Livros

Esta livraria em Ponte de Lima não tem caixa nem funcionários — e só paga o que quiser

A NiT falou com Manuel Pimenta, o proprietário desta curiosa e inusitada livraria que é um buffet para amantes de livros.
A Livrearia em Ponte de Lima

Segundo o criador, um espaço como a Livrearia só podia existir em Ponte de Lima. “Acredito que se fosse numa rua ao lado, já não seria a mesma coisa”, diz à NiT, Manuel Pimenta, de 49 anos. Esta livraria, a funcionar desde outubro,fica no Largo da Matriz, espaço central da vila minhota. E tem uma particularidade curiosa:não tem funcionários nem caixa registadora. Se quer levar um livro, basta sair e pagar a um dos negócios vizinhos.

Não terá Manuel medo de que se aproveitem da sua boa vontade? “Sinceramente, não”, admitiu, rapidamente. “No primeiro mês, acredito que ninguém levou nada sem pagar. Mas também, se aconteceu, seria sempre algo residual. O livro não é um produto fácil de vender, nem é adequado para alguém que quer dinheiro de forma imediata.”

Segundo o letreiro que se encontra na entrada da loja, o valor dos livros é “10€ para quem for excêntrico ou tiver perdido o juízo, 5€ para o cidadão comum e gratuito para quem tiver o triste azar de roubar sem necessidade”.

“Qualquer negócio tem o risco de roubo e, mesmo com muitos funcionários, isto continua a ser uma realidade. No entanto, para alguém que vive numa terra com a dimensão de Ponte de Lima é muito tranquilo”, admite.

Descreve-se não só como criador da “Livrearia”, mas também um “cuidador” — e deseja que o negócio dure mais que ele próprio. O objetivo nunca foi fazer dinheiro, mas sim “valorizar o livro”. “Vendo obras de grande qualidade, mas, infelizmente, as pessoas não lhe dão o devido valor. Espero assim conseguir mostrar a importância a algo que está um bocado esquecido na mente das pessoas e, acima de tudo, tentar criar novos leitores.”

Antes de ser livreiro, Manuel era (e ainda é) farmacêutico. O espaço onde funciona hoje a Livrearia pertencia ao avô e esteve alugado durante vários anos, até que, por via de herança, caiu nas mãos do atual dono.

A visita é obrigatória

Depois de ter ficado vários anos à responsabilidade de uma pessoa que acabou por abandonar a loja, revelou-se-lhe esta grande oportunidade. “Avaliámos a hipótese de alugar outra vez a loja, mas consegui convencer a minha família a ficar com a livraria e a avançar com este projeto. Ainda bem que assim foi. Ia ser muito mais complexo abrir um espaço como uma livraria-café que agora estão na moda.”

Assim que teve oportunidade para assumir a loja, começou logo a explorar esta ideia de funcionar sem funcionários e caixa registadora. “É uma forma de trabalhar que casa bem com o ambiente que nos rodeia”, explica.

“Existe o complemento de ser próxima dos vizinhos, das funcionárias, que muitas vezes abrem a loja e acendem a luz, e de estar perto da farmácia onde trabalho. Estes elementos ajudaram a dar pernas para o projeto conseguir andar”, refere.

Além de espaço de valorização de literatura, Manuel tem mais ambições para o espaço. Quer também promover eventos ligados a outro tipo de artes. O primeiro vai ser protagonizado por Ana Deus, vocalista dos Três Tristes Tigres, a 23 de dezembro, que irá fazer declamação acompanhada por violino e harpa.

Para já, este é o único evento agendado para a Livrearia, mas, pela vontade do seu proprietário, não será o último. “Quero ter uma programação que, para uma terra como Ponte de Lima, possa ser bastante significativa.”

Este espaço fica na Rua Cardeal Saraiva 61, em Ponte de Lima, e está aberto das 9h às 19h.

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