
Eu rebati as opiniões dadas numa entrevista televisiva. Não falamos aqui do livro porque eu nunca o li. A verdade é que as coisas foram ditas e a resposta que deu mais tarde, ao que eu e outras pessoas dissemos e com que o confrontamos, não foram respostas. Isto porque as questões que estão em análise não são polémicas. A historiografia do Holocausto já as arrumou há muito tempo e não é por alguém se ter lembrado há dois anos de que quer escrever um livro sobre Auschwitz que pode vir mais tarde contestar o que está perfeitamente esclarecido. Vir agora pôr em causa coisas essenciais no entendimento do Holocausto é algo que não podemos aceitar. Irei sempre contestar esse revisionismo histórico.

Centrou-se muito na frase em que JRS invocava que a Solução Final teria sido criada como forma mais humana de exterminar os judeus. A verdade é que a resposta e a justificação citaram um documento histórico.
Um documento escrito por uma pessoa não pode qualificar o pensamento de um regime. É curto. Não chega. Há três questões fundamentais no discurso de José Rodrigues dos Santos que estão mais do que resolvidas e que não mereciam ser colocadas de uma forma completamente distorcida.

Quais são elas?
Quando afirma que o gaseamento dos judeus foi determinado por razões humanitárias. Esse não era de todo o raciocínio nacional-socialista. Isso está esclarecido. Outra é a questão da adaptação [dos judeus à vida em Auschwitz], que eu acho obsceno. Ele elenca um conjunto de teorias segundo as quais o ser humano tem uma enorme capacidade de se adaptar. Vejamos: estamos a falar de pessoas que acordavam às cinco da manhã no inverno, que saíam para a rua para horas seguidas de trabalho escravo com meio litro de café no estômago, pijama às riscas vestido debaixo de vento, neve e temperaturas negativas. Pessoas doentes. Não falamos de adaptação, falamos de resistência e essa era pouca, porque sabemos que resistiam semanas, por vezes dias. É obsceno falar de adaptação. Dizer que o genocídio nazi tinha por base uma vontade dos nazis de salvarem a humanidade… Acho isso um disparate absolutamente inqualificável. Ninguém que conheça o que foi Adolf Hitler e toda a tribo que o rodeava pode admitir um altruísmo desse género. Repare que o JRS não fala de salvar a Alemanha, de consolidar o Reich de mil anos; fala de salvar a humanidade. Esse altruísmo é uma coisa que só pode existir na cabeça de alguém que verdadeiramente não entende o que se passou nesse período.

Acha então que houve ignorância dos factos, má interpretação ou apenas vontade de montar uma boa história?
Eu não consigo entrar na cabeça de quem profere uma declaração desse género. Quem usa o termo de adaptação no contexto de Auschwitz e do sofrimento excruciante por que passaram centenas de milhares de pessoas… Não consigo compreender as razões por detrás disso. São declarações chocantes, erradas, ofensivas. É a única forma que tenho para as qualificar.

Num tema tão delicado como este, sente que ele tem sido abordado de forma superficial nos últimos tempos? O Holocausto foi banalizado?
Não penso que seja sequer recente. Sempre houve uma tendência de banalizar o Holocausto. É precisamente por existir essa tendência que esta discussão tem lugar e é importante. É precisamente pela falta de conhecimento. Temos que conhecer profundamente o que se passou. O Eliezer Wiesel, sobrevivente e Prémio Nobel da Paz, disse que os historiadores já tinham feito o seu papel e que era tempo de entrarem em ação os filósofos, não para nos explicarem o que aconteceu mas porque é que aconteceu. Encontrar as razões que deram lugar a que uma das nações que são uma referência civilizacional da Europa fosse capaz de conceber um processo de extermínio com esta dimensão. Só nos podemos aproximar disso com o conhecimento e sobretudo nunca fantasiando. Podemos ficcionar sobre o Holocausto, mas mesmo sendo ficção — e a ficção é por natureza uma invenção — não deve ser confundida com fantasia.

Do outro lado, a maioria dos leitores não tem tempo para andar a verificar informações em documentos e registos históricos. Quais são os perigos que podem ter origem nessa mistura da fantasia com a história?
Precisamente o desconhecimento e a banalização do Holocausto. Nos últimos anos tenho percorrido as escolas do País a falar sobre estes assuntos e curiosamente reparo que um dos livros, talvez o mais lido nas escolas no que toca ao Holocausto, é o “Rapaz do Pijama às Riscas”, que conta o que nunca poderia acontecer num campo de extermínio. Cabe também aos educadores ter essa preocupação em saber o que mostramos e damos a ler aos alunos. Caso contrário, ficamos com uma imagem que não corresponde à realidade. Portugal não teve uma relação estreita com o que aconteceu nesse período, mas há aqui uma questão mais crucial: o Holocausto é um acontecimento humano, feito por homens muito parecidos connosco. A Simone Veil costumava dizer que, em muitos aspetos, é o acontecimento mais europeu do século XX. Não podemos olhar para ele do alto do nosso balcão, como se aquilo não nos comprometesse de alguma forma. Como o Primo Levi dizia: se aconteceu, pode voltar a acontecer.

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