Livros

Leia aqui (em exclusivo) o primeiro capítulo do novo livro de Nicholas Sparks

“Um Sonho Só Nosso” vai ser publicado esta terça-feira. Trata-se de uma história que coloca três pessoas em rota de colisão.
O autor é um dos mais populares do mundo.

Chama-se “Um Sonho Só Nosso” e é o novo livro de Nicholas Sparks, um dos escritores mais populares do mundo — todas as obras que assina são autênticos bestsellers. Vai ser publicado esta terça-feira, 20 de setembro (em Portugal é uma edição da ASA), ao preço de 18,90€. Ao todo, conta com 368 páginas.

Esta segunda-feira, dia 19, a NiT antecipa o lançamento com a pré-publicação em exclusivo do primeiro capítulo da história. Antes de começar a ler, também lhe fazemos uma breve contextualização da narrativa de “Um Sonho Só Nosso”.

Um dos protagonistas é Colby Mills, que sempre acreditou no seu futuro como músico. Isso é verdade até ao dia em que uma tragédia deixa por terra todas as suas aspirações. Ocupa-se agora a gerir uma pequena quinta no estado americano da Carolina do Norte.

Porém, certo dia, por impulso, aceita tocar num bar na Florida — buscando apenas uma pausa na sua dura vida rural. Não esperava que a encantadora Morgan Lee entrasse na sua vida e o fizesse questionar tudo. Filha de médicos de Chicago, com formação (e gosto) musical, tem uma paixão contagiante pela vida. E os dois parecem completar-se na perfeição.

Outra personagem importante é Beverly. Fugiu do marido violento com o filho de seis anos e está à procura de começar de novo num local tranquilo e discreto. Mas com pouco dinheiro e o perigo iminente, o desespero obriga-a a tomar uma decisão que promete mudar tudo. Este trio de protagonistas entrará em rota de colisão, “obrigando-as a questionar o poder dos sonhos perante a ameaça das amarras do passado”, descreve a sinopse oficial. Leia então o primeiro capítulo do romance.

“Deixem-me dizer-lhes quem sou: chamo-me Colby Mills, tenho vinte e seis anos e estou sentado numa cadeira desdobrável de tiras de plástico em St. Pete’s Beach, na Florida, num belo domingo de meados de maio. A caixa térmica a meu lado está cheia de cervejas e de água gelada, e a temperatura é quase perfeita com uma brisa constante suficientemente forte para afastar os mosquitos. Atrás de mim fica o Don Cesar Hotel, uma construção imponente que me faz lembrar uma versão cor-de -rosa do Taj Mahal, e ouço música ao vivo vinda da área da piscina. O sujeito que está a tocar não é mau; de vez em quando estrangula os acordes, mas duvido que alguém se importe. Dei uma espreitadela ao lugar algumas vezes desde que me instalei aqui e reparei que a maior parte dos hóspedes tem estado a dar-lhe nos cocktails desde o começo da tarde, o que quer dizer que provavelmente gostariam do que quer que fosse que estivessem a ouvir. 

A propósito, não sou de cá. Antes de aqui chegar, nunca tinha ouvido sequer falar neste sítio. Quando as pessoas lá na terra me perguntavam onde ficava St. Pete’s Beach, eu explicava que era uma povoação balnear do outro lado da estrada-dique que vem de Tampa Bay, perto de St. Petersburg e de Clearwater, na costa ocidental da Florida, o que não ajudava muito. Para a maior parte dos que perguntavam, Florida significava mulheres de biquíni nas praias de Miami e parques de diversões em Orlando, juntamente com um monte de outros lugares de que ninguém queria verdadeiramente saber. Para ser franco, antes de aqui chegar, para mim a Florida era apenas um estado com um formato esquisito pendurado na ponta da costa leste dos Estados Unidos. 

Quanto a St. Pete’s Beach, o que tem de melhor é uma maravilhosa praia de areia branca, a mais bonita que alguma vez vi. O areal é debruado por uma mistura de hotéis caros e motéis baratos, mas os bairros são na sua maioria tipicamente classe média, habitados por operários reformados e famílias a gozar umas férias económicas. Há os habituais restaurantes fast food, centros comerciais, ginásios e lojas que vendem artigos de praia de plástico, mas apesar de todos estes sinais óbvios de modernismo a povoação tem qualquer coisa que a faz parecer um pouco esquecida. 

