Livros

“Manual de Infidelidade” de José Gameiro: “Se trair ou for traído não conte aos filhos”

O terapeuta familiar tem um novo livro, onde conta algumas das histórias mais fascinantes que já ouviu nas suas consultas.
Tem muitas histórias únicas.

Em 40 anos, José Gameiro já ouviu todo o tipo de histórias sobre traições e infidelidade. Uma das mais curiosas envolve um marido e mulher “que se davam muito bem”. No entanto, cada um tinha uma relação paralela.

Ambos viajam frequentemente a trabalho. A dada altura, as datas de uma dessas viagens acabaram por coincidir. Ele disse que ia para Milão e ela para Madrid. A verdade? Estavam os dois em Roma com os respetivos namorados. Como visitavam a cidade italiana em casal muitas vezes, acabaram por ir ao mesmo restaurante.

“Encontraram-se lá os quatro. Os respetivos namorados piraram-se, não sei se também aproveitaram para dar uma volta. O casal foi para o hotel e eu apanhei os cacos a seguir, porque a coisa não ficou boa, como é evidente. Suponho que, com a minha ajuda, conseguiram ficar juntos, porque a última vez que os vi foi há cerca de três ou quatro anos”, conta José Gameiro à NiT.

Esta é apenas uma das histórias que conta em “Manual da Infidelidade”, o seu novo livro que já está disponível nas livrarias desde o final de maio, embora o evento oficial de lançamento seja apenas a 19 de junho.

“Recorrendo a casos, naturalmente não identificáveis, que passaram pelo seu consultório, o psiquiatra com mais de 40 anos de experiência em terapia de casal, apresenta um livro essencial sobre a vida dos casais. Tudo pode ser menos complicado do que aquilo que imaginamos”, lê-se na sinopse.

A ideia de contar este tipo de histórias já estava na cabeça do profissional há muito tempo. Entre os casais que o procuram, os casos de infidelidade são os mais comuns e são tratados com toda a normalidade. Para ele, o mais importante é os casais irem às consultas, porque isso quer dizer que pretendem manter viva a relação — é sempre esse o objetivo deles.

O livro foi publicado pela Avenida da Liberdade Editores, após ter sido recusado por outras editoras devido ao título.  Com a obra pretende mostrar aos leitores que a traição pode trazer uma evolução dura, mas boa, na relação. “Depois de uma fase de muita mágoa, zanga e perguntas consegue-se baixar a tensão. É um progresso muito complexo, mas o casal começa a ficar mais tranquilo e reaproximam-se quer emocional como fisicamente.”

Mas afinal, porque é que os namorados, namoradas, maridos e mulheres traem? Não há uma resposta concreta, mas ao longo das décadas José já tem reparado em alguns padrões recorrentes. “Muitas vezes é só pelo acaso. Há uma circunstância qualquer em que estão fora e conhecem alguém e, posteriormente, envolvem-se fisicamente. Não é obrigatório estarem mal no casamento. Depois, podem ficar-se por aí ou formar uma relação paralela com componente física e amorosa. Não confessam o que está acontecer e maior parte das vezes acabam por ser apanhados. Daí vão ter com o terapeuta ou resolvem sozinhos”, explica.

A primeira traição também não significa o fim da relação — mas depois da segunda e da terceira já é mais difícil. “No livro também falo dos chamados infiéis profissionais, ou seja, aqueles que são regularmente infiéis com one ou two night stands frequentes. Esses já os vejo individualmente e não em casal”, aponta o terapeuta de 74 anos.

Apesar do título, o livro não pretende ensinar ninguém a trair. Explica, contudo, como a maioria dos traidores são descobertos. Tal como explica, hoje em dia é mais fácil a verdade vir ao de cima graças à Internet, visto que “o que é digital deixa rasto” e os telemóveis são uma das vias mais importantes porque muitas vezes não apagamos fotografias ou mensagens comprometedoras. Além disso, quando algum dos membros da relação está inseguro, vai sempre ver os dispositivos do cônjuge.

Tem 160 páginas.

Na obra não há uma história que José consiga destacar. Mesmo assim, fala-nos de uma entrevista que surge no final do “Manual”. Não é uma conversa com uma paciente sua, mas sim com alguém que lhe foi recomendado por um colega. Reproduziu a entrevista e mudou alguns aspetos para que a mulher não pudesse ser identificada.

É um caso de infidelidade muito longo, porque começou na juventude e durou 40 anos, sempre com a mesma pessoa. Quando lhe perguntou o que a levou a aguentar aquele tempo todo na relação clandestina, disse-lhe que foi a atração sexual. “A clandestinidade e o risco de sermos apanhados também dá muita força às traições.”

Como seria de se esperar, os episódios contados no livro são romanceados e os detalhes são alterados. Poderíamos achar que os casais abordados poderiam ficar zangados com as publicações de José, que também escreve para o “Expresso”, mas tal não acontece. “Nunca me aconteceu nenhum protesto de ninguém que se tenha identificado nem de alguém a quem mandei os textos antes de os publicar, porque há muitas histórias parecidas”, garante.

O terapeuta acaba por deixar um conselho a quem está envolvido numa situação de infidelidade. “Se trair ou for traído, não conte nada aos filhos. Se o fizer, coloca-os numa situação complicada”, alerta. “Os miúdos ficam sob muito stress e podem acabar por desenvolver traumas.”

“Uma traição é algo que apenas diz respeito ao casal. Tal como não falam da vida sexual com os filhos, também não deveriam falar das traições. Mas, muitas vezes, a pessoa que é traída usa os filhos para se defender, para arranjar aliados”, acrescenta.

“Manual da Infidelidade” já está disponível nas livrarias e online por 13,60€ (o seu preço habitual é de 17€, mas está atualmente com um desconto de 20 por cento). Tem 160 páginas e conta com um prefácio assinado por Joana Marques. “Não a conheço pessoal. Enviei o texto, pedi-lhe um prefácio e ela fez. Achei que era um tema que a Joana poderia gostar.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT