Ana Luísa Arcaro tinha apenas 10 anos quando escreveu um texto para um trabalho da escola. A composição foi publicada na “Folhinha de São Paulo”, suplemento infantojuvenil do jornal brasileiro “Folha de São Paulo”, em 1981, emoldurada pelo pai pouco depois e guardada durante mais de quatro décadas. Hoje, esse texto transformou-se em “Eu Sou uma Estrela”, o primeiro livro da recém-criada Cebola Edições.
O lançamento marca também uma nova etapa para a Cebola, livraria criada pelo ilustrador Sérgio Condeço, de 58 anos, no Bairro de São Miguel, em Alvalade. Depois de três anos a funcionar como atelier, loja, galeria e ponto de encontro cultural, o projeto estreia-se agora na edição de livros com uma obra que fala sobre felicidade, diferença e a importância de cada pessoa encontrar a sua própria luz.
A história começou no verão passado, quando Sérgio visitou Ana Luísa Arcaro em Campinas, no estado brasileiro de São Paulo. Durante a visita, a autora mostrou-lhe um texto que tinha escrito na escola primária, depois de uma professora desafiar os alunos a criarem uma composição de tema livre. Impressionada com o resultado, a docente enviou a composição para a “Folhinha de São Paulo”, suplemento infantojuvenil do jornal brasileiro “Folha de São Paulo”, sem que Ana Luísa soubesse.
Quando regressou de férias, Ana Luísa encontrou o recorte emoldurado pelo pai, que tinha ficado orgulhoso ao ver o trabalho da filha publicado. Um mês depois, ele morreu.
“O meu pai deixou-me uma mensagem muito clara: não te apagues, brilha sempre”, recorda à NiT a autora, que sentiu recentemente que estava na altura de dar nova vida ao texto.
Hoje, com 55 anos, Ana Luísa vive em Campinas. Licenciou-se em Direito, pela Universidade Católica de Campinas, trabalhou durante 16 anos como advogada e é atualmente assistente técnica de um desembargador no Tribunal do Trabalho daquela cidade do estado de São Paulo. Continua a escrever diariamente, embora sobretudo textos jurídicos.
“Eu Sou uma Estrela” representa um regresso ao lado mais criativo que a acompanhou desde a infância. Quando leu o manuscrito, Sérgio Condeço percebeu imediatamente que tinha ali algo especial. Em vez de tentar apresentá-lo a uma editora tradicional, decidiu criar a primeira edição da Cebola.
“Recebo muitos textos de pessoas que escrevem para os mais pequenos, mas este tinha uma sensibilidade e uma simplicidade muito raras”, conta o fundador à NiT.
O ilustrador acredita que existe espaço para livros infantis mais poéticos e menos preocupados com mensagens pedagógicas explícitas. A história acompanha uma pequena estrela feliz por fazer parte do céu, rodeada por outras estrelas, estrelas cadentes e diferentes formas de brilhar.
“É uma história simples sobre uma estrela que está feliz por ser uma estrela. Ao ouvi-la, os miúdos acabam por falar de felicidade, dos amigos e daquilo que os faz sentir bem. Não há ali uma moral explícita, mas há muitas perguntas”, explica.
Para a edição, optou por um formato cartonado, com cantos arredondados, transformando-o quase num objeto de coleção. “Como o texto era relativamente pequeno, fazia sentido transformá-lo num objeto com outra consistência”, refere. O livro foi apresentado e lançado oficialmente no sábado, 30 de maio, no espaço da Cebola.
As ilustrações misturam desenho e fotografia. Algumas das pedras que aparecem nas páginas foram recolhidas durante viagens e transformadas em pequenos planetas. As estrelas surgem com diferentes cores, tamanhos e formas, reforçando a ideia de que cada uma brilha à sua maneira.
“As próprias crianças que frequentam a Cebola reconhecem algumas das pedras porque estão expostas na montra do espaço”, acrescenta Sérgio Condeço.

De atelier de ilustração a um polo cultural de bairro
A publicação do livro é apenas o capítulo mais recente da história da Cebola. O espaço nasceu em maio de 2023, numa antiga mercearia do Bairro de São Miguel. Inicialmente, Sérgio procurava apenas um atelier onde pudesse trabalhar de portas abertas. O nome foi inspirado no apelido da mãe, vinda de uma família ribatejana, de mulheres fortes que ficaram ligadas à luta contra o Estado Novo, e acabou por ganhar outro significado: um lugar feito de várias camadas.
Com o tempo, o projeto foi crescendo. Primeiro chegaram as exposições de outros artistas. Depois surgiram as sessões semanais da Hora do Conto, realizadas todas as quartas-feiras às 17h45, aproveitando a proximidade da Escola Básica de São Miguel, em Entrecampos, Lisboa.
Agora, dezenas de miúdos passam regularmente pelo espaço. Alguns começaram a frequentá-lo ainda bebés e regressam agora já com três anos. As sessões privilegiam a conversa e a participação dos mais novos, em vez das dramatizações mais tradicionais. “Não gosto de contar histórias aos gritos ou de forma demasiado teatral. Prefiro conversar com eles e deixá-los participar”, admite.
A programação inclui ainda oficinas de ilustração para pais e filhos, apresentações intimistas de livros, pequenas exposições, encontros comunitários e conversas para adultos.
Em algumas oficinas, as próprias crianças participam diretamente na criação de futuros livros ilustrados. Os desenhos que produzem podem até integrar as versões finais das obras, sempre com autorização das famílias. Ao longo do processo, acompanham a evolução dos projetos e ajudam a construir as histórias.
Sérgio diz que recebe frequentemente mensagens de moradores que agradecem a vida que a Cebola trouxe ao bairro. Entre vizinhos, artistas e comerciantes, criou-se uma pequena rede de entreajuda que vai muito além da venda de livros ou ilustrações. “Acabámos por criar um pequeno polo cultural de bairro. As pessoas entram, conversam, trazem ideias e muitas das atividades surgem dessa relação com a comunidade”.
É também essa filosofia que pretende manter nas futuras edições. As tiragens deverão continuar pequenas, cerca de 500 exemplares, privilegiando textos poéticos, filosóficos e assinados por autores pouco conhecidos.
O próximo já está escolhido: a história de um robô espacial que perde um parafuso e parte numa viagem pelo universo à sua procura. “Quero publicar histórias que provoquem mais perguntas do que respostas. Há muitos livros que procuram ensinar uma lição. Eu procuro textos que despertem a imaginação e o lado humano dos leitores”, resume.
Tal como “Eu Sou uma Estrela”, será mais uma narrativa feita para despertar perguntas, em vez de oferecer respostas prontas. O livro de Ana Luísa Arcaro já está disponível para compra no espaço da Cebola, em Angra do Heroísmo, na livraria Lar Doce Lar, e na Papa-livros, no Porto. O preço de cada exemplar é de 15€.
Carregue na galeria para conhecer algumas ilustrações do livro “Eu sou uma Estrela”, bem como do espaço e atividades do Cebola.