Seja como for, tenho de admitir que gosto de aqui estar. Tecnicamente, vim para trabalhar, mas a verdade é que tem sido mais umas férias. Vim fazer quatro atuações semanais no Bobby T’s Beach Bar durante três semanas, mas as atuações duram só umas poucas horas, o que significa que tenho montes de tempo para ir correr ou ficar sentado ao sol ou não fazer absolutamente coisa nenhuma. Não é difícil uma pessoa habituar-se a uma vida assim. A malta que frequenta o Bobby T’s é simpática – e sim, amiga dos copos, como no Don Cesar – mas não há nada melhor do que tocar para um público apreciador. Sobretudo considerando que sou basicamente um desconhecido vindo de fora do estado que deixou mais ou menos de tocar dois meses depois de acabar o secundário. Durante os últimos sete anos, toquei de vez em quando para amigos e conhecidos que organizavam uma festa, mas pouco mais. Atualmente, considero a música um hobby, ainda que seja um hobby que adoro. Não há nada que me dê mais prazer do que passar um dia a tocar ou a escrever canções, mesmo que na vida real não tenha muito tempo para isso. 

Mas aconteceu uma coisa engraçada nos primeiros dez dias que aqui passei. As minhas duas primeiras exibições decorreram mais ou menos como seria de esperar, com um público que assumi ser típico do Bobby T’s. Cerca de metade dos lugares ocupados por pessoas a beber cerveja ou cocktails, a maior parte a apreciar o pôr do Sol e a conversar enquanto a música tocava em fundo. Na terceira, porém, os lugares estavam todos ocupados, e reconheci algumas caras das sessões anteriores. Quando apareci pela quarta vez, não só todos os lugares estavam ocupados como até havia um punhado de pessoas dispostas a ficar de pé para me ouvir. Quase ninguém estava a olhar para o pôr do Sol, e comecei a receber pedidos para algumas das minhas canções originais. Pedidos para clássicos de bar de praia como Summer of 69, American Pie e Brown‑eyed Girl são comuns, mas a minha música? Então, ontem há noite, o público extravasou para a praia, tinham sido colocadas cadeiras adicionais e as colunas ajustadas de modo a que toda a gente pudesse ouvir-me. Enquanto preparava o equipamento, assumi que era apenas a malta de sábado à noite, mas o gerente, o Ray, garantiu-me que o que estava a acontecer não era típico. Na realidade, disse, era a maior multidão que alguma vez tinha visto no Bobby T’s. 

Devia ter ficado muito contente com aquilo, e acho que fiquei, pelo menos um bocadinho. Ao fim e ao cabo, trabalhar para pagar uma férias de copos num bar de praia com desconto nas bebidas e pores de Sol não tem nada que ver com encher estádios por todo o país. Admito que, há anos, ser «descoberto» tinha sido um sonho – acho que é o sonho de qualquer pessoa que goste de atuar em público –, mas, pouco a pouco, esses sonhos foram-se dissolvendo na luz da recém-descoberta realidade. Não fiquei triste nem amargurado. O meu lado lógico sabe que aquilo que queremos e aquilo que conseguimos são regra geral coisas completamente diferentes. Além disso, daqui a dez dias vou voltar à vida que fazia antes de vir para a Florida. 

Não me interpretem mal. A minha vida real não é má. Na realidade, até sou bastante bom naquilo que faço, ainda que as longas horas de trabalho possam levar uma pessoa a sentir-se isolada. Nunca saí do país, nunca andei de avião e só tenho uma vaga consciência das últimas notícias, sobretudo porque acho as cabeças-falantes da TV um tédio absoluto. Contem-me o que está a acontecer no nosso país ou no mundo, falem-me de qualquer assunto de grande importância política, e eu prometo ficar surpreendido. Mesmo que isto ofenda certas pessoas, nem sequer voto, e só sei o apelido do governador porque uma vez toquei num bar chamado Cooper’s em Carteret County, perto da costa da Carolina do Norte, a cerca de uma hora de minha casa. 

Por falar nisso… 

Moro em Washington, uma pequena povoação na margem do rio Pamlico no leste da Carolina do Norte, ainda que algumas pessoas se lhe refiram como Little Washington ou The Original Washington, para distinguir a minha terra natal da capital do país, que fica a cinco horas de viagem para nordeste. Como se alguém pudesse confundi-las. Washington e Washington D.C. são o mais diferentes que dois lugares podem ser, sobretudo porque a capital é uma grande cidade rodeada de subúrbios e um centro de poder, ao passo que a minha terrinha é uma minúscula povoação rural com um supermercado chamado Piggly Wiggly. Vivem lá menos de dez mil pessoas, e nos meus anos de adolescente costumava perguntar- -me por que raio havia alguém de querer lá viver, para começar. Durante uma grande parte da minha vida, ansiei fugir dali para fora o mais depressa possível. Hoje, porém, cheguei à conclusão de que há lugares piores a que chamar «casa». Washington é sossegada, as pessoas são simpáticas, do género de acenar do alpendre a quem passa de carro. Há uma bonita marginal ao longo do rio com alguns restaurantes decentes, e para os que gostam das artes há o Turnage Theater, onde os habitantes locais podem assistir a peças representadas por outros habitantes locais. Neva talvez uma ou duas vezes de dois em dois ou três em três anos e a temperatura no verão é muito mais amena do que em lugares como a Carolina do Sul ou a Geórgia. Velejar no rio é um hobby popular e posso, de um momento para o outro, carregar a prancha de surf na caixa da pick‑up e estar a apanhar umas ondas na praia antes de ter sequer acabado de beber o copo de café «para levar». Greenville – uma cidade para o pequeno mas uma cidade a sério, com equipas de desporto universitárias, cinemas e lugares para comer mais variados – fica a um pulinho pela autoestrada, vinte e cinco minutos de condução fácil. 

A capa do livro.

Por outras palavras, gosto de lá viver. Habitualmente, nem sequer penso se estou a perder qualquer coisa maior ou melhor ou seja o que for. Como regra geral, aceito as coisas como elas são e tento não esperar demasiado e não me arrepender muito. Pode não parecer nada de especial, mas comigo resulta. 

Suponho que é capaz de ter alguma coisa que ver com a maneira como fui educado. Quando era pequeno, vivia com a minha mãe e a minha irmã numa pequena casa não muito longe da beira-rio. Não cheguei a conhecer o meu pai. A minha irmã é seis anos mais velha do que eu e as recordações que guardo da minha mãe são nebulosas, esbatidas pela passagem do tempo. Tenho uma vaga reminiscência de espetar com um pau um sapo que saltava pela relva e da minha mãe a cantar na cozinha, e pouco mais. Tinha cinco anos quando ela morreu, de modo que eu e a minha irmã mudámo-nos para a quinta dos nossos tios nos arredores da povoação. A minha tia era a irmã muito mais velha da minha mãe, e apesar de nunca terem sido assim muito chegadas, era a única família que nos restava. Na ideia deles, fizeram o que era necessário fazer porque era também o que deviam. 

Eram boa gente, os meus tios, mas por nunca terem tido filhos, duvido muito que soubessem muito bem no que se estavam a meter. Trabalhar na quinta ocupava-lhes o tempo quase todo, e eu e a minha irmã Paige não éramos exatamente crianças fáceis, pelo menos a princípio. Eu era propenso a acidentes – na altura, crescia como uma erva daninha e tropeçava a cada três passos que dava. Também chorava muito – suponho que sobretudo por causa da minha mãe – embora não me lembre disso. Quanto à Paige, ia já muito para lá da curva no que respeitava a maus humores de adolescente. Conseguia gritar ou chorar ou armar uma fita como os melhores, e passava dias inteiros trancada no quarto enquanto chorava e recusava comer. Ela e a minha tia foram fogo e gelo logo desde o início, mas eu sempre me senti seguro a seu lado. Apesar de os nossos tios fazerem o melhor que podiam, deve ter sido estafante, de modo que, pouco a pouco, a tarefa de criar-me foi passando para a minha irmã. Era ela que me embrulhava os almoços para a escola e me acompanhava até ao autocarro, aos fins de semana fazia-me sopas Campbell’s ou Kraft Macaroni com queijo e sentava-se a meu lado enquanto eu via desenhos animados. E como partilhávamos o quarto, era a pessoa com quem falava antes de adormecer. Às vezes, mas não sempre, ajudava-me a fazer as minhas tarefas além de fazer as dela; agricultura e trabalho são praticamente sinónimos. A Paige era de longe a pessoa em quem eu mais confiava no mundo.

Também era talentosa. Adorava desenhar e era capaz de passar horas a fazê -lo, razão pela qual não estou nada surpreendido por ter acabado por tornar-se artista. Atualmente ganha a vida a trabalhar com vidro colorido, fazendo à mão réplicas de candeeiros Tifanny que custam dinheiro a sério e têm muita procura entre os decoradores de interiores do escalão mais alto. Criou um belo negócio online e eu orgulho-me dela, não só pelo que significou para mim enquanto crescia, mas também porque a vida lhe deu pontapés a sério mais do que uma vez. Houve alturas, admito, em que me perguntei como conseguia ela seguir em frente. 

Não me interpretem mal no que respeita aos meus tios. Apesar de ser a Paige que cuidava de mim, foram sempre eles que fizeram as coisas importantes. Tínhamos camas decentes e todos os anos recebíamos roupas novas para a escola. Havia sempre leite no frigorífico e biscoitos nos armários. Nenhum deles era violento, raramente erguiam a voz, e acho que a única vez que os vi beber um copo de vinho foi na véspera de Ano Novo, quando era adolescente. Mas a agricultura é trabalho duro; uma quinta é, de muitas maneiras, como uma criança exigente e sempre a precisar de qualquer coisa, e eles não tinham tempo nem energia para ir aos eventos escolares ou levar-nos à festa de anos de um amigo ou sequer atirar uma bola de futebol de um lado para o outro no fim de semana. Aliás, numa quinta não há fins de semana; os sábados e os domingos são dias como quaisquer outros. Praticamente a única coisa que fazíamos como família era jantar todos os dias às seis, e a minha sensação é que me lembro de todos esses jantares, sobretudo porque eram todos iguais, sem tirar nem pôr. Éramos chamados à cozinha, onde ajudávamos a pôr a comida na mesa. Quando nos sentávamos, e mais por uma noção de obrigação do que por verdadeiro interesse, a nossa tia perguntava-nos como tinha sido o dia na escola. Enquanto respondíamos, o meu tio barrava com manteiga as duas fatias de pão que acompanhavam a sua refeição, fosse o que fosse que comêssemos, e assentia em silêncio às nossas respostas, fosse o que fosse que disséssemos. Depois disso, o jantar era pontuado apenas pelo tilintar dos talheres nos pratos. Por vezes, eu e a Paige falávamos, mas a minha tia e o meu tio concentravam-se em acabar a refeição, como se fosse mais uma tarefa que tinham de completar. Ambos eram de um modo geral silenciosos, mas o meu tio levava o silêncio a um outro nível. Passavam-se dias em que não o ouvia dizer uma única palavra. 

Mas tocava guitarra. Não faço ideia como aprendeu, mas era razoável com o instrumento e tinha uma voz rouca e forte que prendia o ouvinte. Cantava sobretudo coisas do Johnny Cash e do Kris Kristofferson – country folk, como lhes chamava –, e uma ou duas vezes por semana, depois do jantar, sentava-se no alpendre e tocava. Quando comecei a mostrar interesse – devia ter sete ou oito anos na altura – entregou-me a guitarra e com as mãos calejadas ajudou-me a aprender os acordes. Eu não tinha um jeito natural, nem pouco mais ou menos, mas ele era surpreendentemente paciente. Mesmo com aquela pouca idade, percebi que encontrara a minha paixão. A Paige tinha a sua arte, eu tinha a minha música. 

Comecei a praticar sozinho. Comecei também a cantar, sobretudo o género de canções que o meu avô cantava, porque eram as únicas que sabia. Os meus tios deram-me uma guitarra acústica no Natal, e depois uma elétrica no ano seguinte, e eu praticava também com essa. Aprendi sozinho a tocar de ouvido canções que ouvia na rádio, sem nunca ter aprendido a ler música. Com doze anos, tinha chegado a um ponto em que conseguia ouvir uma canção uma vez e imitá-la quase na perfeição. 

À medida que crescia, as minhas tarefas na quinta iam naturalmente aumentando, o que significava que nunca podia praticar tanto quanto queria. Não bastava dar água e comida às galinhas todos os dias, tinha de consertar tubos de irrigação ou passar horas sem fim a catar vermes das folhas de tabaco e a esmagá-los com os dedos, uma coisa que é tão nojenta como parece. Muito antes de chegar à adolescência, já tinha aprendido a conduzir tudo o que tivesse um motor – tratores, retroescavadoras, segadoras, semeadoras, é só escolher – e passava fins de semana inteiros a fazê -lo. Também aprendi a consertar e reparar tudo o que estivesse partido ou avariado, ainda que com o tempo tenha acabado por detestar aquilo. Com o trabalho na quinta e a música a ocuparem todo o meu tempo livre, por algum lado a coisa tinha de partir, e as minhas notas no secundário começaram a cair. Não quis saber. A única aula que verdadeiramente me interessava era a de música, sobretudo porque a minha professora era uma autora de canções amadora. Interessou- -se especialmente por mim e, com a sua ajuda, compus a minha primeira canção quando tinha doze anos. Viciei-me naquilo e comecei a compor sem parar, e fui melhorando pouco a pouco. 

Por essa altura, a Paige estava a trabalhar com uma artista local que se tinha especializado no vidro colorido. Trabalhava na loja em part‑time e frequentava o secundário, mas no último ano já fazia os seus próprios candeeiros inspirados nos Tiffany. Ao contrário de mim, sempre teve boas notas, mas não quis ir para a universidade. Em vez disso, trabalhou para criar o seu negócio, e então conheceu um sujeito e apaixonou-se. Deixou a quinta, mudou-se para o Texas e casou. Quase não soube nada dela durante aqueles anos depois de se ter ido embora; mesmo depois de ter tido um filho, só a via muito de longe em longe numa chamada por FaceTime, com um ar cansado e uma criança a chorar ao colo. Pela primeira vez na minha vida, senti que não estava ninguém a tomar conta de mim. 

Some-se tudo isto – os meus tios assoberbados de trabalho, a minha falta de interesse nos estudos, a partida da minha irmã e todas aquelas tarefas que acabara por odiar – e não admira que tenha começado a rebelar-me. Logo que entrei para o secundário, juntei-me a um grupo de tipos com as mesmas tendências, e espicaçávamo-nos uns aos outros a fazer mais e pior. Ao princípio, eram pequenas coisas – atirar pedras pelas janelas de casas abandonadas, falsos telefonemas a meio da noite, roubar um ou outro chocolate numa loja de conveniência –, mas passados poucos meses um desses meus amigos roubou uma garrafa de gin ao pai. Encontrámo-nos junto ao rio e passámos a garrafa de mão em mão. Bebi demasiado e passei o resto da noite a vomitar, mas como sou uma pessoa honesta, vou admitir que não aprendi a lição. Em vez de afastar a garrafa sempre que ela me saiu ao caminho em anos futuros, passei inúmeros fins de semana depois disso com partes do cérebro bastante para o nublado. As minhas notas continuavam a ser uma miséria e comecei a fugir a certas tarefas. Não me orgulho de quem era na altura, mas também sei que é impossível mudar o passado.

Logo depois de ter começado o décimo ano, no entanto, a minha vida deu mais uma volta. Por essa altura já me tinha afastado dos tais amigos, e ouvi dizer que uma banda local precisava de um novo guitarrista. Porque não, pensei? Tinha só quinze anos, e quando apareci na audição vi que os membros da banda – todos eles na casa dos vinte – disfarçavam o riso. Ignorei-os, liguei a guitarra elétrica e toquei o solo de Eruption, do Eddie Van Halen. Perguntem a qualquer pessoa que saiba do assunto, e ela dir-lhes-á que não é fácil. Resumindo, acabei por fazer a minha estreia com eles no fim de semana seguinte, depois de ter ouvido pela primeira vez todo o alinhamento no único ensaio que tivemos. Comparado com eles – com os seus piercings e tatuagens e cabelos compridos ou espetados e pintados de várias cores –, parecia um menino de coro, de modo que me puseram lá atrás, perto do baterista, mesmo durante os meus solos. 

Se a música ainda não era uma obsessão, depressa passou a ser. Deixei de cortar o cabelo, arranjei algumas tatuagens clandestinas, e por fim a banda deixou-me começar a tocar na primeira linha. Deixei praticamente de trabalhar na quinta. Os meus tios não percebiam nada do que estava a acontecer, de modo que optaram por ignorar-me, o que reduzia os conflitos ao mínimo possível. Até deixámos de jantar juntos. Eu dedicava ainda mais tempo à música, fantasiando a respeito de tocar para enormes multidões em espetáculos esgotados.

Atualmente acho que provavelmente devia ter sabido que nunca ia resultar, uma vez que a banda não era assim tão boa como isso. Todas as nossas canções eram no estilo pós-punk, com muitos berros e barulho, e embora algumas pessoas apreciassem a música, tenho a certeza de que a maior parte dos públicos para os quais tocávamos no nosso canto do leste da Carolina do Norte não ficava deslumbrada. Mesmo assim conseguimos arranjar um nichozinho simpático, e quase até ao fim do meu último ano do secundário tocávamos vinte a vinte e cinco fins de semana por ano em buracos tão remotos como Charlotte. 

Mas havia atritos na banda, e foi-se tornando pior com o passar do tempo. O vocalista insistia em que só tocássemos canções escritas por ele, e embora possa não parecer muito importante, o ego tem matado mais bandas do que qualquer outra coisa. E para agravar ainda mais a situação, o resto do pessoal sabia que a maior parte das canções dele era medíocre. A dada altura, anunciou que ia mudar-se para Los Angeles e fazer carreira a solo, uma vez que nenhum de nós sabia apreciar o seu génio. Mal ele deixou a banda, o baterista – com vinte e sete anos, era o mais velho do grupo – fez saber que também ele desistia, o que não foi grande surpresa, uma vez que desde há já algum tempo que a namorada andava a insistir com ele para que assentasse. Quando ele arrumou o material e o carregou no carro, nós, os três que restávamos, trocámos acenos de cabeça, sabendo que tinha acabado, e empacotámos a tralha. Depois dessa noite, não voltei a falar com nenhum deles.

Por estranho que pareça, fiquei menos deprimido do que simplesmente perdido. Por muito que gostasse de tocar em público, tinha havido demasiado drama e muito pouco em termos de a banda ganhar qualquer espécie de impulso que pudesse levar-nos a algum lado. Ao mesmo tempo, não sabia o que fazer com a minha vida, de modo que o que fiz foi ir vivendo. Acabei o secundário – provavelmente porque os professores não queriam ter de aturar-me mais um ano – e passei uma porção de tempo no meu quarto a escrever música e a gravar canções que colocava no Spotify e no Instagram e no YouTube. Ninguém pareceu interessar-se. Pouco a pouco, comecei a ligar-me de novo à quinta, apesar de tudo indicar que os meus tios tinham desistido definitivamente de mim. E, o que foi mais importante, comecei a deitar contas à vida, sobretudo à medida que passava cada vez mais tempo na propriedade. Por muito centrado em mim mesmo que tivesse estado, até eu conseguia ver que os meus tios estavam a ficar velhos, e que a quinta estava com problemas. Quando lá chegara, ainda criança, cultivávamos milho, algodão, mirtilos e tabaco, e criávamos milhares de frangos para carne. Tudo isso tinha mudado nos últimos anos. Más colheitas, más decisões comerciais, maus preços e maus empréstimos tinham feito com que uma boa parte da terra original tivesse sido vendida ou arrendada a vizinhos. Perguntei-me como fora possível não ter dado pelas mudanças à medida que aconteciam, apesar de já saber a resposta. 

Então, numa quente manhã de agosto, o meu tio teve um ataque cardíaco severo quando se dirigia ao trator. A artéria descendente anterior esquerda sofrera uma lesão obstrutiva; como as pessoas no hospital explicaram, era o género de ataque cardíaco conhecido como fazedor-de -viúvas, por as probabilidades de sobrevivência serem incrivelmente baixas. Talvez a culpa tenha sido de todo aquele pão com manteiga que ele comia ao jantar, mas o facto é que morreu antes de a ambulância chegar. Foi a minha tia que o encontrou, e nunca mais ouvi alguém gritar e uivar como ela fez naquela manhã.

A Paige foi a casa para o funeral e ficou durante algum tempo, deixando o filho no Texas com o marido e a sogra. Receei que o regresso dela fizesse voltar as discussões, mas a minha irmã pareceu reconhecer que alguma coisa se tinha deteriorado dentro da nossa tia da mesma maneira que ela própria por vezes se sentia em baixo. É impossível saber o que se passa nas vidas privadas das pessoas, mas como nunca vi o meu tio e a minha tia terem um comportamento romântico um com o outro, acho que cresci a pensar que eram mais parceiros de negócio do que amantes apaixonados. Como é óbvio, estava enganado. Durante semanas, a minha tia pareceu mirrada. Quase não comia e andava sempre com um lenço para enxugar um infindável rio de lágrimas. A Paige ouvia histórias da família durante horas a fio, tratava da casa e certificava-se de que os empregados da quinta cumpriam um horário. Mas não podia ficar eternamente e quando se foi embora dei de repente por mim a tentar tratar de tudo como ela tinha feito.

Além de gerir a quinta e certificar-me de que a minha tia comia o suficiente, comecei a passar os olhos pelo monte de faturas e registos que o meu tio deixara em cima da secretária. Até os meus rudimentares conhecimentos de matemática deram para perceber que o negócio estava um caos. Apesar de a colheita de tabaco continuar a dar dinheiro, os frangos, o milho e o algodão tinham-se tornado sumidouros de dinheiro. Para evitar uma bancarrota que se avizinhava, o meu tio já tinha iniciado negociações para arrendar ainda mais terra aos vizinhos. Embora isso resolvesse o problema imediato, até eu sabia que ia deixar a quinta num buraco ainda maior a longo prazo. A minha reação inicial foi aconselhar a minha tia a vender de uma vez por todas para poder comprar uma casinha e reformar-se, mas ela recusou imediatamente a ideia. Mais ou menos pela mesma altura, descobri na secretária do meu tio recortes de várias revistas e newsletters a respeito de um mercado para alimentos mais saudáveis e exóticos, além de projeções de rendimento que ele já tinha feito. O meu tio podia ter sido taciturno e um não muito bom homem de negócios no geral, mas era evidente que andava a ponderar mudanças. Discuti o assunto com a minha tia e ela acabou por admitir que a única opção viável era pôr em marcha os planos do marido.

Não tínhamos dinheiro para fazer muita coisa logo de início, mas ao longo dos últimos sete anos, com um esforço tremendo, riscos, desafios, ajuda financeira da Paige, um ou outro golpe de sorte e muitas noites sem dormir, a quinta deixou gradualmente de criar frangos para carne e passou a especializar-se na produção de ovos orgânicos de galinhas do campo que vendemos a mercearias e supermercados por toda a Carolina do Norte e Carolina do Sul e que têm uma margem de lucro muito mais elevada. Embora ainda cultivemos tabaco, usamos a terra restante para nos concentrarmos no cultivo de tomates heirloom, muito populares nos restaurantes caros e nas mercearias gourmet e cuja margem provou ser também substancial. Há quatro anos, a quinta começou a dar lucro pela primeira vez desde há séculos, e, a seu tempo, conseguimos diminuir a nossa dívida para níveis razoáveis. Começámos até a recuperar alguma da terra arrendada, de modo que a quinta está mais uma vez a crescer, e no ano passado ganhámos mais do que nunca. 

Como disse, sou bastante bom naquilo que faço.
E eu sou um agricultor.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT